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Etnografia de uma Vara do Tribunal do Júri

Capítulo 3 – O PROCESSO DE HOMICÍDIO, A PARTIR DE ESTUDO

3.2 Etnografia de uma Vara do Tribunal do Júri

Definir o estudo etnográfico como método a ser utilizado na produção desta tese foi uma tarefa de resgate dos tempos de mestrado. É desta época em que realizava o meu estudo de campo no Fórum de Porto Alegre no Rio Grande do Sul o início da minha aproximação com o meu objeto de estudo: a construção da verdade no Tribunal do Júri.

As ideias iniciais que iluminaram a escolha por esse objeto de pesquisa estão relacionadas a momentos especiais de minha trajetória acadêmica. O desenvolvimento do meu trabalho de campo durante a dissertação de mestrado foi no Foro Central da Comarca de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

Neste Foro localizam-se duas Varas do Tribunal do Júri cada uma com dois Juizados. Durante a minha coleta de dados nos processos criminais de homicídio doloso convivi cotidianamente por um ano com os (as) funcionários (as) das secretarias desses juizados, e com seus respectivos juízes e juízas.

À época, utilizei técnicas de pesquisa como as entrevistas em profundidade e observação não participante do ambiente cartorário, e fixei-me na análise documental dos processos criminais; até porque o meu interesse principal era realizar uma análise descritiva dos réus condenados e absolvidos no Tribunal do Júri.

O local que me foi indicado para a coleta desses dados foi uma pequena sala que era utilizada como arquivo processual, separada da sala central do cartório, e do gabinete do (a) juiz (a), bem como do espaço do tribunal; embora, houvesse um corredor que dava acesso ao juiz (a) até o tribunal do Júri, que era o mesmo corredor que dava acesso à sala onde eu pesquisava. Ou seja, eu não assistia o dinamismo da empiria processual, com as sessões do júri e as audiências.

Com o título de Mestre em Sociologia obtido com a dissertação de mestrado intitulada, Os reguladores do conflito letal: análise dos personagens dos delitos, dos

juízes e das penas (Porto Alegre, 1999-2001), defendida em 2003, no Programa de Pós-

Graduação em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul contribui à produção de conhecimento na discussão sociológica sobre a seletividade dos réus no ambiente judiciário, relacionando o perfil do réu condenado às visões político-criminais dos (as) juízes (as).

O ingresso no Doutorado em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco com o projeto intitulado: Análise dos personagens dos delitos, dos

operadores do direito e das sentenças – estudo comparado entre os tribunais do júri de Porto Alegre e Recife (1999 a 2005) era a possibilidade de realizar através de uma

perspectiva comparada a análise situacional da seletividade dos réus condenados nos crimes de homicídio doloso, em Porto Alegre e Recife.

No mesmo ano (2008), assisto as disciplinas de Sociologia do Crime e Teoria Sociológica, e procuro me aprofundar nas contribuições teóricas a partir das abordagens elaboradas no âmbito da Sociologia Interacionista do Desvio e da Etnometodologia. Com destaque para a análise da construção social do rótulo (Becker) e do estigma (Goffman), bem como a importância do contexto situacional no plano das interações sociais, para poder demonstrar a natureza ordenada da vida cotidiana.

Simultaneamente, começo a participar do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Criminalidade, Violência e Políticas Públicas de Segurança (NEPS/UFPE). Neste grupo de pesquisa realizo estudos que focalizam o sistema de justiça criminal, especificamente as agências Polícia Civil e Ministério Público. Com isto, a produção científica que mais tenho contato dentro do grupo é a intitulada: Inquérito Policial no Brasil: uma pesquisa empírica. O objetivo da pesquisa foi investigar o papel e a função do inquérito policial no processo de esclarecimento e processamento de crimes no Brasil. Para isto, foram analisadas as características que a investigação policial agrega sob o modelo do inquérito policial e seus resultados ao longo das etapas posteriores do processo penal.

Esta pesquisa foi desenvolvida através de métodos quantitativos e qualitativos, e foi exatamente nos primeiros que participei em toda a sua plenitude. Com a ajuda de outros (as) pesquisadores (as) do grupo de pesquisa foi produzido o instrumento de coleta de dados, coletou-se os dados quantitativos diretamente na Central de Inquéritos do Ministério Público de Pernambuco, foi produzida a matriz do banco de dados, e os dados foram analisados e publicados.

