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Desde que tomamos conhecimento de que participaríamos da plenária do dia 12 de novembro de 2009, criamos uma enorme expectativa, já que seria uma grande oportunidade de estar presente numa reunião onde estariam os atores do conselho-objeto de minha pesquisa, momento em que seria possível a observação direta de como eles atuavam, passo mais real em relação ao que nós havíamos presenciado, visto ou escutado desde dezembro de 2008, momento do início do trabalho.

Cheguei à referida reunião no transporte disponibilizado pela Prefeitura

Municipal de Curuçá na companhia do Conselheiro suplente do MPEG, de uma pesquisadora do MPEG, de outro professor que estava substituindo o representante da UFRA e o motorista da Prefeitura.

Aquela ida havia sido acertada com o gestor da RESEX que passou o número de nosso celular para o Secretário Municipal do Meio Ambiente, responsável pela logística da Reunião. Durante a viagem, o conselheiro

suplente do MPEG, quando soube do nosso interesse de estudo, passou a comentar sua experiência como membro suplente do conselho, o que aumentou nossa expectativa.

No momento de chegada, às 10h30m, naquele dia à Casa do Pescador, vimos uma intensa movimentação de pessoas, bicicletas, motos, carros, etc. Era uma movimentação tão intensa, que não se coadunava com a descrição que escutáramos há algum tempo antes, sobre a dificuldade existente de reunir os membros daquele Conselho e sobre a pouca participação do grupo.

Na Casa do Pescador, não havia nenhuma arrumação especial para a situação acima. O local já possui o formato de um auditório, com uma grande mesa para os que iriam fazer a sua composição, funcionários do ICMBIO, que ali estavam montando os equipamentos, tais como: notebooks, aparelhos de data-show, etc.

Naquele momento, observando a Casa do Pescador, percebemos então que, como centro de gestão da AUREMAG, o local abrigava materiais variados advindos das políticas públicas, espalhados pelo local, como geladeiras, freezers, bicicletas etc, criando um aspecto de um depósito de materiais. Soubemos depois que eram materiais que não foram entregues em função de problemas nos cadastros, ou de beneficiados que não foram buscar o que deveriam receber. Aquele aspecto de depósito parecia diminuir o espaço físico ali existente.

Momentos antes do início da reunião, os Conselheiros que eram funcionários dos órgãos de governo sentaram com uma maior frequência nas cadeiras da frente e do meio do auditório, enquanto os Conselheiros representantes da sociedade civil ocuparam em sua maior parte as cadeiras da parte de trás.

A reunião iniciou às 11h, momento que o gestor Senhor Flávio Cerezo deu boas vindas e explicou que o atraso da reunião aconteceu devido à falta de energia elétrica. Após isso, fez a contagem dos membros presentes, o que totalizou quinze representantes dos vinte e sete membros do Conselho.

O Gestor leu a pauta do dia: 1) Alterações propostas pelo Conselho ao Termo de Referência do EIA-RIMA para a Implantação de transbordo de minério de ferro da empresa Anglo Ferrous Brazil em Curuçá/PA, anteriormente de interesse da MMX Amapá Mineração Ltda e outros encaminhamentos; 2)

Apresentação dos novos Analistas Ambientais (AA) do ICMBio lotados na RESEX e mudanças administrativas; 3) Autorização para licenciar ou executar empreendimentos, projetos e pesquisas na RESEX e seu entorno; 4) Plano de Manejo da RESEX; 5)Propostas de inclusão de novos membros no Conselho Deliberativo da RESEX; 6) Observações sobre o regimento interno do Conselho e a legislação pertinente; 7) Assuntos gerais.

Posteriormente à leitura da pauta, ainda bem no início da reunião, a representante da AUREMAG fez um esclarecimento explicando o porquê do grande número de pessoas e movimento tão intenso no lado externo da Casa do Pescador: surgiu a notícia de que haveria cadastramento para recebimento de casas do Programa de Reforma Agrária. A partir da fala da representante da AUREMAG, muitos ali presentes se retiraram e o intenso tráfego de veículos externo diminuiu bastante.

O relato acima demonstra o que a RESEX representa para aquela realidade: uma política pública que fornece benefícios ao pescador. Aquela movimentação era de fato pela expectativa de recebimento de artefatos, advinda das dificuldades e carências vividas naquele contexto pela população local. Na fala da representante da AUREMAG, ficou exposto que muitos que ali vieram eram de comunidades distantes e que alguns fizeram empréstimos para o pagamento de transporte até ali, demonstrando toda a relevância das políticas da RESEX para os que ali vivem.

Com a proximidade das 12h, momento mais quente do dia, o local se transformou num ambiente de desconforto e calor. As poucas janelas da Casa do Pescador e seu pé direito baixo contribuíam bastante para isso.

