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51 1.3 LIBERAIS CONTRA O NEOLIBERALISMO

CAPÍTULO 4 EUA: O MODELO DA CRIMINALIZAÇÃO DA

MISÉRIA

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Nós acreditamos que o governo fascista e racista dos Estados Unidos usa seu aparelho coercitivo interno para executar seu projeto de opressão contra negros, minorias étnicas e pessoas pobres dentro dos Estados Unidos.

Panteras Negras81

om o objetivo de criminalizar os movimentos por direitos civis e despolitizá-los, caracterizando-os como criminosos, desenvolveu-se o discurso do endurecimento penal nos EUA. Este período, que é considerado a primeira onda de predominância do discurso de “lei e ordem”, se origina no final da década de 1960 e início de 1970, quando os EUA presenciaram uma série de manifestações bastante radicalizadas contra a guerra e o racismo82. Foi nesse momento que surgiu o grupo “Panteras Negras”83, um movimento negro e marxista, armado, que exigia o fim da brutalidade policial contra negros e que abalou a Califórnia com seus constantes enfrentamentos com a polícia.

80 Os gráficos exibidos neste capítulo têm seus dados expostos de forma mais completa em tabelas que se encontram no anexo deste trabalho.

81 BLACK PANTHER PARTY, 1972. Sétimo ponto da segunda versão do programa do grupo “Panteras Negras”, que compreende o total de dez pontos. Tradução livre da autora. No original: “We believe that the racist and fascist government of the United States uses its domestic enforcement agencies to carry out its program of oppression against Black people, other people of color and poor people inside the United States”.

82 É importante lembrar que a segregação racial nos EUA até a década de 1960 era legalizada e que somente em 1964 com a promulgação do Civil Rights Act, pelo menos formalmente, a discriminação racial passa a ser considerada crime. Contudo, o racismo nos EUA persiste e se mantém, como será visto ao longo deste capítulo, como uma das principais formas de controle de classe da sociedade estadunidense contemporânea.

83 O filme de Mario Van Peebles, “Panteras Negras”, é excelente ilustração do surgimento, em 1966, e das atividades posteriores do grupo até sua dissolução, em meados da década de 1970, depois de brutal repressão estatal. O então diretor do FBI, Edgar Hoover, chegou a afirmar publicamente, em 1968, que os Panteras Negras eram “a maior ameaça à segurança interna dos EUA” (Disponível em: <http://www.blackpanther.org/legacynew.htm> consultado em set. 2007). Tradução livre da autora. No original: “the greatest threat to the internal security of the United States”.

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Os Panteras Negras podem ser considerados um grupo paradigmático desse período de enorme efervescência política, já que sintetizam, em um único grupo, a luta de esquerda e anti-racista. No item sete de seu programa eles declaravam que a comunidade negra deveria lutar contra a brutalidade e o racismo policial, para sua legítima defesa, com armas, cujo porte é permitido pela Constituição dos EUA. No oitavo tópico do mesmo programa eles demandavam a libertação de todos os detentos negros, já que eles haviam sido julgados de forma parcial nos tribunais dominados por brancos (BLACK PANTHER PARTY, 1966). Era uma organização, em suma, que defendia a ação armada, desde que com a justificativa da legítima defesa – dentro da esfera legal, portanto –, e denunciava o forte racismo do aparelho coercitivo estatal.

De modo generalizado, portanto, a repressão aos manifestantes era brutal – especialmente os negros eram vítimas rotineiras de assassinatos – e a resposta à agressão estatal consistia em manifestações ainda mais violentas. Em resumo, a repressão estatal estava falhando na manutenção da “ordem” e a retórica da “lei e ordem” buscava, da perspectiva da direita, solucionar tal questão. Por outro lado, segundo Christian Parenti (2000), este foi um período de grandes conquistas na esfera dos direitos de suspeitos e réus. Assim, na década de 1960 foi garantido ao réu pobre o direito ao defensor público, o direito de ter um advogado ao seu lado durante os interrogatórios e, finalmente, em 1966, a polícia passou a ser obrigada a pronunciar oralmente os direitos dos suspeitos no momento de sua detenção.

