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1.2 Elementos constitutivos do letramento

1.2.2 Eventos de letramento

A diferenciação entre eventos e práticas parece ser um desafio para muitos pesquisadores, os quais tendem a fazer ressalvas quanto a esses conceitos, a exemplo de Lopes (2006, p. 31): “a distinção entre as noções de evento de letramento e práticas de letramento é utilizada só para efeito metodológico e didático, uma vez que estes

componentes representam uma mesma realidade interacional”. Embora a distinção entre tais conceitos seja, de fato, tênue, tentaremos fazê-la.

Barton & Hamilton (2000) definem os eventos como atividades nas quais o letramento tem um papel. Na maioria das vezes, são atividades que têm textos escritos envolvidos para serem lidos ou para se falar sobre eles, sendo a discussão sobre os mesmos o ponto central, uma vez que a preocupação maior é como a escrita é produzida e usada pelos sujeitos. Na definição de eventos dada por Heath (1983, p.93), notamos também a referência à presença do texto como básica para a interação: “qualquer ocasião em que uma peça escrita integra a natureza da interação entre os participantes e seus processos e estratégias interpretativos”.

Com isso, podemos dizer que os eventos de letramento são situações comunicativas mediadas por textos escritos. Ao destacarmos a palavra mediadas, queremos dizer que, para ser um evento, não é necessária a presença de um texto escrito graficamente, mas que a idéia de um certo texto seja retomada oralmente.

A pregação de um padre ou de um pastor, por exemplo, é um evento de letramento, na medida em que esses representantes eclesiais organizam o seu discurso com base em leituras bíblicas e doutrinárias. A consulta médica é também um evento, já que o médico atende ao paciente, dá o diagnóstico a ele e lhe prescreve um remédio com base na leitura da literatura médica, nas leituras feitas durante sua formação enquanto profissional da área, no histórico do paciente que é feito a partir de uma série de exames, muitos dos quais laboratoriais. As aulas expositiva-dialogadas, ministradas pelos professores, são também eventos, uma vez que o discurso do professor, assim como do aluno estão pautados na experiência de leitura e no conhecimento de mundo que ambos têm quanto ao tema focalizado na aula.

Os resultados de uma pesquisa realizada por Rojo (2001, p. 235-262) indicam que as interações em sala de aula são verdadeiros eventos de letramento, quase todos viabilizados oralmente. Estes resultados evidenciam que: “caso tenhamos ou não um texto escrito empírico em sala de aula; caso se trate ou não de leitura ou produção de textos escritos; mesmo caso apenas tenhamos um questionário oral (...) que se desenrole ao longo da aula, sempre se tratarão de eventos de letramento”. Em outras palavras, a escrita está sempre permeando as interações em sala de aula e as formas em que ela se manifesta.

A pesquisa desenvolvida por Lopes (2006) sinaliza que não só na sala de aula, mas também em outros espaços, a escrita também é retomada a partir de eventos de letramento. A autora demonstrou que na Vila Irmã Dulce, foco de sua pesquisa, embora os moradores tenham dito que não tinham contato com a escrita, as experiências relatadas para a pesquisadora demonstraram o contrário: participavam em diferentes eventos:

compra e venda de mercadorias; negociação em banco; seções de leitura; anotações;

envio e recebimento de bilhetes e cartas.

Ainda com relação aos eventos, Barton e Hamilton (2000, p. 2) dizem que se trata de episódios observáveis nas diferentes agências de letramento, sendo passíveis de descrição. Eventos como a pregação de um líder religioso, shows religiosos, encontros pastorais são típicos da agência religiosa, ao passo que prova, preenchimento da caderneta, plano de aula são eventos característicos da agência escolar; já prova de redação do vestibular e congressos são eventos relacionados à agência acadêmica.

