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3 METODOLOGIA DE PESQUISA

4.1 TRAJETÓRIA PESSOAL E PROFISSIONAL

4.1.1 Eu-empreendedor

Durante toda a história de um empreendedor, o mesmo encara momentos que despertam emoções que podem incentivá-lo ou fazê-lo recuar, dependendo de como as situações são encaradas. Nesta subseção, os sentimentos destacados na narrativa do entrevistado principal e determinadas características e ações esboçadas nas narrativas compartilhadas ajudam a compreender que o empreendedor, ao contrário do que o “empreendedorismo de palco” evidencia, está envolto de sentimentos, muitas vezes conflitantes.

Um desses sentimentos é o medo. Medo de fracassar, de desapontar os entes queridos e as pessoas com quem trabalham. Porém, o autor-empreendedor destaca em sua narrativa a importância de, além de perceber a presença dessa emoção, utilizá-la para impulsionar a ação empreendedora, principalmente quando este já possui experiência e saber: “Eu acho que o medo faz parte, né?” (E205); “Medo não é ruim, não, entendeu? Pelo contrário, pelo contrário” (E209); e “Eu via medo ruim talvez quando era jovem. Mas, depois que eu aprendi” (E229).

O empreendedorismo não se limita a execuções comerciais e organizacionais. O eu-empreendedor e o eu-esposo estão em um relacionamento imbricado que, muitas vezes, não se pode separar. As responsabilidades para com os entes queridos ocupam lugar de destaque na narrativa do autor-empreendedor e de sua esposa: “Tinha um frio na barriga porque eu tinha minha esposa que tava confiando em mim. Podia dar errado, obviamente, né?” (E208); e

“(Quando) eu conheci Cezar, ele não tinha garantia de nada. Cezar tava desempregado, não tinha estudo, tinha só terminado o ensino médio. Mas eu nunca esqueci quando ele olhou pra mim e disse: ‘Confia em mim. Eu só lhe peço um voto de confiança. Confia em mim e eu vou lhe mostrar do que eu sou capaz’. Eu estava de férias da faculdade e ele falou que só lhe peço um voto de confiança” (Fe27).

Durante as primeiras experiências profissionais, o autor-empreendedor teve apoio de seu antigo mentor. Após a fracassada primeira experiência, o entrevistado realizava trabalhos de treinador de tênis de mesa para a prefeitura. Após passado certo tempo, seu antigo mentor o convidou a trabalhar novamente com ele. No trecho a seguir, pode-se perceber sentimento de gratidão para com aqueles que contribuíram com o seu desenvolvimento profissional: “Eu fui. Eu tinha muito respeito por ele, principalmente porque ele me buscou no meio da rua” (E95).

O exercício da autoconfiança também se mostra importante na consecução de objetivos e no enfrentamento diário. Porém, a autoconfiança é também desenvolvida ao longo do curso da vida de um empreendedor, pois este adquire maior amadurecimento tanto no “como” agir, quanto em sua autocompreensão, como apresentado no trecho do autor- empreendedor: “Quando eu coloquei o negócio, eu já era uma pessoa – como é que eu posso lhe dizer? – mais confiante. Eu corri o risco calculado” (E206).

A confiança também é apresentada na exploração da oportunidade de negócio, quando o empreendedor se conhece e confia em sua capacidade para empreender e resolver os problemas diários, como retratado no trecho do autor-empreendedor apresentado a seguir: “Eu acho que o impulso para empreender foi a questão da confiança, mesmo. Tava um bom tempo desacreditado” (E83-1).

Durante determinados momentos de sua história, o autor-empreendedor consegue desenvolver a liderança. O trecho seguinte mostra que as experiências durante a infância e adolescência podem impactar, de maneira interessante, na forma como a realidade é encarada: “Eu fui um dos primeiros chefes da minha idade, do lobismo, né? Que é antes do escotismo” (E48).