De forma concreta, foi o candidato Barry Goldwater do Partido Republicano, na corrida presidencial de 1964, quem lançou, em campanha eleitoral, pela primeira vez um programa de “lei e ordem”. Ele afirmava que: “hoje há violência nas nossas ruas [...] (e) nada prepara o caminho para a tirania mais que a falência dos oficiais públicos de manter as ruas seguras [...]. Nós republicanos buscamos um governo que [...] encoraje uma economia livre e competitiva e fortaleça a lei e a ordem.” (apud BECKETT, 1997, p. 31)84. Ao mesmo tempo, os políticos conservadores afirmavam que a “cultura do welfare” minava a disciplina das populações pobres e promovia um

84 Tradução livre da autora. No original: “Tonight there is violence in our streets [...] (and) nothing prepares the way for tyranny more than the failure of public officials to keep the streets safe […]. We Republicans seek a government that […] encouraging a free and competitive economy and enforcing law and order”.

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parasitismo legal, com a dependência da proteção social do Estado, e ilegal, com a possível entrada desta população no mundo da criminalidade.

Em contraposição, o presidente eleito pelo Partido Democrata, Lyndon Johnson, afirmava que o combate ao crime deveria ser realizado pelas autoridades locais e que programas de combate à pobreza também são eficazes na ação contra o crime, já que buscam as soluções de suas causas. Todavia, já em 1965, os democratas começaram a mudar sua perspectiva e somente quatro meses após sua eleição, Lyndon Johnson discursou afirmando que iria promover uma verdadeira guerra ao crime. Em 1967 ele implantou o Safe Streets Bill, que dava maior apoio federal às políticas locais de combate ao crime (BECKETT, 1997). Desse modo, a visão de que o crime poderia ser combatido através de políticas sociais de inclusão começou a ser alterada.

Apesar de Barry Goldwater ter perdido as eleições, sua mensagem de endurecimento coercitivo venceu. No final de 1968, segundo dados divulgados por Parenti (2000), 81% das pessoas nos EUA afirmavam que a lei e a ordem estavam colapsadas e o caos era culpa dos “crioulos” e dos “comunistas”. Assim, a primeira grande legislação federal sobre crime foi o Omnibus Crime Control and Safe Streets

Act, de 1968. Era a retórica da direita, de incrementar o aparato coercitivo estatal em

detrimento das políticas de combate à pobreza, que moldava esta legislação, implantada ainda durante o governo de Johnson.

Na campanha presidencial de 1968, o candidato republicano, Richard Nixon, criticou a “permissividade” liberal e afirmou que a “solução para o crime não é quadruplicar a verba governamental de nenhuma guerra à pobreza, mas (promover) mais condenações (de réus)” (apud BECKETT, 1997, p. 38)85. Desse modo, a prática da lei e da ordem nos EUA teve início com uma associação, ainda que indireta, entre raça e crime. O caráter racista destas políticas foi, inclusive, abertamente admitido por um assessor de Nixon, que afirmou: “Nós iremos atrás dos racistas. O apelo subliminar ao eleitor anti-negro sempre esteve presente nas declarações e falas de Nixon” (apud BECKETT, 1997, p. 42)86.

85 Tradução livre da autora. No original: the “solution to the crime problem is not the quadrupling of funds for any governmental war on poverty but more convictions”.

86 Tradução livre da autora. No original: “We’ll go after the racists. That subliminal appeal to the anti-black voter was always present in Nixon’s statements and speeches”.

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Com a posse de Nixon, em 1969, os conservadores passaram a construir um aparato estatal de repressão nunca visto. Com a “guerra às drogas” foi criada uma agência específica de combate ao abuso de drogas, o Office of Drug Abuse Law

Enforcement – ODALE que, posteriormente, se tornou a Drug Enforcement Administration – DEA. Além disso, houve um grande investimento tecnológico na

estrutura do aparato coercitivo do Estado. Assim, se em 1968, somente 10 estados tinham sistemas automatizados de bases de dados criminais, 90 milhões de dólares e quatro anos depois, 47 estados já tinham sistemas automatizados de bases de dados criminais conectadas ao FBI (PARENTI, 2000). Apesar da campanha de Nixon pela reeleição ter sido vitoriosa, em 1973, o tema da criminalidade permaneceu ofuscado pelo escândalo de Watergate87, quando se desvendou um amplo esquema de vigilância ilegal sobre o Partido Democrata, de oposição a Nixon. Este episódio fez com que ele fosse obrigado a renunciar já em 1974.