Compor este grupo nesta pesquisa foi fundamental para que eu realizasse uma mudança de enfoque em minha tese. Motivado por problemas logísticos (longo tempo de deslocamento e elevado recurso financeiro para ir a Porto Alegre coletar os dados no Tribunal do Júri), por opção teórica e metodológica, e pela abertura de um campo de estudos, originalmente de difícil acesso, ou seja, o campo judiciário, em conjunto com o meu orientador, resolvo redefinir meu problema de pesquisa e objeto de estudo.

Com isto, o meu novo objeto de estudo é redefinido e aprovado em defesa de projeto: a construção da verdade no Tribunal do Júri. Neste sentido, para compreender e explicitar os princípios de funcionamento deste sistema ou regime de verdade seria necessário verificar a produção da verdade como fruto de uma decisão consensual sistematicamente negociada (Kant de Lima, 2008).

Com a redefinição de meu objeto de estudo, também foram redefinidos os métodos e procedimentos de investigação e análise. Assim, os métodos qualitativos tornam-se fundamentais em minha tese de doutoramento. O campo de estudo é a Vara do Júri, e neste sentido a realização de um estudo etnográfico que permitisse observar e compreender o cotidiano nesta Vara, com a realização de audiências e sessões, e o envolvimento de seus funcionários (as), juízes (as), promotores (as), defensores (as), acusados, e réus tornou-se essencial para o aprofundamento de minha pesquisa.

O meu estudo etnográfico foi realizado na 1ª Vara do Tribunal do Júri (VTJ) da cidade de Recife, capital do Estado de Pernambuco. Ele inicia no mês de janeiro de 2010 vinculado à pesquisa intitulada: O homicídio no fluxo do Sistema de Justiça Criminal em Pernambuco27. Em uma das etapas desta pesquisa foi necessário realizar uma análise longitudinal retrospectiva dos processos relativos a homicídios que foram finalizados em 2009, e para este fim foi necessário coletar os dados primários junto aos processos de homicídio doloso. E, é exatamente neste contexto situacional que eu me inseri na Primeira Vara do Júri.

O acesso à Primeira Vara do Tribunal do Júri – a chegada.

A Primeira Vara do Tribunal do Júri (PVTJ) de Recife está localizada no Fórum Rodolfo Aureliano, no bairro de Joana Bezerra, especificamente no segundo andar, na ala oeste. A PVTJ é composta pelo Primeiro Tribunal do Júri e pelo Primeiro Cartório do Júri, situados um ao lado do outro. Segundo a Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça, a composição da PVTJ é a seguinte:

“A 1ª Vara do Tribunal do Júri é dividida em duas secretarias apartadas, mas que funcionam no mesmo espaço físico. A chamada 1ª Vara do Júri, onde estão as ações penais que tramitam até a prolação da sentença de pronúncia, impronúncia ou absolvição primária e a 1ª Vara do Tribunal do Júri, na qual os feitos tramitam até o julgamento pelo júri popular. O acervo total é de 3514 processos, sendo 220 inclusos na Meta 2. Há oito funcionários no cartório que faz a instrução e seis no cartório que opera as sessões do Tribunal do Júri.” (Auto Circunstanciado de Inspeção Preventiva. Justiça Estadual do Pernambuco. Portaria nº 206 de 20 de julho de 2009).

A topografia da Vara do Júri estudada pode ser descrita da seguinte forma:

“O Fórum Rodolfo Aureliano tem 43 mil metros quadrados, distribuídos em seis pavimentos, sendo um térreo - com área de estacionamento para os magistrados e veículos de serviço, e outros cinco andares para as mais de 80 Varas. O Fórum dispõe, ainda, de dois salões do júri, banco, Correios, biblioteca, oito elevadores, acesso para deficientes, auditório, restaurante/lanchonete e estacionamento para 600 veículos na área externa...O projeto baseou-se na arquitetura da Roma Antiga, local em que nasceu o Direito Ocidental. Desta forma, o prédio está circundado de altas colunas - que lembram a entrada das construções romanas. Na parte interna, a torre central - circundada por um espelho d'água - está reservada ao

