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CAPÍTULO 4 ANÁLISE DE DADOS

4.2. EVENTOS DE LETRAMENTO PRESENTES NOS PROJETOS

Conforme a descrição dos projetos, apresentada no capítulo três66, o projeto de Orientação Sexual propiciou diferentes eventos de letramento. Dentre eles, identificamos dois grupos:

• Eventos de letramento com a comunidade:

1. Distribuição de convite para a palestra sobre o projeto de orientação sexual na escola e o desenvolvimento da sexualidade infantil;

2. Palestra sobre sexualidade infantil; 3. Apresentação da proposta de trabalho;

4. Exposição do material selecionado para o trabalho;

5. Distribuição, para os pais, de bibliografia comentada sobre o tema; 6. Distribuição de bilhete informando sobre a campanha da

solidariedade e solicitando donativos.

• Eventos de letramento com os alunos: 1. Eventos de leitura:

Da professora: livros paradidáticos, pranchas ilustrativas e informativas (multimodais), livros de divulgação científica67, história em quadrinhos, conto, slogans.

Dos alunos: leitura das produções escritas, gráficos, letras de canção, peças componentes de jogos, regras de jogo, embalagens dos jogos.

2. Eventos de escrita:

66 Ver quadro-síntese das atividades (ANEXO) realizadas no projeto.

Da professora: lista, regras de funcionamento do grupo (cartaz), respostas dos alunos às sondagens de conhecimentos prévios, ditos populares.

Dos alunos: questionário; registro de conclusão sobre discussão ou leitura, painel e produtos finais dos trabalhos (álbum de figurinhas legendadas, livro e glossário).

3. Eventos orais:

Apresentação de atividades realizadas pelos alunos, relato/depoimento, descrição oral, discussão/conversa.

O gráfico que se segue indica a ocorrência destes eventos em cada eixo temático do projeto.

Gráfico 1: Ocorrência de eventos de letramento por eixo temático

0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 26 Eventos de Escrita da Professora Eventos de Escrita do Aluno Eventos Orais Eventos de Leitura da Professora Eventos de Leitura do Aluno Corpo: Matriz da Sexualidade Relações de Gênero Prevenção às DSTs e AIDS

Conforme indica o gráfico 1, neste projeto, ocorreu um privilégio dos eventos orais de letramento, com predomínio da discussão68 sobre aspectos da sexualidade estudados em todos os eixos. Acreditamos que este fato se deva ao tema abordado e às questões que foram surgindo no decorrer das discussões, assim como à não centralidade da língua escrita nos objetivos do projeto. O uso do léxico pouco familiar aos alunos contribuiu para o maior destaque nos eventos de discussão oral, pois, em muitas situações procurou-se favorecer a construção dos significados pelo aluno, o que foi feito a partir das discussões no grupo. Outro fator que contribuiu para este índice de eventos orais foi o uso de imagens (pranchas ilustradas) ou materiais concretos (dorso humano, preservativos, absorventes), que propiciaram a descrição e a discussão sobre diversos aspectos suscitados pelo material. Nota-se, também, maior presença destes eventos nos eixos Corpo: matriz da sexualidade e Relações de gênero, pois a participação nos eventos orais por meio destes gêneros do discurso requer uma experiência vivida ou conhecida, que é menos comum no eixo Doenças sexualmente transmissíveis / AIDS ou é menos divulgado nos meios social e familiar.

Em seguida, observam-se os eventos de leitura da professora, sobretudo no eixo

Corpo: matriz da sexualidade. O privilégio da leitura da professora, no nosso entender, deve-se à existência no mercado e disponibilidade (da escola) de material paradidático referente a este eixo do trabalho, principalmente livros de divulgação científica apropriados ao público infantil e pranchas ilustrativas, que também trazem informações verbais. No entanto, mesmo estando disponíveis no acervo da escola, esse material não atingia número suficiente para os alunos, ficando esta leitura centralizada na professora.

A diminuição da leitura da professora nos demais eixos coincide com a modificação no tipo de material utilizado. Sobre o eixo Relações de gênero, na época de realização do trabalho, havia menor quantidade de material no mercado. Da mesma forma, a escola dispunha de um único livro paradidático sobre o tema. Neste sentido, na abordagem deste eixo foram utilizados textos de circulação social, como ditos populares, peças publicitárias (televisivos e de mídia impressa) ou outros de fácil aquisição pelo

68 Estamos chamando de discussão, neste trabalho, a conversa sobre temas em estudo, sem regras

aluno ou reprodução para cada um, como letras de canção, não havendo necessidade de centralizar a leitura na professora.

