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3 OS ARQUIVOS SOBRE CONFLITOS

4.2 Etiqueta 1: Situacionalidade

Dentre as etiquetas narrativas, teríamos a situacionalidade como elemento que demarca a contextualização dos conflitos socioambientais, principalmente os ligados à água, a um cenário em que o uso dos recursos ambientais está constrangido por regras políticas escusas, pondo em jogo a sobrevivência de populações rurais e tradicionais. O elemento narrativo faz com que cada publicação/atualização sobre os conflitos não seja vista como pontual ou sazonal. A situação dos conflitos se abranda ou se intensifica, mas continua presente na realidade campesina e urbana (em menor grau) brasileira.

Quando destacamos esta etiqueta como sendo importante estamos dizendo que, além do fato de a CPT e a Fiocruz oferecerem sempre o contexto ambiental, social e político no qual estão inseridas as lutas locais, notamos que a narrativa ficaria solta, sem dimensionamento caso a “situacionalidade” não fosse apresentada. Digamos que falar da luta pela água num município do semiárido da Bahia, que já lida com o problema da extração de urânio, e não falar das controvérsias envolvendo o uso de energia nuclear no Brasil, ou não problematizar que a população já vivem em região de seca, parece não fazer muito sentido para Fiocruz e CPT.

Teríamos, pois, os conflitos socioambientais no geral como resultado de uma controvérsia mais dilatada: o modelo de desenvolvimento econômico vigente, segundo a CPT e Fiocruz. Não obstante, os conflitos acontecem num momento em que as crises socioambientais se tornam cada vez mais planetárias e emblemáticas de uma crise civilizatória mais ampla (Fiocruz, 2013, p.13), conforme nos aponta este trecho da Fiocruz.

A narrativa, pois, cuida de situar os conflitos como um dos problemas mais graves da nossa época. Pesa a crise da água diante dos dados; o escasseamento da água, tanto em quantidade, quanto em qualidade; barragens, poluição por esgotos domésticos e industriais, agrotóxicos, desmatamento das bacias hidrográficas, uso intenso da água na agricultura irrigada, geração de energia elétrica, enfim, o que se convencionou chamar de “uso múltiplo das águas”, sem regras e sem cuidados impacta os mananciais, gera conflitos e ameaça o elemento fundamental para qualquer forma de vida. (...) Estamos envolvidos com a luta pela água de beber em todo o semiárido (Malvezzi, 2003, p. 101).

A atualização dos dados sobre conflitos ocorre de forma periódica, já que as publicações são complementadas, seja com novas edições anuais, seja com acréscimos pontuais a depender dos desdobramentos ocorridos ou de novas situações que entram no radar da Fiocruz e CPT. Assim sendo, os números costumam ser dimensionados com anos

anteriores e revelados dentro de uma escala, muitas vezes, de crise, como por exemplo, reconhecendo que há uma “crise da água”. Pelo ano de referência é possível constatar a permanência do assunto nas páginas da Pastoral e Fiocruz.

Os termos grifados dão a ideia de que este contexto nem sempre se baseia em evidências, mas no que se convencionou a falar como causas ou consequências da falta de água. Mais uma vez, a ideia de crise da água aparece sem um adensamento de como os conflitos participam dessa crise. Digo, se a sua situação inflama a crise ou é decorrente da crise – o leitor pode se questionar.

Aspectos que repousam diretamente no âmbito político, como a Reforma Agrária, a Transposição do Rio São Francisco aparecem em mesma edição em que estão postas demarcações genéricas do valor da água para os atingidos, conforme os termos grifados. Os trabalhadores e trabalhadoras do campo acreditaram que havia chegado a hora de uma mudança profunda, que a Reforma Agrária finalmente iria acontecer. Por isso multiplicaram suas ações que bateram um recorde histórico (CPT, 2004, p.7).

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Quando a transposição do rio São Francisco tenta ser empurrada goela abaixo dos brasileiros e brasileiras, contra a opinião abalizada de técnicos e cientistas e daqueles que convivem no dia-a-dia com o grande “rio da integração nacional”, os conflitos em torno à água crescem e são graves, sobretudo os relacionados à construção de barragens (CPT, 2005, p.8).

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A água está sendo vista e encarada como a grande riqueza deste milênio e por isso cresce a disputa pelo seu controle (Nadaletti & Cervinski, 2005, p.115).