27 Pesquisa realizada por integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Criminalidade, Violência e

Políticas Públicas de Segurança – NEPS/UFPE, coordenado por José Luiz de Amorim Ratton Júnior. O capítulo intitulado: Considerações metodológicas sobre o campo de estudo conterá maiores detalhes e informações sobre a referida pesquisa.

funcionamento da biblioteca e auditório. Na área, estão dois imensos painéis de Francisco Brennand, medindo mais de 450 metros, com inscrições rupestres. Para o Tribunal de Justiça, o Fórum representa a concepção de um Poder Judiciário rápido, eficiente, moderno e uma prestação jurisdicional de qualidade: o Judiciário do futuro.” (Site do TJPE – Fevereiro de 2005).

Foi no ano de 2003 que o Fórum do Recife, na Ilha do Leite, foi nominado de Fórum Rodolfo Aureliano. Rodolfo Aureliano foi promotor público, juiz e desembargador, morreu aos 61 anos em 1964. O ano da nominação do Fórum foi o ano do centenário de nascimento de Rodolfo Aureliano.

A primeira vez que fui ao Fórum Rodolfo Aureliano morava em Boa Viagem, bairro da zona sul de Recife. Eu já tinha passado pelo Fórum e sabia mais ou menos como chegar até lá, saindo da zona sul. No entanto, como “estrangeiro” preciso da certificação que estou indo ao local correto. Pergunto as minhas colegas de pesquisa. Qual é a melhor maneira de chegar ao Fórum Rodolfo Aureliano? Elas respondem: de sua casa, o melhor é pegar qualquer ônibus que vá em direção à Agamenom, e descer na primeira parada de ônibus, após a ponte João Paulo II. Ok, eu disse.

No ponto de ônibus da pracinha de Boa Viagem observo que muitas linhas de ônibus passam pela Agamenom. Pergunto a um senhor qual é o ônibus que vai mais rápido para o Fórum Rodolfo Aureliano? Ele responde que não sabe onde fica este fórum. Fico em dúvida e pergunto a outra pessoa. Novamente recebo uma resposta negativa sobre a localização do fórum. Em determinado momento uma senhora se aproxima e me fala que o nome do fórum que desejo ir chama-se Fórum Joana Bezerra. Aceito a sua sugestão e pego o ônibus que ela me indica para ir ao dito fórum. Perto do Fórum observo a paisagem do seu entorno: ele fica ao lado do rio Capibaribe, próximo da estação de metrô Joana Bezerra, e próximo do bairro do Coque. Desço do ônibus, linha PE-15, ao lado do fórum e me dirijo a sua entrada da Avenida Beira Rio.

Em frente ao Fórum as meninas me esperavam. Fomos à lanchonete tomar um cafezinho para organizar a estratégia do que iríamos dizer na Primeira Vara do Júri, ou seja, nesse momento organizar a nossa apresentação era fundamental. Sabia que esta primeira apresentação do NEPS e de nosso interesse em realizar a pesquisa junto aos processos de homicídio, também seria a porta de entrada do meu estudo etnográfico.

Após o cafezinho fomos de elevador ao segundo andar. A sala da Primeira Vara do Júri fica no final de uma ala onde funcionam diversas varas criminais. A sua

localização lembra uma esquina onde se encontram as alas: sul e oeste, inclusive na ala oeste somente funcionam o Primeiro Tribunal do Júri e o Primeiro Cartório do Júri.

O próximo passo era participar de uma reunião com a juíza titular da Primeira Vara do Júri, que tinha agendado uma reunião com a equipe da pesquisa sobre os Homicídios no Sistema de Justiça Criminal para o turno da tarde. Contudo, cabe relatar um pouco sobre como se chegou a esse agendamento e a referida reunião.

De início, por questões de facilidade de acesso, entramos em contato com o Juiz da 4ª Vara do Tribunal Júri, Dr. Francisco Cintra. Entretanto, na época estava ocorrendo uma visita do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Vara estava voltada para atender as demandas do CNJ, pelo que o Juiz solicitou que voltássemos posteriormente.