Os eventos são ainda atividades regulares e repetidas, regidas por regras construídas sócio-historicamente. Entretanto, a maneira como se processa um evento nem sempre é a mesma, pois cada evento tem suas peculiaridades, que devem ser observadas

segundo a situação na qual aparecem. Como salienta Araújo (2008), “os eventos variam de grupo para grupo, de comunidade para comunidade, de acordo com seus interesses e valores, e são situados numa época determinada”.

Além disso, acrescentaríamos que alguns eventos de letramento, como a prova de redação do vestibular, são de natureza complexa, haja vista que sugerem ao sujeito mais de uma posição enunciativa. Sabemos que o campo da enunciação é amplo e que nele há teorias distintas, com objetivos diversos. No livro Introdução à lingüística da enunciação, Flores & Teixeira (2008) resgatam alguns teóricos que trataram direta ou indiretamente da enunciação, tais como Charles Bally, Roman Jakobson, Émile Benveniste, Mikhail Bakhtin, Oswald Ducrot e Jacqueline Authier-Revuz. Apesar das várias linhas teórico-metodológicas sob as quais a enunciação pode ser abordada, os autores que realizam estudos de tal natureza têm um ponto em comum: defendem, em geral, que a enunciação é um acontecimento irrepetível, porque são irrepetíveis as condições de tempo, espaço e pessoa de cada enunciação.

Cientes disso e partindo do pressuposto de que a enunciação é “colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utilização” (BENVENISTE, 1989, p.82), estamos entendendo a posição enunciativa como sendo o papel que o “eu” da enunciação assume quando materializa seu enunciado em um determinado tempo e espaço, considerando a imagem do “tu”. Tal posição enunciativa é evidenciada na enunciação a partir de marcas deixadas pelo sujeito no enunciado. A esse respeito, Flores et al. (2008, p. 26) destacam que “parece ser levado em conta sempre é a representação que a enunciação dá ao sujeito na língua. Estuda-se, ao menos, [...] as marcas da enunciação e do sujeito enunciado, e não o sujeito propriamente dito”.

Dessa forma, os indícios perceptíveis nos enunciados sinalizam que posição enunciativa foi assumida pelo sujeito. Pensando na prova de redação, poderíamos verificar se o candidato assumiu o “eu” de vestibulando que se dirige ao “tu”, banca corretora das redações, ou se assumiu o “eu” indicado na prova, descendente do homem do campo, por exemplo, que se dirige ao “tu”, população brasileira. A teoria de Benveniste (1988, 1989) contempla esse cenário enunciativo, em que o contexto no qual a enunciação se configura é relevante para o entendimento da articulação sugerida pelo autor entre sujeito e estrutura.

Bakhtin (1981, p.106) reconhece também a importância de considerar o contexto enunciativo no qual os enunciados são produzidos – “o sentido das palavras é totalmente determinado por seu contexto”. Criticando os estudos centralizados no sistema da língua, o autor defende que toda enunciação é produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados, além de ser perpassada por conteúdos ideológicos: “na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc.”

(1992, p.49).

Partindo dessa premissa, Bakhtin (1992, p.56) distingue a oração – unidade da língua – do enunciado – unidade de comunicação verbal. Acrescenta que “a oração é neutra em relação a todo o conteúdo ideológico, sua estrutura é de natureza gramatical; já o enunciado não é neutro, seu conteúdo veicula determinadas posições, devido às esferas em que se realiza; este, ainda, implica referência ao sujeito, enquanto a oração não”.

A enunciação, em Bakhtin, é, assim, uma atividade intrinsecamente dialógica, já que o “eu” organiza seu enunciado a partir da imagem que faz do “tu”. Em outros termos, a

concepção de enunciação bakhtiniana está articulada à atitude responsiva ativa do sujeito, o “eu”, a qual pressupõe o princípio dialógico, consideração do “tu”.

Este conceito de evento de letramento, como evento enunciativo, suscita outro conceito, o de práticas letradas, o qual será tratado no item seguinte.