PARTE I – A TERRA
3. O Homem
3.1. Euclides: “ Uma mistura de celta, tapuia e grego”
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O sertão é um território mestiço. A capacidade de transformação característica deste sertão abre o caminho para que Euclides elabore sua visão sobre seus habitantes. As quedas de temperatura ao cair da noite, as mudanças operadas pelos ciclos de seca e chuva, o imprevisível, em resumo, a falta de estabilidade é identificada, por extensão, na humanidade que habita o sertão, a “rocha viva de nossa nacionalidade”, o sertanejo. Os elementos geográficos e geológicos descritos pelo autor na primeira parte retornam em todo o restante do livro como metáfora ou alegoria para a descrição de seus habitantes e da luta. Em Os Sertões, território e população aparecem em uma relação determinista, como se o grande produto da terra fossem as pessoas. Adentramos, aqui, às reflexões oriundas da leitura da segunda parte de Os Sertões, denominada por Euclides de “O Homem”.
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O Espetáculo das Raças (2017), tese de doutorado de Lilia Schwarcz, dedica-se a obra destes “homens de sciencia” que, segundo a autora, têm como característica uma apropriação criativa das teses deterministas, positivistas e evolucionistas produzidas na Europa. Mais do que meros copistas, as saídas teóricas elaboradas por estes intelectuais para a incômoda representação do Brasil como uma nação condenada pela miscigenação se articularam ao poder estatal da nascente República desenvolvendo o que, até hoje, é marca que distingue a sociedade brasileira das demais sociedades multirraciais de origem colonial – a articulação sofisticada e, ao mesmo tempo, subentendida e hiper evidente (VARGAS, 2010), entre cidadania10 e um projeto de eugenia racista, a mestiçagem11. Segundo Schwarcz:
Em meio a um contexto caracterizado pelo enfraquecimento e final da escravidão, e pela realização de um novo projeto político para o país, as teorias raciais se apresentavam enquanto modelo teórico viável na justificação do complicado jogo de interesses que se montava. Para além dos problemas mais prementes relativos à substituição da mão de obra ou mesmo à conservação de uma hierarquia social bastante rígida, parecia ser preciso estabelecer critérios diferenciados de cidadania.
É nesse sentido que o tema racial, apesar de suas implicações negativas, se transforma em um novo argumento de sucesso para o estabelecimento das diferenças sociais. Mas a adoção dessas teorias não podia ser tão imediata nesse contexto. De um lado, esses modelos pareciam justificar cientificamente organizações e hierarquias tradicionais que pela primeira vez – com o final da escravidão – começavam a ser publicamente colocadas em questão. De outro lado, porém, devido à sua interpretação pessimista de mestiçagem, tais teorias acabavam por inviabilizar um projeto nacional que mal começara a se montar (SCHWARCZ, 2017, p.24).
Em meio às mudanças modernizadoras da virada do século XIX para o século XX, as elites brasileiras consumiram as teses racistas europeias, primeiro como “moda”, como arte, depois como prática e produção. Como arte, no Brasil, assim como na América Latina, foi a literatura, na segunda metade do século XIX, que primeiro abrigou e popularizou os pressupostos do determinismo racial. Neste contexto, a distinção entre “homens de sciencia”
e “homens de letras” se dá no interior da construção da ciência como um ofício mediante a acusação de um alegado alienamento político dos “homens de letras” em contraposição à
10 Da mesma forma como observei anteriormente acerca dos conceitos foucaultianos, me dediquei à reflexão de conceitos chaves para a tese, como cidadania, na última parte. A definição de cidadania na qual me apoio me foi apresentada por Milton Santos e, em resumo, refere-se ao direito de se ver protegido contra o uso da força.
11 Ainda que as palavras sejam frequentemente usadas, por Euclides, por exemplo, para referenciar um mesmo fenômeno, emprego as palavras mestiçagem e miscigenação de maneira diferente. Miscigenação é um processo de variação biológica decorrente da reprodução entre indivíduos de origens étnicas distintas;
mestiçagem faz referência ao processo de estratificação social produzido pela miscigenação somada às dinâmicas de aculturação dos indivíduos miscigenados.
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postura intervencionista dos “homens de sciencia” que se entendiam como promotores de mudanças dirigidas, agentes modernizadores (SCHWARCZ, 2017; WEGNER, 2000).