O planejamento inicial da pesquisa sobre os homicídios no Sistema de Justiça Criminal (SJC) era realizar o estudo nas quatro Varas do Tribunal do Júri do Recife, e não tínhamos o contato de nenhum outro juiz. Com isto, decidiu-se entrar em contato com o Corregedor de Justiça Dr. Bartolomeu Bueno (na época Vice-Presidente do Tribunal de Justiça) para saber se seria possível partir dele a autorização para realizarmos a pesquisa nas Varas do Júri (VJ).

No entanto, ele nos informou que não poderia dar essa autorização. Seria necessário então solicitá-la diretamente ao Juiz titular de cada Vara, indicando-nos a Dra. Fernanda Moura, Juíza da 1ª Vara do Tribunal do Júri (PVTJ), por considerá-la bastante acessível.

Desta forma, procuramos a Dra. Fernanda através de uma ligação telefônica para a PVJ, e conversamos com ela sobre o nosso interesse em realizar uma pesquisa, que, em certa maneira ela se tratava de uma continuidade de outra pesquisa que já tinha sido realizada na Central de Inquéritos, no Ministério Público de Pernambuco, que precisaríamos coletar alguns dados quantitativos contidos nos processos; e que posteriormente assistiríamos a audiências e sessões. Também a informamos que estávamos ali por indicação de Dr. Bartolomeu, e agendamos uma reunião com a mesma na intenção de apresentar a pesquisa em questão e a equipe de trabalho.

A equipe de trabalho era composta por cinco pessoas, quatro meninas e eu. Duas meninas realizam o Curso de Mestrado em Direito pela UFPE, outra é Mestre em

Ciência Política pela UFPE, outra é Mestranda em Sociologia pela UFPE, e eu Doutorando em Sociologia pela UFPE.

Por volta das 14h30min apresentamos a pesquisa, o grupo de trabalho responsável por sua realização e o NEPS à juíza titular da PVTJ, que de pronto nos deu autorização para a sua realização. A juíza aproveitou a oportunidade para apresentar-nos às (aos) funcionárias (os) da Vara. Ela os chamou, pediu a atenção deles e nos pediu para que repetíssemos a apresentação que tínhamos feito a ela para eles.

A minha impressão foi que eles reagiram com bastante atenção ao que expusemos, fizeram algumas perguntas básicas como: qual o horário que iríamos realizar a pesquisa? Qual era a nossa formação acadêmica? Quem era o coordenador da pesquisa? Se, usaríamos algum equipamento da Vara do Júri como computadores, impressoras, etc; e, simultaneamente a algumas perguntas, respostas também já eram dadas por eles: o horário aqui é das 13h às 19h; ah então são estudantes do Direito; os

computadores que estão funcionando estão ocupados.

Escutamos as suas respostas, dissemos que o professor Ratton é o coordenador do NEPS e o responsável pela pesquisa, e que iríamos realizar uma divisão na equipe para podermos frequentar o local durante toda a semana. Explicamos que todos da equipe coletariam os dados quantitativos nos processos, e uma parte da equipe ficaria responsável por assistir algumas audiências.

Eu participei de ambas as equipes, porque quanto mais tempo eu permanecesse na PVTJ, as possibilidades de encontros com os operadores da justiça (juízes, promotores, defensores, advogados contratados), funcionários (as) do cartório (secretário, escreventes, terceirizados, oficiais de justiça); com as pessoas que acessavam o cartório seriam maiores; enfim, com a riqueza das interações sociais cotidianas nesse espaço social. Percebi que o tempo entre o primeiro contato para a realização da pesquisa e o dia em que finalmente conseguimos a liberação da juíza titular para iniciá-la ficou compreendido entre os meses de dezembro de 2009 e março de 2010.

Como está organizada a Primeira Vara do Tribunal do Júri – o início da etnografia.

A Primeira Vara do Tribunal do Júri de Recife (1ª VTJ) e o Primeiro Tribunal do Júri (1º TJ) têm como titular a juíza Fernanda Moura de Carvalho. Ela é juíza de 3ª entrância da Comarca de Recife. A 1ª VTJ é composta pelos seguintes servidores: uma juíza titular, um juiz auxiliar, um chefe de secretaria, uma vice-secretária, seis técnicos, dois estagiários e uma funcionária terceirizada. Faz parte desta equipe ainda uma assessora da juíza titular. Vale ressaltar que quando algum dos juízes da Vara entra em férias, o Tribunal de Justiça designa um juiz para atuar em seu lugar, por tempo limitado, o qual é chamado de juiz substituto.