Encarar os fracassos como episódios que tragam algum aprendizado pode ser uma forma de superá-los de modo mais satisfatório. No trecho a seguir, o autor-empreendedor apresenta o lado emocional de não conseguir realizar de modo satisfatório uma atividade e revela a sua consciência para com os momentos “no fundo do poço” em que a decepção “toma voz”:

“Pensando bem, eu sempre fui ao fundo do poço e voltei. Pensando bem agora, por mais que você tenha me forçado, tenho mais fracasso do que vitória. Só que meus fracassos são aquela coisa né? São fracassos que não são o crash. É um fracasso, às vezes, emotivo, emocional, mas são fracassos que não se repetem, né? Pensando bem, são isso” (E83-2).

Na passagem a seguir, o autor-empreendedor relata a sua perseverança para a realização das atividades e sua proatividade para a formação de parcerias antes do seu negócio atual. Essas suas atividades se mostram essenciais para qualquer profissional: a persistência e a busca de formação de uma rede de contatos: “Aí, eu fiquei tentando, tentando, tentando, tentando. Aí, eu comecei a procurar parcerias aqui” (E138).

A pesquisa narrativa, quando realizada de maneira a se buscar histórias compartilhadas entre uma rede de sujeitos, pode ser uma fonte de dados confiável na compreensão holística de um fenômeno. Nos parágrafos a seguir, apresentam-se as perspectivas de outros entrevistados a respeito do autor-empreendedor. Essas descrições

também se tornam legítimas na busca pela compreensão de possíveis ações e características que venham a favorecer a ação empreendedora.

Estar compenetrado na realização de determinado projeto ou até mesmo em uma simples tarefa pode ser favorável para a consecução de variados objetivos. O foco na realização de atividades se destaca na narrativa da esposa enquanto esta caracteriza o autor- empreendedor: “Porque ele é do tipo daquela pessoa que quando quer uma coisa só para quando está concluída” (Fe17).

Ter resiliência, capacidade de superar as intempéries e utilizá-las para impulsionar o seu desenvolvimento se mostra útil, principalmente quando se compreende o contexto em que, neste caso, o autor-empreendedor vivia:

“Pronto, todas as vezes que falam de resiliência eu lembro de Cezar. Para a pessoa ter passado por tudo o que ele passou, pela infância difícil dele, pai alcoólatra, uma infância difícil, um ciclo de amizade que sonhava ter as coisas materiais e ele não tinha e ele ia lá. Sempre dava um jeito de adquirir aquilo” (Fe21).

Apresentado como sinônimo de empreendedorismo, o otimismo se mostra na metáfora do copo ‘meio cheio’ no sentido de que é sempre possível reverter uma situação, como relatado no trecho da esposa:

“Eu vejo Cezar-empreendedor aquela pessoa focada e resiliente, capaz de transformar o pouco, ou quase nada, em muito. Ele é o tipo de pessoa que é positiva. Sabe aquela pessoa que vê o copo meio vazio ou meio cheio? Ele sempre acha que tá meio cheio” (Fe22).

Os colegas de trabalho, nas pessoas do primeiro e do segundo funcionário da empresa, mostram o lado profissional do autor-empreendedor. Colher dados desse público mostra como o empreendedor pode ser compreendido perante os seus colaboradores e pode confirmar, conforme as suas experiências, o perfil do empresário. Nesse sentido, do trecho do primeiro funcionário se pode observar o acompanhamento das tecnologias e práticas do setor, bem como a autoadaptação perante as mudanças e aproveitamento de oportunidades:

“Cezar é um empreendedor porque ele consegue visualizar o comércio, se adaptar e conseguir novas tendências. Gerir aquilo dali. Isso para mim é empreender. Já aconteceu isso, sim. O TEF, por exemplo, a transferência eletrônica de fundos, que por aqui não existia ainda. E ele buscou isso aí bem antes da obrigatoriedade” (Cf.I.40).

Quando questionado se o entrevistado principal seria empreendedor e o porquê disso, o segundo funcionário da empresa destaca a liderança, a proatividade e a cooperação com os colegas para a resolução de problemas. Percebe-se que esses atributos estão em uma imbricada relação entre o perfil empreendedor e o gerencial: “Sim, por causa do seu espírito

de liderança, que é muito grande” (Cf.II.76)”; “A proatividade. Ele não descansa enquanto não encontrar uma solução para o problema. Seja qualquer problema. Se ele não encontrar a solução, ele procura quem consegue resolver” (Cf.II77); e“Ele não age sozinho. Ele pede opinião, ele compara com a opinião de outra pessoa e testa antes de tomar a decisão final” (Cf.II.78).