O estrondoso sucesso de Os Sertões no Brasil pode ser entendido como produto deste meio em que a ciência aparecia relacionada a uma estética, um estilo de escrita capaz de sensibilizar leitores para as urgências nacionais. Assim que foi lançado, o livro foi elogiado por três das figuras mais importantes da crítica literária da época: José Veríssimo, Araripe Júnior e Sílvio Romero. Na crítica de José Veríssimo, observa-se a sensibilidade artística-científica do autor:
O livro, por tantos títulos notável, do sr. Euclides da Cunha, é ao mesmo tempo o livro de um homem de ciência, um geógrafo, um geólogo, um etnógrafo; de um homem de pensamento, um filósofo, um sociólogo, um historiador; e de um homem de sentimento, um poeta, um romancista, um artista, que sabe ver e descrever, que vibra e sente tanto aos aspectos da natureza, como ao contato do homem, e estremece todo, tocado até o fundo d’alma, comovido até as lágrimas, em face da dor humana, venha ela das condições fatais do mundo físico, as “secas”
que assolam os sertões do norte brasileiro, venha da estupidez ou maldade dos homens, como a Campanha de Canudos (VERÍSSIMO, [1902] apud CUNHA, 2016, p. 634).
Na crítica de Araripe Júnior, é a emoção produzida pelo manejo da linguagem, ou seja, o estilo particular que Euclides forja ao mesclar ciência e literatura, o que fica em evidência:
Criticar esse trabalho, dizia comigo mesmo, não é mais possível. A emoção por ele produzida neutralizou a função da crítica. E de fato, ponderando depois calmamente o valor da obra, pareceu-me chegar à conclusão de que Os Sertões são um livro admirável, que encontrará muito poucos, escritos no Brasil, que o emparelhem – único, no seu gênero, se atender-se a que reúne a uma forma artística superior e original, uma elevação histórico-filosófica impressionante e um talento épico-dramático, um gênio trágico como muito dificilmente se nos deparará em outro psicologista nacional (ARARIPE JÚNIOR, [1903] apud CUNHA, 2016, p. 637).
Por fim, é na crítica de Sílvio Romero que podemos observar o clamor por uma intelectualidade forjada na e comprometida com a nacionalidade:
Aos espíritos mais sérios, porém, penso eu, manifesta-se, à primeira inspeção, o verdadeiro mérito do jovem autor: um grande talento formado fora do círculo das literatices da moda.
[…] Não é que se não tenham aqueles dignados a versar assuntos pátrios; ao contrário, todos têm, repetidas vezes, se ocupado de coisas nossas. É que lhes falta esse não sei quê de apaixonado e sentido em que se vaza a alma do povo.
Nos escritos desses autores notam-se, em dose que se não pode ocultar, uns amaneirados diplomáticos, umas atitudes e posições que podem interessar lá fora;
mas cá dentro não agradam, por inquestionavelmente postiças.
Serão de muito bom gosto na Sorbonna; aqui são de insosso sabor estrangeiro (ROMERO, [1903] apud CUNHA, 2016, p. 638-639).
Segundo Abreu (1998), apesar de possuírem trajetórias distintas, Veríssimo, Romero e Araripe Júnior compartilhavam experiências, em especial a de terem migrado para o Rio
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de Janeiro, cidade em que “tiveram que lutar por espaço numa sociedade onde os círculos eram fechados e onde a vida literária ficava circunscrita a cafés e livrarias da rua do Ouvidor”
(ABREU, 1998); e compartilhavam, também, valores modernizadores, “estavam preocupados em afirmar novos critérios para o julgamento das obras literárias que se pautassem por argumentos científicos e não pela sociedade do elogio mútuo. A bandeira da ciência os irmanava e isso se expressaria na consagração de Os Sertões” (ABREU, 1998).