Do mesmo modo, a presença de jogos referentes ao eixo Doenças Sexualmente

Transmissíveis / AIDS e a menor quantidade de textos69 de divulgação científica apropriados à idade dos alunos justifica o aumento no número de eventos de leitura dos próprios alunos, pois na abordagem deste eixo recorre-se aos jogos que, além de existirem em quantidade suficiente para a formação de pequenos grupos de trabalho, exigiu a leitura de diferentes textos (regras, comandas, instruções, informações dentro do próprio jogo).

Finalmente, os eventos de escrita, neste projeto, ocupam um lugar de menor expressividade. Entendemos que esse fato se deve à forte presença de material paradidático e de circulação social, que supriu os interesses do grupo, não havendo a necessidade de se produzir materiais. Sendo assim, os eventos de escrita, tanto da professora quanto dos alunos ficaram a cargo apenas dos registros de listas de temas para estudo, de sondagens de conhecimento prévio, de conclusões e de atividades realizadas. Somente na elaboração dos produtos finais é que se observa uma progressão nas propostas de escrita em cada ano de desenvolvimento do projeto. Conforme explicitado no capítulo três, no primeiro ano de realização elaborou-se um álbum de figurinhas legendadas70, no ano seguinte um livro ilustrado e no terceiro ano um glossário71. Entretanto, esta progressão parece acontecer no âmbito da proposta geral do trabalho, não atingindo os alunos, já que, sendo o projeto destinado à quarta série, a cada ano estes alunos se alternam.

69 Vale salientar a existência de inúmeros textos de divulgação como panfletos e cartilhas informativas,

distribuídos gratuitamente pelos postos de saúde e campanhas preventivas. Entretanto, as informações presentes nestes textos são, basicamente, as mesmas e restringem-se às formas de prevenção e contaminação da doença. Nossa opção pelos jogos justifica-se pela necessidade de abordar a AIDS também sob o âmbito social, sobretudo o preconceito e a solidariedade.

70 As figuras foram selecionadas, pelos professores, dos desenhos produzidos pelos alunos, procurando-se

colocar pelo menos um desenho de cada turma envolvida no trabalho. Não houve participação dos alunos nesta escolha.

71 Ao final da 3ª edição do trabalho, com a inclusão de novos jogos, promoveu-se um momento em que os

alunos participantes do projeto, juntamente com os pais e irmãos mais velhos, puderam utilizar os jogos na escola. Este encontro teve o objetivo de facilitar a discussão familiar sobre o tema sexualidade, por meio da mediação propiciada pelos jogos utilizados no projeto.

Embora embasado em uma proposta que buscava uma renovação da prática pedagógica, notamos, neste trabalho, uma seqüência no desenvolvimento das atividades que acompanha o modelo de boa parte dos livros didáticos e de práticas escolares já consolidadas, que consiste em apresentar um tema, discuti-lo ou estudá-lo e, por último, produzir um texto. Notamos, ainda, que os textos solicitados nos produtos finais tiveram como destinatários os próprios alunos, não havendo, portanto, um interlocutor efetivo. Isso se justifica pelo caráter intimista do tema abordado e do trabalho desenvolvido, que não teve como objetivo divulgar as discussões e os conhecimentos construídos em cada turma72. Desta forma, a comunicação estabelecida com a comunidade, no início do desenvolvimento do trabalho, não apresentou continuidade, a não ser na última edição do projeto, quando os pais foram convidados a utilizar os jogos com as crianças na escola.

Atribuímos este caráter intimista dos produtos finais do trabalho à restrição à discutibilidade do tema sexualidade que, no nosso entender, não poderia ser partilhado com os demais alunos da escola, já que a 4ª série era a série mais avançada da escola e a abrangêngia do estudo desenvolvido nesta série poderia estar complexa e distante das questões sobre sexualidade referentes, por exemplo, aos alunos de uma primeira série. Por esse motivo, o trabalho dirigiu-se à sala de aula (intra-escolar) e não à comunidade, a não ser por atividades isoladas como a campanha da solidariedade, que arrecadou donativos para uma casa de apoio a portadores do vírus HIV.

