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4 A INTERRUPÇÃO DA VIDA: SITUAÇÃO DO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

4.1 A EUTANÁSIA NO PROJETO DO NOVO CÓDIGO PENAL BRASILEIRO

O Código Penal Brasileiro é extremamente retrógrado, e, no que se refere à eutanásia este se mantem inerte. O homicídio eutanásico não é citado em seu texto, não obstante, dispõe sobre o homicídio privilegiado no § 1º do art. 121, que por analogia associa-se a discussão dessa prática, estabelecendo que:

Art. 121. Matar alguém:

Pena - reclusão de 6 (seis) a 20 (vinte) anos.

§1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social, ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço. (BRASIL, Código Penal Brasileiro, Decreto-Lei 2.848, de 07 de dezembro de 1940.)

O homicídio privilegiado é associado à eutanásia de forma equivocada, ou até mesmo por ausência de tipificação específica, pois o motivo de relevante valor social ou moral se refere aos interesses particulares do agente, não havendo determinação quanto à vontade da vítima.

Se a vítima consentir ou não com a prática, é irrelevante, haja vista que é a conduta do agente que descaracteriza a tipicidade, fato este que abriria margens a homicídios mal intencionados mascarados de eutanásico.

É indispensável, que tal motivo de relevante valor social ou moral, seja precisamente “compaixão ante irremediável sofrimento da vítima”

(PESSOA, 2011, p. 129), para se enquadrar no homicídio eutanásico. Surge

assim a necessidade de tipificar a eutanásia no ordenamento jurídico brasileiro.

A tentativa de introduzir a legalização da eutanásia no ordenamento jurídico brasileiro ocorreu no ano de 1966, quando o senador Gilvam Borges, do PMDB do Amapá, propôs o Projeto de Lei 125/1966. O projeto previa a possibilidade de que pacientes acometidos por sofrimento físico ou psíquico pleiteassem a realização de procedimentos que visem a sua própria morte.

Para isso, seria necessário que uma junta composta por cinco médicos atestassem a impossibilidade de recuperação, e, no caso de o paciente estar impossibilitado de manifestar sua vontade, um familiar ou amigo poderia solicitar à justiça autorização (GOLDIM, 2004).

Este foi o único projeto de lei que buscava autorizar a eutanásia, no entanto, teve a tramitação encerrada, e foi encaminhado ao arquivamento.

Embora tenha sido um projeto com pontos de falhas significativas, era deveras avançado até para os dias atuais.

Com a crescente dialética da eutanásia ao redor do mundo, o Brasil não é isento do debate em relação a sua pratica. Por meio do Projeto de Lei do Senado n° 236, de 2012, de autoria do Senador José Sarney, também chamado de Projeto de Novo Código Penal, traz a tipificação da eutanásia:

Art. 122. Matar, por piedade ou compaixão, paciente em estado terminal, imputável e maior, a seu pedido, para abreviar-lhe sofrimento físico insuportável em razão de doença grave:

Pena de prisão de dois a quatro anos.

§1º O juiz deixará de aplicar a pena avaliando as circunstâncias do caso, bem como a relação de parentesco ou estreitos laços de afeição do agente com a vítima.

§2º Não há crime quando o agente deixa de fazer uso de meios artificiais para manter a vida do paciente em caso de doença grave irreversível, e desde que essa circunstância esteja previamente atestada por dois médicos e haja consentimento do paciente, ou, na sua impossibilidade, de ascendente, descendente, cônjuge, companheiro ou irmão. (BRASIL, 2012)

Ao mesmo tempo em que o caput do texto tipifica a conduta da eutanásia, o parágrafo segundo exclui a ilicitude para a ortotanásia.

Outrossim, alguns pontos devem ser levantados quanto ao art. 122 do PL 236/12. O caput do artigo claramente trata da eutanásia, e impõe como requisito que a morte deva ser provocada por ação ou omissão de um terceiro movido por compaixão.

O projeto cita “paciente em estado terminal”, assim podem-se concluir duas vertentes. Uma vertente aduz que a vítima deve estar sobre cuidados médicos, na condição de enfermo. Outra vertente entende que se trata de pacientes os quais a morte está próxima, inevitável e previsível, não incluindo os pacientes com doenças incuráveis que sofrem com perda da qualidade de vida, mas tem prospecção de muitos anos de vida.