A passagem de Euclides da Cunha pela Escola Militar da Praia Vermelha é referenciada como ponto importante para a compreensão de sua perspectiva sobre a Guerra de Canudos. A Escola Militar da Praia Vermelha era o reduto de uma classe média, em que se travava contato com as teorias positivistas, evolucionistas e deterministas, tão presentes na obra do autor. Segundo Schwarcz:
A partir de 1886, Euclides passou a cursar a Escola Militar da Praia Vermelha, uma espécie de ponto de encontro dos jovens cariocas de classe média durante a segunda metade do século XIX, e ambiente que forjou, entre os livros da biblioteca e a agitação das ruas, o dedicado estudante. Ali ele concluiu sua formação nas teorias evolucionistas que faziam imenso sucesso na época. De um lado, estava o determinismo racial, modelo também conhecido como darwinismo social, o qual supunha a existência de diferenças ontológicas entre as raças e sustentava que a mistura de grupos sociais distintos só poderia levar ao desequilíbrio e à degeneração da nação. De outro, estava o positivismo, filosofia social e política que igualmente dividia a humanidade, dispondo a Europa no topo da civilização e os indígenas brasileiros em sua base inferior. Tratava-se de momento de grande agitação política — eram os anos que antecederam ao golpe de 1889, que derrubou a monarquia no Brasil —, com repercussões na Escola Militar (SCHWARCZ, 2019, p.11).
Esta classe média, espécie de pequena burguesia, que cursava a Escola Militar12, formava-se através dos ideais da Revolução Francesa, produzindo os primeiros sinais de um radicalismo de classe média; era uma classe em busca de poder político que conformou um foco de subversão nos anos que antecederam a queda da monarquia (GALVÃO, 1998). Na Escola Militar da Praia Vermelha, Euclides será protagonista de um levante estudantil contra a Monarquia, em que ele quebra um sabre na presença de uma autoridade monárquica. O episódio acaba com sua expulsão da Escola Militar e lhe confere alguma visibilidade. Com a instauração da República, Euclides é reintegrado ao Exército e, em 1889, matricula-se na Escola Superior de Guerra (WEGNER, 2000). Ali, cursou e concluiu o curso de artilharia,
12 Enquanto as Escolas de Direito de Recife e de São Paulo e a Escola Politécnica do Rio de Janeiro eram as escolas destinadas às elites, a Escola Militar era um espaço majoritariamente ocupado pela classe média ascendente, local que oferecia aos seus alunos, soldo, alimentação e parte dos uniformes (VENTURA, 1996).
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estado-maior e engenharia, ao sair foi promovido a primeiro-tenente e graduado como Bacharel em Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Em 1896, contrariado com o regime de hierarquias, se desligou do Exército (VENTURA, 1996).
A revolta da qual tomou parte enquanto estudante lhe rendeu o convite para trabalhar como correspondente de guerra para o jornal de Júlio Mesquita, O Estado de S. Paulo, que era uma espécie de porta-voz dos interesses da oligarquia do café paulista (WEGNER, 2000;
VENTURA, 1996). A formação militar conferia à Euclides certa autoridade para exercer o ofício de correspondente de guerra (LIMA, 1998; ZILLY, 1998). Entre seu círculo de amigos, é referenciada a influência e a proximidade de figuras chaves do cenário político da época, como o Marechal Rondon, o Barão de Rio Branco e Benjamin Constant, de quem foi aluno (LIMA, 1998; CERQUEIRA FILHO, 2008). Durante os cinco anos que dedicou para a reflexão e escrita de Os Sertões, Euclides estava trabalhando como engenheiro responsável pela construção de pontes em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo (ABREU, 1998).
No que se relaciona a maneira como Euclides construiu sua perspectiva sobre o destino da miscigenação no Brasil, em que se sobressai a representação romântica do mestiço do branco com o indígena, é interessante observar que o autor reconhecia a si mesmo como
“misto de celta, tapuia e grego” (LIMA, 1998; WEGNER, 2000; NICOLAZZI, 2010).
Galvão, ao debruçar-se sobre as cartas de Euclides, afirma que este parecia estar sempre muito ressentido, beirando a síndrome de perseguição e a hipocondria (GALVÃO, 1998;
VENTURA, 1996). A instabilidade física e emocional são características que Euclides entendia como sintomáticas da miscigenação.
Outra observação interessante sobre a biografia do autor, é seu desfecho trágico. É difícil elaborar assertivamente os fatos que desembocam na morte de Euclides. Ao que parece, ferido em sua honra, Euclides desafiou Dilermando, um jovem cadete do Exército e amante de sua esposa, para um duelo. No episódio que ficou conhecido como a “tragédia de Piedade”, Euclides chegou à casa, em que sua esposa vivia com Dilermando, atirando, aos gritos de que “vim para matar ou morrer”, e acertou não apenas o jovem cadete, mas também o irmão dele13. Dilermando, que era campeão de tiro, levou cinco tiros, mas acertou Euclides,
13 Jogador de futebol, o irmão de Dilermando, Dinorah de Assis, ficou com uma bala alojada na coluna. Com o tempo, Dinorah ficou paralítico, desenvolveu alcoolismo e depressão e viveu em situação de mendicância. Em 1921, Dinorah se suicidou. CARNEIRO, Júlia. Filha busca justiça histórica para pai, que matou Euclides da Cunha. BBC BRASIL, Rio de Janeiro, 9 de julho de 2019. Disponível em:
https://www.bbc.com/portuguese/48916568. Acesso em 10 de setembro de 2020.