Vale mencionar que a atividade da campanha da solidariedade envolveu uma série de textos que se destinavam à comunidade, como o bilhete apresentando a campanha e solicitando donativos, o ofício exigido pela entidade beneficiada constando da descrição das doações e o recibo emitido pela entidade. No entanto, por este trabalho não ter como objetivo o desenvolvimento do letramento, estas situações significativas de uso da leitura e da escrita, determinadas pela elaboração e circulação destes textos, não teve a participação dos alunos, sendo considerada como um aspecto burocrático do trabalho e que, portanto, não dizia respeito aos alunos. Esse fato reforça nossa análise de uma prática intra-escolar, destinada aos próprios alunos e restrita ao conteúdo do tema estudado.

Projeto Combatendo um Bando Malvado

De acordo com a descrição apresentada no capítulo três73, o projeto Combatendo

um Bando Malvado envolveu diferentes eventos de letramento. Assim como no primeiro projeto analisado, identificamos eventos de letramento com a comunidade e com os alunos participantes do projeto, conforme descrevemos:

• Eventos de letramento com a comunidade:

1. Participação da família em entrevista (questionário);

2. Distribuição de panfletos informativos às demais classes e aos familiares;

3. Apresentação cultural (teatro, teatro de fantoches e música) para as demais classes;

4. Utilização de jogos com classes de 3ª série.

• Eventos de letramento com os alunos: 1. Eventos de leitura:

Da professora: livro paradidático;

Dos alunos: fontes de pesquisa; informações obtidas na pesquisa; tabela com os dados de todos os grupos de pesquisa; roteiro de entrevista (questionário); gráficos; reportagens; panfletos informativos; textos componentes de jogos.

2. Eventos de escrita:

Da professora: listagem de fontes de consulta/pesquisa; registro de inscrições nos grupos de trabalho; registro das verminoses escolhidas para pesquisa; registro das sugestões de itens para o roteiro de pesquisa; transcrição de dados pesquisados para tabela; registro do roteiro de entrevista (questionário); registro da tabulação dos dados da entrevista; registro de sugestões de medidas preventivas às verminoses;

Dos alunos: registro do roteiro definitivo de pesquisa; registro dos dados pesquisados nas fontes de consulta; registro do roteiro de entrevista (questionário); registro da entrevista com os pais; transcrição de texto em roteiro teatral / letra de canção; panfletos informativos; tabela; gráfico; jogos (percursos, regras, embalagens, instruções de uso, cartas etc.)

3. Eventos Orais: discussão sobre decisões; relato de verminoses ocorridas na família; análise de gráficos; discussão sobre as próprias condutas em relação aos dados dos gráficos; sugestões sobre medidas preventivas às verminoses; comentários sobre o vídeo

Esquistossomose; discussão sobre medidas conjuntas (governo e população) de prevenção às doenças estudadas; sugestões de produto final; discussão sobre a viabilidade dos produtos finais; teatro; música.

4. Eventos digitais: construção de gráficos; edição de panfleto informativo.

O gráfico 2 indica a ocorrência dos eventos de letramento no desenvolvimento deste projeto.

Gráfico 2: Eventos de letramento no projeto

Eventos de letramento no projeto Combatendo um Bando Malvado

8 10 11 1 8 2 0 2 4 6 8 10 12 Escrita da professora Escrita do aluno Orais Leitura da professora Leitura do aluno Digitais

Conforme mostra o gráfico 274, neste projeto, encontramos maior equilíbrio, em relação ao primeiro, entre os eventos de letramento (de leitura, de escrita e orais), a presença de eventos de letramento digital, além do predomínio das atividades dos alunos.

No projeto Combatendo um Bando Malvado, prevaleceram os eventos de escrita e, embora os apresentemos separadamente – escrita da professora / escrita do aluno – é importante considerar que, mesmo nos momentos em que a professora foi a escriba, a produção foi coletiva. Retornando à descrição das atividades, no capítulo três, podemos perceber que nestes eventos, geralmente, a escrita da professora constitui uma ou mais etapas do texto a ser produzido ou registrado, este sim, pelos alunos.