O texto aponta a necessidade de o paciente ser imputável e maior, ou seja, apenas os maiores de dezoito anos de idade e os inteiramente capazes de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento poderiam pleitear o encurtamento da vida.

O quesito que levantou muita discussão entre os defensores da eutanásia é que o projeto inclui tão somente o sofrimento físico, deixando o sofrimento psíquico de fora. Ademais, o texto cita um “sofrimento físico insuportável”, mas, como poderíamos mensurar? Apenas a própria figura do médico do paciente teria capacidade profissional para verificar o sofrimento gerado pela doença (SÁ e MOUREIRA, 2015).

Importante ressaltar que a prática da eutanásia constitui crime, com uma significativa redução, pena de prisão de dois a quatro anos, no entanto, passível de perdão judicial. O parágrafo primeiro designa o perdão judicial, que deverá ser avaliado pelo juiz mediante as circunstâncias do caso, que observará a relação de parentenco ou nível de afeição entre o paciente e o autor, podendo chegar a conclusão de que o agente é culpado, mas não sofrerá sanção legal. Desta forma, não se trata de condenação, mas sim de sentença declaratória para extinguir punibilidade. Assim, o perdão judicial depende da avaliação subjetiva do julgador, que poderá ou não concede-lo.

Nesse sentido, cumpre trazer a baila uma incerteza válida, pensemos nos médicos, sabendo que que a sua ação poderia culminar na pena de prisão caso seja o entendimento do juiz, quem praticaria a eutanásia? Não se teriam muitos adeptos a prática, dessa forma, os autores não vislumbram avanço na tipificação da conduta com uma mera possibilidade de perdão judicial (SÁ e MOUREIRA, 2015, p. 193).

O parágrafo segundo trata da exclusão da ilicitude da eutanásia, entretanto, por interpretação lógica, concluímos estar diante do instituto da ortotanásia, prática esta mais aceita socialmente e legalmente, como veremos mais a frente. Assim sendo, o projeto do novo código penal, busca apenas regulamentar a ortotanásia. natureza penal por parte do Estado, a sua ofensividade social não alcança a necessidade do direito penal. A criminalização de tais condutas, a nosso sentir, banaliza o direito penal. São condutas que podem ser suficientemente endereçadas por outros ramos do direito, como o civil e o administrativo. A eutanásia (art. 122) é uma delas. Por isso propomos a sua supressão. (SENADO, Parecer da Comissão, 2013, p.151)

A citada emenda, proposta pela Comissão Temporária, de caráter substitutivo, altera a tipificação específica da eutanásia transportando-a novamente para homicídio privilegiado, da forma que segue:

Emenda nº 1 – CTRCP (Substitutivo) o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob domínio de violenta emoção, logo em seguida de injusta provocação da vítima.

Ortotanásia

§6º No âmbito dos cuidados paliativos aplicados a pessoa em estado terminal ou com doença grave irreversível, não há crime quando o agente deixar de fazer uso de meios extraordinários, desde que haja consentimento da pessoa ou, em sua impossibilidade, do cônjuge, companheiro, ascendente, descendente ou irmão.

§7º A situação de morte iminente e inevitável ou de doença irreversível, no caso do parágrafo anterior, deve ser previamente atestada por dois médicos. (SENADO, Emenda nº 1 proposta pela Comissão Temporária da reforma do Código Penal, 2012)

Na justificativa, a comissão alega que a matéria relativa aos pacientes em estado terminal já está sendo bastante debatida pelo Congresso Nacional, e tem o condão de afastar a eutanásia e disciplinando os cuidados paliativos. Ademais, apontam que uma possível situação de eutanásia, será observada como homicídio com atenuantes. Tal substituição dos termos do anteprojeto que muito desalentou os defensores da eutanásia.

A proibição da eutanásia no território brasileiro gera outro problema que logo terá maior frequência, que é o turismo da eutanásia. As pessoas dispostas de poder aquisitivo maior viajam até a Suíça, por exemplo, em busca da realização da eutanásia. Essa realidade já pode ser vislumbrada, em 2018, foi noticiado em diversos jornais que uma médica brasileira, portadora de uma doença autoimune denominada Síndrome de Ásia, exausta de tanta dor e internações, foi até a Suíça se submeter à morte assistida (LEMOS, 2018).

A alteração do PL 236/12 apenas estanca a discussão sobre a eutanásia não condizendo com a realidade social vigente.

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