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que morreu em decorrência dos ferimentos. Dilermando foi absolvido pela justiça, que entendeu o assassinato de Euclides como legítima defesa14.
A tragédia de Piedade, o tom ressentido das cartas de Euclides, bem como a mania de perseguição e a hipocondria, oferecem subsídio para que possamos compreender a imagem que Euclides construiu sobre Antônio Conselheiro, em parte, como uma projeção de suas questões pessoais. Em Os Sertões, Antônio Conselheiro, imagem síntese do sertão, efeito da sociedade criada como imagem e semelhança da natureza que os envolvia, é chamado por Euclides de “documento raro de atavismo” (2016, p.145). A descrição segue:
Da mesma forma que o geólogo interpretando a inclinação e a orientação dos estratos truncados de antigas formações esboça o perfil de uma montanha extinta, o historiador só pode avaliar a altitude daquele homem, que por si nada valeu, considerando a psicologia da sociedade que o criou. Isolado, ele se perde na turba dos nevróticos vulgares. Pode ser incluído numa modalidade qualquer de psicose progressiva. Mas posto em função do meio, assombra. É uma diátese, e é uma síntese. As fases singulares da sua existência não são, talvez, períodos sucessivos de uma moléstia grave, mas são, com certeza, resumo abreviado dos aspectos predominantes de mal social gravíssimo. Por isto o infeliz destinado à solicitude dos médicos, veio, impelido por uma potência superior, bater de encontro a uma civilização, indo para a História como poderia ter ido para o hospício. Porque ele para o historiador não foi um desequilibrado. Apareceu como integração de caracteres diferenciais – vagos, indecisos, mal percebidos quando dispersos na multidão, mas energéticos e definidos, quando resumidos numa individualidade.
Toda as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro às aberrações católicas, todas as tendências impulsivas das raças inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida sertaneja, se condensaram no seu misticismo feroz e extravagante. Ele foi, simultaneamente, o elemento ativo e passivo da agitação de que surgiu. O temperamento mais impressionável apenas fê-lo absorver as crenças ambientes, a princípio numa quase passividade pela própria receptividade mórbida do espírito torturado de reveses, e elas refluíram, depois, mais fortemente, sobre o próprio meio de onde haviam partido, partindo de sua consciência delirante (CUNHA, 2016, p. 144-145).
Após diagnosticar a loucura, Euclides passa a explicar Antônio Conselheiro a partir dos dramas de sua história. O menino que, ainda que bem educado, não foi capaz de se desvincular do impositivo da hereditariedade. À “tara hereditária” adiciona-se a traição de sua esposa, pessoa de provável “péssima índole”, que o abandona, fugindo com um policial.
“Fulminado de vergonha, o infeliz procura o recesso dos sertões, paragens desconhecidas, onde lhe não saibam o nome; o abrigo da absoluta obscuridade” (2016, p.154). Aos traumas de Conselheiro, soma-se o episódio em que as fofocas dizem que matou a mãe ou a madrasta.
14 A tragédia se estende quando um dos filhos de Euclides tenta matar Dilermando, em busca de vingança pelo pai. Euclides da Cunha Filho atirou em Dilermando pelas costas, acertou 4 tiros, porém, não conseguindo matar o antagonista, também morreu em decorrência do duelo. CARNEIRO, Júlia. Filha busca justiça histórica para pai, que matou Euclides da Cunha. BBC BRASIL, Rio de Janeiro, 9 de julho de 2019.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/48916568. Acesso em 10 de setembro de 2020.