Foi somente na campanha presidencial de 1980 que se voltou a enfocar a questão da criminalidade, com o candidato republicano Ronald Reagan. Mais especificamente, a partir de 1982, as drogas voltaram a ficar em pauta e foram alçadas ao posto de maiores vilãs do momento. Assim, no governo de Reagan, as agências federais começaram a mudar o foco em sua área de atuação: de combater criminosos do colarinho branco, passaram a combater a criminalidade de rua. Os crimes corporativos deixaram de ser considerados importantes para o governo e seus danos sociais eram considerados um problema menor. Em síntese, os conservadores nesse período inverteram definitivamente a forma de tratamento à pobreza. Por um lado, encolhendo o aparato social e, por outro, ampliando o controle penal da criminalidade pequena, de rua. Para eles, era essa a real obrigação do governo: a manutenção da lei e da ordem (BECKETT, 1997).

Parenti (2000) chama o governo Reagan de “o levante dos ricos”, em contraposição às manifestações populares da década de 1960 que seriam o “levante dos pobres”. Para este autor, a novidade da época não é somente o crescimento da pobreza e, sim, a emergência do fenômeno do desemprego de massa. O emprego é

87 Watergate era o nome do edifício que no qual se encontrava a sede do Partido Democrata e onde, em 1972, foram pegos cinco invasores consertando escutas que tinham sido colocadas anteriormente. A participação direta de Nixon no esquema de escuta ilegal ficou comprovada com as “Nixon tapes” – gravações das conversas presidenciais realizadas na Casa Branca.

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uma das mais eficientes formas de controle social e, quando ele deixa de existir, a organização social fica colapsada (PARENTI, 2000). Assim, essa segunda onda de endurecimento coercitivo do Estado, situada durante a gestão de Reagan, está ligada

diretamente ao controle desta nova população criada pela reestruturação econômica e

pela política neoliberal88.

Conforme já assinalado no segundo capítulo deste trabalho, o sistema de proteção social tornou-se mais restrito a partir da década de 1980. Por exemplo, enquanto entre as décadas de 1960 e 1970 houve uma grande expansão do Welfare

State dos EUA (de menos de 600 mil famílias, em 1960, sendo atendidas pelo

programa Aid to Families with Dependent Children – AFDC89, este número saltou para mais de três milhões de pessoas em 1972), após a eleição de Reagan a situação modificou-se radicalmente. De fato, houve uma grande redução do orçamento para tais políticas de proteção social e aproximadamente meio milhão de famílias, entre 1981 e 1983, foi excluído da AFDC. Mais recentemente foram excluídas ainda mais famílias: entre 1983 e 1998 o público da AFDC encolheu 44%. Como se não bastasse a diminuição do público atendido, a média de pagamentos também encolheu: de 376 dólares em 1975, para 220 dólares em 1995 (BECKETT; WESTERN, 2001).

Em resumo, a Era Reagan consistiu na síntese entre diminuição de políticas sociais e endurecimento do sistema penal como forma de gestão da população marginalizada. Além disso, a política do governo federal repercutia nos estados.

88 Parenti (2000) retoma os termos utilizados por Steven Spritzer para definir a população excluída: “refugo social” e “dinamite social” (social junk e social dynamite). Refugo social caracteriza aqueles que estão em situação tão precária que não conseguem ou não podem mais sair do círculo vicioso da miséria e exclusão. São os viciados em drogas, os alcoólatras, os doentes mentais. Estas pessoas são controladas principalmente por contenção espacial: são expulsas das áreas nobres da cidade, de praias, de shoppings. Por outro lado, a chamada de dinamite social compreende os que têm capacidade política de organização e representam uma ameaça concreta à ordem constituída: são os trabalhadores pobres e a juventude desempregada que ainda têm perspectivas de uma vida melhor e podem lutar para consegui-la. Os Panteras Negras são característicos deste último grupo. Esta parcela é considerada uma ameaça real e não pode simplesmente ser contida espacialmente. Ela deve ser alvo de políticas de repressão direta, deve ficar confinada ao gueto, desmoralizada, e ser demonizada pela mídia. Esta é a classe-alvo preferencial das políticas de repressão do Estado. E foi, de fato, a maior vítima de criminalização a partir da década de 1960, durante a primeira onda de endurecimento coercitivo do Estado.