O profissionalismo e o comprometimento para com os projetos da empresa são outros atributos que foram destacados nas narrativas compartilhadas de dois amigos do autor- empreendedor. O primeiro, Ricardo (nome fictício), mostra o quanto o empreendedor precisa respeitar o seu negócio. Já o segundo, Manoel (nome fictício), revela a qualidade da dedicação entregue à realização de atividades: “Eu acho assim: a grande virtude dele estar tão bem nos negócios é que ele é muito objetivo, sério” (A.I.30); “Um dos grandes diferenciais de Cezar é o comprometimento” (A.II.44).

A construção de possíveis cenários, unida à resiliência pessoal, contribui para a resolução de problemas e para a inovação nas práticas e nas formas de comercialização. Isso pode ser observado no trecho do parceiro e contador da empresa, o senhor Diogo (nome fictício), apresentado a seguir: “Ele é um cara extremamente – como é que eu vou dizer? É um cara dinâmico, muito dinâmico. Ele é um cara que, se a situação não dá por aqui, ele tá vendo duas ou mais, três situações para se sobressair dela” (Pc32).

Em suma, esta seção apresentou algumas características e emoções presenciadas nas narrativas compartilhadas da história do autor-empreendedor selecionado. A compreensão desses elementos pode contribuir para a percepção do lado humanístico do empreendedor e de atributos percebidos em rede, mas não para ditar atributos considerados únicos e definitivos.

Ao compreender o empreendedor como um ser humano que possui sua subjetividade, que se dispôs a desenvolver em si determinados atributos e que vivenciou certas experiências que o fizeram explorar oportunidades de negócios de maneira bem sucedida, aos poucos se permite a desmistificação de um perfil heroico e salvador, advindo de concepções atomísticas de autores clássicos da economia e da administração, como Schumpeter (1934), que abordam o mesmo como detentor de qualidades excepcionais e agindo de maneira individualizada (PAIVA JÚNIOR; ALMEIDA; GUERRA, 2009).

O meio em que o empreendedor está envolvido não concebe apenas o espaço físico e geográfico, mas promove relações ativas entre os diversos sujeitos, gerando influências afetivas, simbólicas e sociológicas (PEREIRA et al., 2012). Assim, ao reunir as diversas perspectivas sobre os sentimentos, atributos e ações do indivíduo empreendedor, não se pretende aqui voltar aos antigos estudos do empreendedorismo sobre a ótica econômica

clássica, mas, em ligação com todo este trabalho, se pretende aborda as variadas óticas que as narrativas sugerem.

O empreendedor passa a ser concebido como um indivíduo humano com sentimentos e ações em busca de realização profissional que consegue, ativamente ou não, contribuição de diversos outros agentes. E, com isso, a sua história é compartilhada com esses outros indivíduos de modo a montar um quadro relacional e enraizado de sua vida, o que pode contribuir para o desenvolvimento de uma consciência humanizada, não só comercial.

Corroborando, Paiva Junior, Almeida e Guerra (2008) compreendem o empreendedorismo humanizado como sendo compreendido por uma perspectiva sócio- histórica, indo além das lógicas racional, individualista e utilitarista. As múltiplas perspectivas sobre a vida individual do empreendedor aqui estudado nos mostram a não racionalidade instrumental na formação de laços pessoais.

Até mesmo os parceiros de negócio, como o contador da empresa e o superintendente da CDL, mostraram em suas narrativas um lado pessoal importante a ser destacado. Com isso, afirma-se que, pelo menos neste estudo, o empreendedorismo e a atividade empresarial na cidade de Cajazeiras se mostram em uma imbricada relação entre o profissional e o pessoal. Na próxima subseção será dada atenção à cronologia dos fatos a cerca da vida do empreendedor deste estudo.