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Uma etnografia dos processos étnicos e políticos noUma etnografia dos processos étnicos e políticos noUma etnografia dos processos étnicos e políticos no

No documento T e r ritórios Q uilombolas (páginas 52-54)

Uma etnografia dos processos étnicos e políticos noUma etnografia dos processos étnicos e políticos no

Uma etnografia dos processos étnicos e políticos noUma etnografia dos processos étnicos e políticos no

sul do país.

sul do país.sul do país.

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Vera Rodrigues27

INTRODUÇÃO INTRODUÇÃOINTRODUÇÃO INTRODUÇÃOINTRODUÇÃO

Este artigo emerge no contexto dos debates políticos e científicos, relativos ao tema das comunidades quilombolas no Brasil. A partir desse contexto, descortina-se no país a inserção de novos atores sociais envolvidos na temática, tais como o Movimento Social Negro, instituições do Poder Público, entidades não-governamentais e o campo acadêmico, especialmente os núcleos de ensino e pesquisa na antropologia social. Nesses debates travam-se os desencontros e convergências dos vários sentidos do termo “quilombo”, operado por esses distintos agentes que participam do processo de reconhecimento e auto-reconhecimento do pleito quilombola como um processo étnico e político. Nesse sentido, operam desde uma visão estática da categoria quilombo, como territórios e indivíduos geograficamente isolados, em que a apropriação da terra deu-se, unicamente, pelo aquilombamento de escravos fugidos do cativeiro; até uma visão aberta que reconhece e propõe uma relação dialética entre passado e futuro, memória e re-significações, como vetores que permitem enfocar conceitos abertos como invenção cultural e plasticidade étnica, deslocando assim conceitos fechados de quilombo ou identidade étnica28.

Uma visão aberta pressupõe a análise da singularidade de distintos “quilombos” como forma de ampliar tal conceito e dar a conhecer processos históricos e caminhos diferenciados da formulação de pleitos coletivos. Por conta disso, enfoca-se o cenário do Rio Grande do Sul, estado agrário em que a presença da população negra ainda se reveste de uma invisibilidade social e simbólica29, por meio da possibilidade da reescrita

da história do negro nesse estado e a história desse estado a partir do negro30 como

contraponto a essa invisibilidade.

27 Mestre em antropologia social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade

Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS/UFRS).

28 Ver Arruti (1997 p.24). 29 Ver Oliven (1996 p.17) 30Ver Barcellos (2005 p.87)

Sendo assim, esse artigo, resultante de uma reflexão maior31, reflete uma etnografia

dos processos étnicos e políticos no sul do país32, além de ser um ponto de vista dos

debates acadêmicos e políticos, orientado pela ressemantização de olhares, escutas e vivências entre a pesquisadora e os sujeitos que a acolheram. Esse acolhimento inicia- se em 2001 quando, como aluna de graduação em ciências sociais, iniciava uma pesquisa centrada nas categorias de etnicidade, território e trabalho. Essa pesquisa tinha como objetivo perceber questões relativas à autonomia cultural e mobilidade social em um grupo familiar negro residente na área rural do município de Viamão/RS33.

Esse grupo, auto-reconhecido como Gente da barragem, trazia nessa denominação o fato marcante da construção de uma barragem que deixara parte de suas terras submersas, mas, além disso, havia histórias de trabalho nas granjas de arroz da região, de formação de alianças e fronteiras simbólicas nos bailes de “preto” e de “gringo”, de uma relação intrínseca com aquele território e a figura da ancestral-fundadora Anastácia. Naquele momento era esse o cenário e os atores vislumbrados. Porém, em 2004, como aluna de mestrado em antropologia social, percebo que a Gente da barragem nomeia e constitui uma ampla rede de parentesco e laços sociais, vinculados a outros sujeitos e territórios. E, ainda mais, que essa rede se constitui em vínculos construídos geracionalmente e (re) atualizados nos primeiros passos do pleito político em prol do reconhecimento como Quilombo da Anastácia.

Esse quadro no qual encontro correspondência teórica com os debates sobre o processo de etnogênese34, em que se enfatizam sujeitos construindo a sua história, bem como

emergências de identidades étnicas delineia o momento vivido pelo Quilombo da

Anastácia. Por essa via, destacam-se o pleito de reconhecimento como comunidade

quilombola e os direitos sociais, especialmente territorial, advindos desse pertencimento. A análise desse processo orienta-se por uma perspectiva relacional em que é relevante pensar como as pessoas estão organizando sua vida, atribuindo sentido às idéias de quilombo e quilombola, bem como estão se relacionando com os demais atores envolvidos nessa dinâmica processual, no caso o Movimento Social Negro e os agentes de instituições governamentais e não-governamentais.

Para descortinar essas relações, esse artigo estrutura-se em dois momentos. No primeiro está a Gente da barragem, a partir do contexto familiar, territorial e de parentesco, enfocando a figura da Anastácia, ancestral-fundadora do grupo. No segundo momento, a análise recai no processo de etnogênese que os reconfigura como Quilombo

da Anastácia, enfatizam-se às noções de quilombo e identidade étnica, acionadas

pelos sujeitos como reflexo da constante redefinição das relações sociais e dos próprios sujeitos como fios condutores da construção da identidade e de um princípio de autonomia desses grupos sociais35 .

31 Ver SILVA, Vera R. Rodrigues da. De Gente da barragem a Quilombo da Anastâcia: Um estudo

antropológico sobre o processo de etnogênese em uma comunidade quilombola no município de Viamão/ RS. Dissertação de mestrado, apresentada ao PPGAS/UFRGS, Porto Alegre, RS, 2006, 161 p.

32 Nesses processos étnicos e políticos, destacam-se os casos das comunidades de São Miguel, Rincão

dos Martinianos, Morro Alto e Casca, no interior do RS, além da Família Silva em Porto Alegre.

33 No município de Viamão, universo desse enfoque, os dados oficiais referem a 44% da população negra,

sendo que há indicativos de, pelo menos, três comunidades a serem mapeadas e pesquisadas.

34 Ver Banton (1977) e Arruti (2003). 35 Ver Linhares (2003).

No documento T e r ritórios Q uilombolas (páginas 52-54)