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Ao falar sobre “guerras pela água”, a CPT, neste caso, apresenta um contexto real. As guerras pela água se tornam a cada dia uma possibilidade mais real. Afinal, estamos lidando com um dos sustentáculos da vida. A guerra entre árabes e israelenses, a batalha civil de Cochabamba, a situação crítica da Turquia, são algumas situações dramáticas que passam pelo uso e preservação da água (Malvezzi, 2006, p.142).

Neste outro fragmento, opera a metáfora que serve, obviamente, para se ter noção de que o valor atribuído a água e é contexto mais ou menos do senso comum. A abundância gera cobiça e mesmo esse bem essencial não escapa, antes tem se tornado uma das

"mercadorias" mais cobiçadas do mercado, o "ouro azul", como querem que acreditemos. A tendência é, pois, aumentarem os conflitos por água (Siqueira & Zellhuber, 2007, p.111).

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Como um rio que tem um longo percurso até o mar, muita água vai mover os moinhos dos conflitos. Infelizmente. (Malvezzi, 2008, p. 99)

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O contexto também pode ser marcado pelos estereótipos e por imagens que humanizam, mas não refletem, por si sós, a totalidade dos casos. E estatísticas de fontes oficiais geralmente sustentam comentários; neste caso, a Organização das Nações Unidas (ONU). A velha cena das mulheres nordestinas carregando água na cabeça, ou das mulheres africanas ao redor de um poço, ou ainda as mulheres ribeirinhas caminhando para as beiras de rios para lavar suas roupas, pareciam cenas do atraso e do passado. O futuro sonhado é que todos pudessem ter a água ao pé de sua casa. A ONU afirma que quando a água está a mais de um quilômetro já é um problema (Malvezzi,2009, p.82).

Expõe-se o imaginário sobre os recursos hídricos, ao passo que se oferecem também explicações de como a própria Justiça acomoda as ambiguidades que levam aos conflitos; “ouro azul”, “dotado de valor econômico”, quando consideramos a Política Nacional de Recursos Hídricos11. Fala-se em “tentativa de dominação das águas e das sementes” (CPT, 2004, p. 202). Por isso, as ocorrências aparecem também constrangidas pelo cenário político que tornaria urgente a Reforma Agrária.

Assuntos como a Transposição do rio São Francisco estão presentes na narrativa, assim como inúmeras outras questões emblemáticas da pauta ambiental nacional: Belo Monte, Mariana, etc. Se parte do problema é, pois, o governo, ele também será convocado a resolver. Daí, aparece a responsabilização do Estado Brasileiro, cuja condução das políticas de energia elétrica e hidráulica gera inúmeros conflitos – apontam as evidências da Fiocruz e CPT.

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Conflitos que na outra ponta envolvem trabalhadores da construção das grandes obras. Como ressalta o texto que analisa estes conflitos, é o econômico que se sobrepõe a qualquer outra dimensão e valor da água (CPT, 2011, P.7).

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11

Os conflitos pela água estão relacionados às disputas pelo território, onde o capital sempre quer tornar privados os espaços comuns do povo e, principalmente, os das comunidades tradicionais que vivem em torno da natureza e das águas (Pacheco, 2014, p. 97)

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Vivemos uma transição de época e a questão da água se coloca na ponta dessa inversão. É hora da ética do cuidado com a água, assim como em relação a toda natureza. A economia não pode se colocar acima da ecologia, sob pena de não termos bases naturais – solos, água, clima, temperatura – para continuarmos aqui. Os fatos não permitem tergiversações (Malvezzi, 2015, p.105).

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O clima criado pela promiscuidade na estrutura do Estado inflaciona o potencial de conflitos. Nesse raciocínio, cada conflito é processo, não um ato em si e pronto! Ele é parte de um contexto maior de violência (Fernandes, 2016, p. 117).

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A etiqueta situacionalidade inclui ainda as referências a conflitos ocorridos em outros países; as características geográficas e climáticas que fazem com que chova em todo território nacional, contraponto o fato de sermos um país “tão dotado de água” com os conflitos pelo recurso hídrico. A “abundância gera cobiça” e, por isso, “a tendência é, pois, aumentarem os conflitos por água” e o Nordeste é rota de conflitos (Siqueira & Zellhuber, 2007, p.111), acrescenta a narrativa.

Dados sobre a disponibilidade hídrica mundial e a relação dos conflitos com o capitalismo e os usos múltiplos da água ocupam outro pedaço da narrativa no quesito situacionalidade. Os conflitos sociais existem porque a água está ameaçada como bem comum. O aprisionamento da água para uso privado, para a sua mercantilização direta ou na forma de minérios, energia, insumo na produção agrícola e industrial, é o que a torna escassa e motivo de disputa (Pacheco, 2014, p. 97).