89 A AFDC foi criada em 1935 pelo Ato de Seguridade Social, como parte do New Deal, com o objetivo de apoiar crianças cujos pais estavam desempregados ou incapacitados para o trabalho.

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Segundo pesquisa de Bruce Western e Katherine Beckett (2001), nos anos 1990 os estados dos EUA que adotavam os programas sociais menos generosos, tinham as maiores taxas de encarceramento, enquanto os estados mais generosos em suas políticas sociais encarceravam menos seus cidadãos. Esses resultados espelham as características de cada estado. Assim, os estados com maior população negra e domínio político de Republicanos têm sido mais inclinados a adotar uma gestão excludente da pobreza. Neste sentido, os autores concluem que o encolhimento das políticas sociais e a expansão do sistema penal implicam a emergência de um novo paradigma de governo. Este paradigma substitui a estratégia keynesiana antes predominante, que combinava os discursos do pleno emprego e da reabilitação do delinqüente.

Note-se, que a eleição de Clinton, um presidente do Partido Democrata, não mudou esse contexto e sua gestão foi marcada por sua própria versão de legislação anti-crime. Beckett (1997) cita pesquisa de opinião que afirmava, em 1993, que somente 9% acreditavam que o crime era o maior problema da nação, percentual que sobe para 32% em 1994. Não é casual que exatamente neste ano de 1994 Clinton tenha federalizado a legislação “three-strikes”90, com a implantação da Violent Crime

Control and Law Enforcement Act.

Este pacote de leis previa ainda: que o orçamento policial totalizasse 8,8 bilhões, para os próximos seis anos; 7,9 bilhões para a construção de novas prisões; o aumento das penas de réus julgados por crimes relativos a drogas em áreas designadas como “drug free”91, e o impedimento destes réus de se candidatarem à liberdade condicional; que a polícia da fronteira recebesse mais de um bilhão para contratar quatro mil novos agentes e equipamentos. Além disso, quase dois bilhões foram destinados a equipar os estados de forma que pudessem encarcerar os “criminal

90 Esta legislação, implantada inicialmente pelo governador da Califórnia em março de 1994, determina a prisão sem possibilidade de liberdade condicional na terceira condenação, ainda que as condenações anteriores sejam por crimes de baixa gravidade. Na Califórnia, por exemplo, sete anos depois da implantação desta legislação quase 60% dos detentos presos cometeram crimes não violentos como terceiro strike. Há casos de detentos que estão cumprindo penas de mais de 25 anos por dois furtos a residências e, como terceiro strike, o furto de um par de tênis (MAUER; KING, 2001).

91 Essa lei foi pensada inicialmente para implantar punições maiores ao tráfico de drogas realizado em áreas no entorno de escolas. Atualmente é utilizada no entorno de diversos prédios públicos, o que gera uma situação na qual cidades inteiras passem a ser áreas proibidas (JUSTICE POLICY, 2006).

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aliens”, em lugar de deportá-los (PARENTI, 2000). Em síntese, o Partido Democrata

assumiu sua própria versão da retórica conservadora sobre criminalidade e drogas92. Tais mudanças não são acidentais e refletem uma grande transformação do governo na forma de gestão da população marginalizada. Em uma fase anterior predominava a idéia de que deveria haver políticas de inclusão da população marginalizada, através de políticas keynesianas de intervenção estatal. A equação keynesiana, como já foi analisado no primeiro capítulo deste trabalho, estabeleceu-se como um arranjo entre governo, trabalhadores e empresários e previa a busca pelo pleno emprego como forma de minimizar as oscilações mais drásticas na economia. Nesta fase anterior, o controle social era praticado com base na manutenção de níveis mínimos de conforto e subsistência para a grande maioria da força de trabalho. Na esfera penal, a contrapartida era o ideal reabilitativo, discurso que prevalecia na prática penal do período.