Acreditamos que o privilégio dos eventos de escrita neste projeto se relacione ao fato de o trabalho ter surgido do interesse dos próprios alunos em abordar um tema que fazia parte do currículo escolar, porém, voltado às necessidades específicas daquela turma. Ao fazer o recorte de um tema, muitas vezes abordado conceitualmente nos livros didáticos, e direcioná-lo ao contexto cultural daquela turma, abordou-se o aspecto particular daquilo que era universal. Abordou-se o que foi culturalmente relevante, sem

74 Assim como no projeto de Orientação Sexual, não analisamos aqui os eventos de letramento com a

se afastar do conhecimento formal. Esta prática favoreceu a produção dos textos utilizados no decorrer do trabalho, pois, a especificidade do trabalho exigiu a produção de materiais também específicos, a partir de fontes de informações mais amplas e diversificadas, além daquelas que geralmente circulam na escola.

Sendo assim, diversamente ao primeiro projeto analisado, a produção de textos escritos, neste projeto, não ocupou uma posição de finalização de uma seqüência de atividades, mas integrou e permeou todo o trabalho, desempenhando as funções de registrar sugestões, decisões, direcionamentos e conhecimentos; de estabelecer uma comunicação com a comunidade e de divulgar conhecimentos construídos no desenvolvimento do projeto, de instruir sobre a utilização dos jogos. Se o primeiro projeto analisado nesta pesquisa apresentou uma característica intimista, dirigindo-se aos próprios alunos participantes, este segundo, por sua vez, dirigiu-se a um interlocutor extra-classe e, em algumas situações (questionário, panfleto), extra-escolar.

A respeito dessa interlocução, vale mencionar que, diferentemente do projeto de

Orientação Sexual, o projeto Combatendo um Bando Malvado teve boa parte de suas produções de texto definida, coletivamente, a partir de necessidades surgidas no decorrer do trabalho e a partir de negociações, avaliação da viabilidade e da funcionalidade do gênero escolhido em relação ao objetivo e aos interlocutores. Esta característica, conforme veremos no tópico referente às práticas de escrita, garantiu ao projeto uma prática permanente de produção de textos.

Seguindo os eventos de escrita, observamos a presença dos eventos orais de letramento. Em semelhança ao primeiro projeto, a discussão75 esteve bastante presente neste segundo. Mais uma vez, a característica de um trabalho culturalmente situado justifica a presença marcante da oralidade neste projeto, pois, a negociação de roteiros de pesquisa, o levantamento de fontes de informação e a tomada de decisão sobre diferentes questões favoreceram a discussão e envolveram a argumentação em diversos momentos do trabalho. Além disso, a organização dos alunos em grupos de trabalho exigiu a presença constante da discussão oral para a conclusão das atividades.

A presença de atividades em que a oralidade se apóia na escrita também foi bastante freqüente neste projeto, como a apresentação de resultados de pesquisa aos demais grupos, a socialização das entrevistas realizadas com a família, a análise de gráficos e o vídeo de divulgação científica. No entanto, foi a presença, ainda que mínima, de gêneros orais formais públicos, como o teatro e a música, que marcaram uma diferença e um avanço, no que tange à oralidade, em relação ao projeto anterior que, embora tendo privilegiado os eventos de oralidade, não abordou gêneros orais formais públicos.

Os eventos de leitura, neste projeto, diferenciaram-se consideravelmente daqueles do projeto anterior. No primeiro prevaleceu a leitura da professora. Os textos lidos, tanto pela professora como pelos alunos, foram previamente selecionados, conforme descrito no capítulo três, caracterizando um programa pré-fabricado. Neste segundo projeto, prevaleceu a leitura do aluno de textos que foram incluídos no trabalho de acordo com a necessidade e a possibilidade de acesso, caracterizando uma constituição do objeto no próprio fazer. Diferentemente do primeiro projeto, a leitura não se concentrou na professora, bem como os textos lidos emergiram das pesquisas e levantamentos de fontes informativas pelos alunos. Muitos destes textos como, por exemplo, o gráfico, surgiram de outros textos – as entrevistas (questionário), demonstrando estreita relação entre os textos lidos e os textos produzidos, não necessariamente nesta ordem.

Diferentemente do projeto anterior, neste ocorreu, ainda que timidamente, o uso da ferramenta computacional e, embora não tenham sido abordados gêneros específicos da esfera digital, o uso desta ferramenta foi contextualizado a uma prática mais ampla, desenvolvida na sala de aula, envolvendo a produção de gêneros multimodais. Deste modo, percebemos um distanciamento de práticas que desvinculam a sala de informática da sala de aula, comumente observadas na escola.

No tópico seguinte, descrevemos os gêneros que circularam nos projetos e a maneira como foram abordados nas práticas de leitura e de escrita.

4.3. Textos e gêneros que circularam nos projetos:

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