A Vara está dividida fisicamente em duas salas para audiência de instrução, um setor de secretaria, um setor de atendimento ao público e a sala/auditório onde ocorrem as sessões do Tribunal do Júri. A etnografia foi iniciada em março de 2010, simultaneamente à coleta de dados quantitativos para a pesquisa sobre o tempo dos processos de homicídio, realizada por toda a equipe de trabalho. No início eu realizava as atividades etnográficas em um dia da semana, e em outros dois dias era realizada a coleta de dados da pesquisa de tempo. A partir do mês de maio de 2010, a coleta de dados da pesquisa de tempo deslocou-se para o Arquivo Geral, invertendo a prioridade de pesquisas, ou seja, desenvolvo o trabalho de campo etnográfico três vezes por semana na 1ª VTJ.

O meu trabalho de pesquisa estava disposto da seguinte forma: durante a produção da planilha quantitativa com os processos escolhidos eu destinava duas tardes durante a semana para esta confecção e nas outras duas tardes eu assistia a audiências ou uma sessão do júri. Quando a planilha foi finalizada eu passei a ficar mais uma tarde assistindo a sessões do júri. Neste ínterim, eu já me movimentava com facilidade de uma extremidade a outra da vara do júri, ou seja, o caminho percorrido pela juíza para ir da sua sala até o tribunal, transitando pelo cartório, e vice versa.

Na chegada da equipe para a realização da etnografia na 1ª Vara do Tribunal do Júri fomos apresentados a Maria, que estava substituindo o chefe de secretaria, o qual se encontrava de férias. A mesma nos apresentou a alguns funcionários da Vara, explicando que estávamos ali para a realização de uma pesquisa e explicamos rapidamente, e pela segunda vez, a todos sobre o que se tratava a nossa pesquisa.

No trabalho de análise documental dos processos, a equipe se dividiu em duplas, visto que não havia espaço suficiente para acomodar todos ao mesmo tempo na Secretaria da Vara. Cada dupla comparecia à 1ª Vara em média 02 vezes por semana, para a coleta dos dados.

A princípio os funcionários demonstraram certa estranheza em relação à nossa presença no local. Apesar de serem prestativos sempre que perguntávamos algo ou fazíamos alguma solicitação, era perceptível o incômodo entre as pessoas do ambiente. Essa postura foi percebida mais claramente entre os servidores dos setores de atendimento ao público e do Tribunal do Júri. Já no setor das audiências, os servidores pareciam estar mais à vontade. Quando era estabelecido algum diálogo com alguns destes, eles procuravam obter mais informações acerca da nossa pesquisa, na tentativa de compreender melhor o nosso trabalho ali.

Durante as audiências, juiz (a), promotor (a), defensor (a) e técnico pareciam não se incomodar com a nossa presença. Passávamos despercebidos sentados em um canto da sala de audiências, fazendo anotações. Além disso, sempre que pedíamos ao técnico a permissão para presenciar as audiências, este se mostrava bastante solícito, nos dando acesso livre. Nos intervalos das audiências, caso tivéssemos alguma dúvida, o técnico sempre respondia com interesse. Bem sabemos que as audiências são públicas e

a priori não deveríamos ter grandes problemas para assisti-las, no entanto, vale à pena

ressaltar esse comportamento, tanto dos servidores, como das autoridades presentes nas audiências, porque nem sempre a publicidade dos atos processuais é respeitada e poderíamos ter tido de fato algum problema de acesso às mesmas.

No primeiro mês de pesquisa não ocorreram sessões do Tribunal do Júri, pois a Juíza titular se encontrava de férias e o Juiz auxiliar, Dr. Ernesto Bezerra, realizava apenas as audiências de instrução.

Inicialmente, a divisão das tarefas foi feita da seguinte forma: três pesquisadores (as) eram responsáveis pelo estudo etnográfico, cada qual em um setor da Vara – atendimento ao público e cumprimento de despachos judiciais, setor do Tribunal do Júri