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É a crítica de Gilberto Freyre a que mais chama atenção para os vínculos entre as narrativas do livro e as experiências pessoais do autor. Euclides perdeu a mãe muito cedo;
para Freyre o amor que Euclides devota à República é imagem mística construída sobre a ausência materna:
Foi nos sertões que as centenas de mãos esquerdas do magricela desajeitado que já entortara uma espada num instante de fúria – e talvez centenas de penas noutros momentos de raiva menos espetaculosa – começaram verdadeiramente a se disciplinar sob uma vocação poderosa: a de escritor em função da “paisagem brasileira” que ficou sendo para ele mais do que a “imagem da República” – que também teve para Euclides um sentido místico – uma espécie de prolongamento da imagem materna e ao mesmo tempo da própria (FREYRE, [1943], CUNHA, 2016, p. 642).
Freyre ainda o chama de “adolescente que vinha do litoral e de sua civilização, cheio de mãos esquerdas diante dos homens já feitos e das cidades já maduras da beira do Atlântico” (2016, p.640). Para Freyre, Euclides precisava do sertão, não porque o sertão era um elemento chave para a compreensão do Brasil, mas porque era poético, porque lhe permitiria uma catarse pessoal. O livro é descrito por Freyre como “ciência” altamente estilizada pelo narcisismo exacerbado de seu autor; um exemplo de “subjetivismo brasileirista” na interpretação da história (NICOLAZZI, 2020).
Como construtor de pontes, profissional de uma engenharia “errante”, viajando pelos sertões do Brasil em tarefas modernizadoras e profeta dos valores republicanos, Euclides era em algo parecido à Conselheiro – profeta de valores cristãos, que peregrinava construindo igrejas, cemitérios e estruturas de captação d’água pelos sertões do Nordeste (GALVÃO, 1998). A partir da preocupação constante com doenças e as instabilidades psíquicas de Euclides, relatadas por Galvão quando comenta as cartas de Euclides, pode-se levantar a hipótese de que ele, que se entendia mestiço, estava assombrado pelas possibilidades atávicas que sua ideia de mestiçagem acarretava. Segundo Ventura:
Euclides projetou sobre o Conselheiro muitas de suas obsessões pessoais, como o temor da irracionalidade, da sexualidade, do caos e da anarquia, para construir um personagem trágico, guiado por forças obscuras e ancestrais e por maldições hereditárias, que o levaram à insanidade e ao conflito com a ordem. Viu Canudos como desvio histórico capaz de ameaçar a linha reta que ele, Euclides, se impusera desde a juventude. Recorria, nas cartas aos amigos e familiares, à imagem da linha reta para expressar sua fidelidade aos princípios éticos aprendidos com o pai, ancorados na crença no progresso da humanidade e no caráter redentor da República (Cunha, 1996) (VENTURA, 1996, p.166).
Para encerrar esta breve apresentação de dados biográficos sobre Euclides da Cunha, não bastasse a ironia do final trágico, “auto-profetizado” por Euclides quando assinalava o
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enlouquecimento de Antônio Conselheiro após a traição da mulher; há um último ponto de encontro biográfico entre Conselheiro e Euclides. O corpo de Conselheiro foi decapitado, sua cabeça foi enviada à Faculdade de Medicina de Salvador para que, sob os cuidados de Nina Rodrigues, a ciência atestasse sua anormalidade. O crânio de Conselheiro não sustentava o diagnóstico. Nina Rodrigues, que antes havia declarado que Antônio Conselheiro sofria de “psicose sistemática progressiva”, que era um “indivíduo degenerado”, portador de “delírio crônico”, concluiu, ao analisar o crânio de Conselheiro que “é pois, um crânio normal” (ABREU, 1998). No dia 3 de março de 1905, um incêndio na Faculdade de Medicina de Salvador queimou a cabeça de Antônio Conselheiro. Por sua vez, a cabeça de Euclides da Cunha foi enviada ao Museu Nacional, na época dirigido por Roquette-Pinto.
Sob a direção de Roquette-Pinto, entre as décadas de 20 e 30, o Museu Nacional produzirá dados para reiterar tese incipiente em Os Sertões – o mestiço brasileiro não é um degenerado (SANTOS, 1998), sua inferioridade era atraso decorrente de conjunturas socioambientais. A ideia de atraso civilizacional devido à falta de políticas sanitárias e de educação se prolongará no movimento sanitarista e em boa parte das pesquisas da intelectualidade da década de 20 e 30. Em tragédia recente, o Museu Nacional perdeu parte de sua coleção para o fogo; cedo à tentação de imaginar que, talvez, numa ironia infeliz, os restos de Euclides tenham tido destino similar aos de Conselheiro e da primeira Canudos – o fogo.