Eu acho o cinema uma coisa assim... É a invenção do homem moderno! (risos...) O cinema é o produto cultural do homem moderno. Porque às vezes eu digo: - Pô, que doideira..., podia pensar em fazer música: têm coisas mais fáceis... não é?
Sim, porque você não tem que batalhar tanto, que lutar tanto. Não tem que morrer de câncer aos quarenta anos! Não tem que ficar neurótico para fazer um filme... que é uma coisa muito cara! Quer dizer, o cinema é uma coisa muito boa porque tem dentro dele todas as artes. Condensa todas as formas de expressão do ser humano. Mas, ao mesmo tempo, é uma coisa muito traidora, muito ansiosa, não é?... Mas é muito bom também!...A questão é que se deixassem a gente; se a Kodak, a Embrafilme, a Censura... se deixassem a gente amadurecer e encontrar o próprio caminho...seria mais fácil! Mas a não ser que mude tudo nesse país, o negócio está meio brabo para a gente. Não é a nossa geração que vai fazer e sim a geração que virá depois. Não estão abrindo nem para quem já está ainda mais para quem não está!
Uma das coisas que fico pensando é a questão da montagem, que é a conquista maior do cinema. O cinema se coloca enquanto uma linguagem a partir do momento em que ele inventa essa coisa chamada montagem que algumas pessoas perceberam. O Glauber, o Eisenstein, o Vertov percebera, e inventaram uma história nova para o cinema – o que as pessoas que fazem cinema em forma de literatura, em forma de teatro, não perceberam. Cinema tudo pode - é a arte em que a relação entre tempo e espaço dançou – foi uma revolução...
...Tanto que o Eisenstein não conta uma historia literária, linear ou não. É uma coisa de imagem onde a história está num quadro. É o barato do som junto com a fotografia em movimento. Na IDADE DA TERRA, Glauber sacou isso mesmo. A história que ele conta em forma de filme, as pessoas só vão entender quando não mais estiver presente a questão do romance.
Desenho animado, por exemplo, é a expressão maior do cinema, no sentido da comunicação. É um tipo de experiência em que só com o ruído você rapidamente compreende... A gente está muito acostumada a prestar atenção à palavra: é a ditadura da fala, não é?
...Eu me considero uma pessoa que está começando a entrar na profissão com ACREDITO QUE O MUNDO SERÁ MELHOR, meu primeiro média-metragem. É uma produção independente – nós somos pequenos produtores. Eu sou minha patroa e uma patroa
que não se paga!! Para a gente não dá mais!... Nós que somos mais pobres temos que pagar mais caro, sabe?... A Grifa era uma firma que tinha desconto na Líder. Agora, só têm direito a desconto as firmas que têm grande movimento... Não há incentivo – nada. Para gente nova investir em cinema, os riscos são muitograndes.
Nós somos trabalhadores. Somos pessoas que querem fazer cinema. Tem que renovar... é sempre o mesmo tipo de coisa, a mesma velharia. Não deram espaço para a geração da gente. E eu acho que para a gente buscar esse espaço, tem que ser agressivo. Porque eu trabalho, sei fazer, tenho cabeça e penso na história desse país. Eu penso a minha história pessoal. E não porque eu sou artista!! Trabalho é uma coisa essencial e o cinema é o meu trabalho. Se tem que renovar deem espaço, deixem a gente trabalhar...
...Nós somos pessoas pobres. Se tivéssemos uma segurança – não precisássemos trabalhar para sustentar uma casa – a gente teria feito alguma coisa. O que falta é isso, entendeu? Na Escola, tem gente que pode fazer. Não sei quem, mas penso que deve haver pessoas que não precisem trabalhar para sobreviver e que possam se dedicar à uma firma, armar uma proposta de trabalho – as pessoas aprendem na prática.
Uma coisa que eu acho que seria bom vocês fazerem, seria convocar, pelo menos, as cabeças melhores da Escola para um debate franco sobre cinema, sobre a Escola, o ensino, as questões pessoais de cada um... E publicar, começar a fomentar isso. Até um grupo, não um grupo fechado – político-ideológico – mas com propostas de trabalho. Um é branco, outro é vermelho – cada um vota em quem quiser – não importa isso. Importa é que haja trabalho para concretizar esse objetivo. Assim tipo: a tática é essa, a estratégia é outra, sabe? Quer dizer, na estratégia todo mundo se desune – em vez de se unir como a esquerda o quer (risos...) ...como a esquerda tradicional o quer!! Que a tática una todo mundo e que a estratégia gere contradições para continuar se renovando. Eu estou propondo que a tática seja a mesma e que a estratégia seja diferente. Que a gente lute junto para conquistar um fim que é mudar essa situação. Pra onde? Cada um tem o seu fim. Que o fim não seja o mesmo, mas o que os meios sejam os mesmos, entendeu?
Realmente, eu acho que essa revista poderia ser um primeiro passo para as pessoas se unirem. Ser um fato de união para se começar a abrir um debate entre estudantes de cinema, pessoas que querem fazer cinema e que vão fazer de qualquer forma, nem que seja...é um meio muito pequeno, é um gueto...
Uma revista deve ser uma coisa agressiva, mas agressiva mesmo no sentido de que: - “Nós estamos aí; nós somos trabalhadores e exigimos que deixem a gente fazer!” que seja uma coisa madura nesse sentido. A gente não vai formar um grupo para fazer o mesmo
cinema, mas que a gente se uma para trocar experiências, trocar forças e cada um consiga fazer o seu filme. A questão é brigar. É fazer de qualquer forma: com filme vencido, com câmera Bolex de corda, fazer filme mudo...
Esse curso de cinema tem que começar a pesquisar e vez de ficar curtindo cineastas famosos, gênios. Tem que haver um debate na Escola, e esse debate ser publicado e gerar críticas, porrada.
Na UFF, por exemplo, houve uma coisa individualista, cada um pensando em ser diretor do seu filme... e não houve nada. A conjuntura é outra, a época é outra... ou você é filho de um Barretão – e faz porque tem o aval do pai – ou...mesmo que depois rache, tem que se juntar com uma proposta.
...Quanto a essa obsessão pela direção... a pessoa mais capaz deve dirigir. Mas é claro que essa pessoa não vai ser dona da historia; não vai ser o autor. O roteiro pode ser escrito por todo mundo...
Porque é uma questão de grana, uma questão de tempo. Na hora de filmar tem que ter uma pessoa que diga: -“Põe a câmera aqui!” Controlar a coisa, entendeu? Porque se não fica inviável. E a cabeça precisa estar amadurecida. Quando a cabeça da gente é uma cabeça de pessoas jovens não dá, não funciona. Então tem que amadurecer.
Se vocês me perguntarem da influencia de Glauber, eu vou sizer que me sinto influenciada por ele nos entido de ler as entrevistas dele e não de ver os filmes dele – nós não tivemos acesso, a geração pós-68 não teve. Lí tudo que Glauber dizia por aí... Vi muito mais coisa de Godard e outras pessoas do que dele... Nelson...(papo de bar com o Nelson vale mais do que um ano de curso de cinema). O Glauber fez a minha cabeça! Não em termos de cinema, mas em termos de Brasil. E acho que esse é o grande barato”.
QUEIROZ, Jussara. Eu e o cinema: Jussara Queiroz: depoimento. [dezembro, 1983]. São Paulo: Cinematógrafos, n.1.