Nesse período, as críticas à idéia da reabilitação tinham origem tanto na esfera conservadora, que criticava os gastos com detentos e negava o ideal de reabilitação93, como no campo da esquerda, que indicava a violência da prisão, o caráter racista das detenções e denunciava o sistema penal como um instrumento de controle que tinha como objetivo manter a população dócil e disciplinada. Em síntese, o ideal de reabilitação não atingia os seus objetivos de reinserção social e, ao contrário, acabava por legitimar o sistema prisional e mascarar seus reais objetivos, que sempre foram o controle sobre a população mais pobre e seu disciplinamento.

Na década de 1970, com a emergência da crise capitalista e do processo de reorganização do capital, tudo começa a mudar. O atual regime de acumulação torna o trabalho mais precário e instável para grande parcela de trabalhadores e a força de trabalho se encontra esparsa e pouco organizada. Há uma grande mudança no papel

92 Nessa nova fase, considerada a partir da Era Reagan como a segunda onda de coerção maximizada do Estado, pode-se utilizar os mesmo termos que Christian Parenti (2000) e afirmar que a ofensiva do aparato coercitivo estatal atualmente focaliza não somente a “dinamite social”, mas também o “refugo social” ao criminalizar também os usuários de drogas, prostitutas e, como iremos ver no caso de Nova Iorque com a aplicação das políticas de Tolerância Zero, inclusive pedintes, camelôs e moradores de rua.

93 Assim, Reagan afirmava que a “função do governo é proteger a sociedade do criminoso, não o contrário.” (apud BECKETT, 1997, p. 48). Tradução livre da autora. No original: “Government’s function is to protect society from the criminal, not the other way around.”

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social dos trabalhadores organizados, que deixam de ser parte do arranjo fordista- keynesiano, para se transformarem em uma maioria de trabalhadores precarizados, informais ou, simplesmente, excedentes no pós-fordismo. Esta parcela excedente, muitas vezes excluída do mercado de trabalho de modo permanente, sem capacidade de consumo, encontra-se absolutamente à margem do aparato estatal. É neste contexto que a estrutura social do Estado passa a ser questionada por setores conservadores da sociedade e, por outro lado, o sistema penal perde seu discurso reabilitativo para se tornar cada vez mais punitivo. Este endurecimento penal, presenciado até os dias de hoje, é uma das respostas do capital à sua crise e uma das expressões do novo padrão de dominação de classe instaurado com o neoliberalismo.

Loïc Wacquant (2001a) analisa a estrutura repressora do Estado, dirigida prioritariamente às comunidades consideradas mais “propensas” ao crime, ou seja, as populações que têm uma inserção precarizada no mercado de trabalho e se encontram fora da cada vez mais reduzida rede de proteção estatal. Com o olhar voltado para esses segmentos sociais precarizados, o autor mostra como a rede de seguridade social montada no pós-Segunda Guerra, durante a vigência do Estado fordista- keynesiano, dá lugar não só ao fortalecimento do aparelho prisional estatal, mas também ao que ele chama de social panoptismo, que é a forte vigilância sobre as, eufemisticamente denominadas, “populações sensíveis” por meio da utilização do aparato de proteção social do governo que, desse modo, se torna menos focalizado na proteção da pobreza e mais voltado ao seu controle.

Uma contribuição original a essa reflexão é oferecida na obra de Alessandro De Giorgi (2006) que distingue os períodos fordista e o pós-fordista94, partindo da orientação metodológica da chamada “economia política da pena”95. No último período,

94 Aqui o autor usa “pós-fordismo” para descrever as transformações nas esferas do trabalho e da produção ocorridas, principalmente, na década de 1990. Primeiro com o esgotamento do modelo industrial fordista, quando a grande fábrica tende a desaparecer e rompe-se o círculo virtuoso que ligava o salário do operário ao consumo de massa. E, adicionalmente, com a revisão das políticas keynesianas. Ou seja, a diminuição dos gastos públicos e da intervenção pública na economia.

95 Orientação de diversos estudiosos da área de sistema penal que se inaugura com o clássico “Punição e Estrutura Social”, em 1939, de Rusche e Kirchheimer, e tem como uma de suas principais obras “Cárcere e Fábrica” de Dario Melossi e Massimo Pavarini publicado em 1977. Estes estudiosos pretendiam fazer uma leitura marxista da história da pena, conjugando economia e controle social e relacionando os sistemas de punição com a estrutura