A reunião foi suspensa às 12h20 para o almoço, combinando-se a retomada dos assuntos às 14h20. O almoço, fornecido pela Prefeitura, foi servido na cozinha, compartimento contíguo ao auditório da reunião, sendo o cardápio composto de peixe cozido acompanhado de baião de dois. Após o almoço, se fez necessária a lavagem das louças sujas. Algumas pessoas ajudavam sobre o comando e a orientação da representante da AUREMAG, já que não havia ali um esquema de suporte à Reunião.

Em seguida, muitos ficaram fora da casa, conversando, fazendo contatos e a infra-estrutura precária do espaço ficava cada vez mais exposta, já que os

dois banheiros não pareciam comportar as necessidades de uso dos que ali se encontravam.

O retorno à Reunião se deu às14h45m e o primeiro tema ainda estava em pauta. Apesar de algumas opiniões serem lançadas em plenário por vários membros, se fazia latente a tentativa de disputa por espaço entre o representante da Prefeitura e o representante da Paróquia.

A dificuldade de avanço era motivo de alerta do Gestor, que avisou sobre a urgência e a necessidade de discussão de outros temas. Alguns assuntos da pauta da reunião foram apresentados e discutidos com maior rapidez, tais como: 1) a apresentação dos novos Analistas Ambientais (AAs) e a comunicação da substituição do gestor; 2) a apresentação de vários pesquisadores de Instituições de Ensino que compõem o conselho deliberativo, objetivando aprovação de projetos de pesquisa; 3) a comunicação da rescisão do contrato pela firma que estava elaborando o Plano de Manejo da RESEX Mãe Grande e a comunicação que o aquele trabalho teria seu prosseguimento. Em que pese o notável encaminhamento para um melhor direcionamento das discussões, objetivando deliberações, alguns itens geraram bastante polêmica, como por exemplo, as alterações propostas pelo Conselho ao termo de Referência do EIA-RIMA para a implantação de transbordo de minério de ferro da empresa Anglo Ferrous Brazil e a entrada de novos membros no Conselho Deliberativo da RESEX. A discussão sobre o primeiro item da pauta causou polêmica em função dos impactos ambientais e sociais que o empreendimento poderá provocar na RESEX. Foi uma discussão com pouco avanço, havendo inserções do representante da Prefeitura, do representante da Paróquia e de pesquisadores da UFPA, ficando acertado que não haveria apresentação do EIA-RIMA naquela reunião devido a falta de informações.

No prosseguimento dos trabalhos, o gestor leu as solicitações de inclusão de novos membros no Conselho Deliberativo e também as referências do regimento sobre o assunto. Os pedidos eram da Associação Comercial de Curuçá (ACIC) e do Instituto Tapiaim e, naquela oportunidade, os representantes da ACIC e do Instituto leram suas propostas de integração ao Conselho.

A situação de entrada de novos membros gerou excepcional polêmica na reunião. Percebeu-se ali uma forte divisão entre os conselheiros a favor e

contra a entrada dos mesmos e que a opinião de cada um já estava bastante consolidada antes mesmo daquela reunião. A representante da AUREMAG se manifestou terminantemente contra a entrada de novos membros, demonstrando ter sido orientada pelo MPF para a manutenção e, se possível, uma diminuição na quantidade de Conselheiros, enquanto que o procurador da Prefeitura alertou para a necessidade de tais solicitações deverem ser analisadas a partir do regimento atual, demonstrando a opinião em favor da entrada de novos membros. A polêmica foi instaurada e a discussão adiada para a próxima reunião.

Reunião do Conselho – Casa do Pescador – 12/11/2009

Fotografia: Arquivo Flavio Cerezo.

Reunião do Conselho – Casa do Pescador – 12/11/2009

Destaque ao Gestor Sr. Flávio Cerezo na reunião do conselho – Casa do Pescador – 12/11/2009.

Fotografia: Arquivo Flavio Cerezo.

Finalizando a reunião, às 19h20 daquele dia, o gestor disse que enviaria as atas de reuniões pendentes de aprovação, para que todos os membros aprovassem ou se manifestassem para a necessidade de alterações.

A reunião foi bastante longa e cansativa. Era visível a falta de condições daquele local para eventos desse tipo. A participação de membros da sociedade civil não foi de grande relevância. Alguns falaram, mas com poucas falas que realmente contribuíssem para as discussões e deliberações.

Mesmo assim, o assunto da entrada de novos membros demonstrou a importância que o Conselho da RESEX já alcançou naquele contexto. Se no início da discussão, a Reserva não envolveu muitos atores, a continuação de sua atuação e principalmente o que ele representa hoje parece ter despertado muitos interesses na realidade local. Percebemos que os interesses estão relacionados às políticas públicas que chegaram junto com a RESEX e que são de importância demasiada para a população, gerando com isso movimentação das lideranças em busca de poder e da visibilidade política que aquele conselho pode oferecer.

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