2. Fundamentos Teóricos
2.2 Concentração de Mercados: conceito, metodologia e desafios
2.2.1 Evidência e efeitos da concentração de mercados
A pergunta que o leitor poderia fazer aqui é: mas a concentração é mesmo ruim? A resposta à pergunta não é trivial, pois envolve a análise de fatores econômicos básicos, como preço, produtividade e renda, mas também de fatores sociais mais amplos como condições de trabalho, preferências e lazer. De modo a melhor situar o leitor nessa análise, os próximos parágrafos trarão um resumo das principais obras recentes sobre o tema.
Furman e Orszag (2015) suscitaram maior interesse sobre o tema concentração de mercados ao concluírem que houve um aumento significativo da concentração de mercados no EUA. Ao analisar as parcelas de mercado das cinquenta maiores companhias americanas, com base nos dados do Census Bureau dos EUA a nível de dois dígitos, os autores identificaram que, entre 1997 e 2007, houve aumento do nível de concentração em 75% dos setores estudados. Autor et al. (2017) também analisaram os dados Census Bureau na classificação SIC de 4 dígitos, entre 1982 e 2012. Constaram que o índice CR4 aumentou em média 4% nos serviços, 5% na indústria, 6% no atacado, 11% em finanças e 15% em varejo. Grullon et al. (2015) usaram dados da Compustat de classificação NAICS em três dígitos e encontraram aumento de HHI de 0,0800 em 1996 para 0,1200 em 2014. Encontraram, igualmente, evidências de aumento do tamanho de empresas listadas publicamente (em bolsa de valores) e uma redução no número de empresas listadas publicamente.
A revista Economist (2016) utilizou os dados do Census Bureau para calcular o CR4 em classificação a nível de quatro dígitos, com categorização de cerca de 900 agrupamentos setoriais. Constatou que a média ponderada de CR4 em todos os setores havia aumentado de 26% em 1997 para 32% em 2012. De acordo com a mesma revista, as empresas estabelecidas buscariam manter-se no poder e consolidar seus mercados de modo a auferir maiores lucros. Grupos acionistas
institucionais gigantescos, como BlackRock, State Street e Capital Group (juntos, eles possuem de 10 a 20% da maioria das empresas americanas, incluindo aquelas que competem entre si) poderiam influenciar as empresas a buscarem maiores lucros, almejando maiores fatias de mercado. O efeito geral dessa influência poderia dificultar o aparecimento de novas firmas e prejudicar a concorrência.
Novas firmas têm enfrentado dificuldades crescentes para cumprir com complexas regulações e, em geral, têm encontrado dificuldade para estabelecerem relações com setores do governo capazes de influenciar a alteração de leis e outros regulamentos. Já as empresas consolidadas investem de maneira crescente em atividades de “lobby”, tendo dobrado seus investimentos nessa atividade entre 1997 e 2002. A Alphabet, empresa controladora da Google, por exemplo, é uma das maiores lobistas, tendo gasto cerca de US$ 17 milhões na atividade em 2015 (ECONOMIST, 2016).
Para (ZINGALES, 2017), que estuda os contratos incompletos (as diversas lacunas econômicas e institucionais de contratos entre firmas), a interação entre o poder concentrado das corporações e a política é uma amaça ao funcionamento da economia de livre mercado e da prosperidade econômica, bem como à própria democracia. O autor argumento ainda que quanto maior a recompensa para o vencedor (ou o monopolista), maior será o incentivo para corromper o sistema político para ganhar uma pequena – mas decisiva – vantagem em relação à concorrência. O uso de recursos econômicos para investimento em atividades de lobby ao invés de atividades produtivas e de inovação pode estar criando gigantescas ineficiências econômicas.
O crescente estudo do “crony capitalism”6 (ou capitalismo de compadrio, em
tradução livre), em que o êxito dos negócios depende das estreitas relações entre os empresários e funcionários do governo, parece mostrar que há aumento da preocupação de economistas com relações escusas entre empresários e políticos que levem a ineficiências econômicas. Essas relações entre empresários e representantes políticos servem não apenas para dar vantagens a grandes empresas, mas também
6 De acordo com o National Institute for Policy Studies, acesso em 07.04.2019, em http://www3.grips.ac.jp/~esp/en/event/what-is-%E2%80%9Ccrony-capitalism%E2%80%9D/, o termo foi usado pela primeira vez por George M. Taber, em artigo para a revista Time entitulado “A Case of Crony Capitalism”, em 21.04.1980.
para preservar seu poder no tempo (ZINGALES, 2017).
Entre 2008 e 2016, as empresas americanas realizaram fusões que totalizaram o valor de US$ 10 trilhões. Essas fusões visavam em grande parte à consolidação de mercados, permitindo que as empresas incorporadas aumentassem sua parcela de mercado e reduzissem seus custos, buscando maiores lucros. Vale ressaltar que os lucros são parte importante do sistema capitalista, pois permitem que os empresários façam novos investimentos (contratando mais funcionários) e incentivando a inovação. Entretanto, lucros elevados e persistentes no tempo podem sinalizar ineficiências econômicas oriundas de desequilíbrios artificiais. A teoria econômica tradicional sustenta que as empresas podem desfrutar apenas de períodos temporários de lucros. Novas empresas, incentivadas pelos desequilíbrios entre oferta e demanda, teriam incentivos para entrar nos mercados, o que compensaria essas margens de lucro, reduzindo os preços e aumentando o emprego e o investimento (ECONOMIST, 2016).
No entanto, as barreiras de entradas e saída podem estar impedindo a livre e salutar rotatividade de empresas (“churn”7), que permite a saída de empresas
ineficientes e dá oportunidade que empresas entrantes se estabeleçam nos mercados. A revista Economist encontrou evidências de que empresas americanas lucrativas em 2003 (com lucros após impostos de 15 a 25% em relação ao valor de mercado) continuou sendo lucrativa em 83% dos casos em 2013. Na década anterior, as chances eram de cerca de 50%. A conclusão seria de que a economia americana é muito condescendente com empresas já estabelecidas. Furman e Orszag (2015) também encontram evidências de que a participação na economia de empresas entrantes tem diminuído desde 1980. Eles identificaram que, em 1982, as empresas entrantes respondiam por cerca de metade do total das empresas, mas que esse número havia caído para cerca um terço em 2013.