• Nenhum resultado encontrado

2. NEODESENVOLVIMENTISMO: POR ONDE CAMINHA A POLÍTICA BRASILEIRA?

2.1 Bresser-Pereira e o Pacto Neodesenvolvimentista

2.1.3 Evidências do Pacto Neodesenvolvimentista no Brasil

Após a compreensão dos elementos e componentes que encerram em si o Pacto Neodesenvolvimentista arrolado por Bresser-Pereira, cabe apontar as evidências do surgimento deste pacto que o economista já consegue visualizar no Brasil do século XXI.

Bresser-Pereira evidencia que o governo Lula alavanca os passos rumo ao neodesenvolvimentismo. A partir de 2006, observa as mudanças da estratégia de desenvolvimento operadas por Guido Mantega à frente do Ministério da Fazenda e com Luciano Coutinho no BNDES. Igualmente avalia que o governo Dilma Rousseff vem aprofundando o compromisso com as “forças desenvolvimentistas – os empresários industriais, os trabalhadores e uma parcela de classe profissional”. E indica: “um novo e amplo pacto político está se formando no Brasil. Vamos esperar que leve o Brasil mais depressa para o desenvolvimento” (BRESSER-PEREIRA, 2010c, p.2). Ele diz que a Argentina contemporânea já está utilizando-se de “uma estratégia que se aproxima do novo-desenvolvimentista” (BRESSER-PEREIRA, 2009, p.217).

Em artigo publicado na revista Nueva Sociedad em 2010, Bresser-Pereira (2010b)

divulga suas ideias neodesenvolvimentistas e avalia que o Brasil já tem avançado em termos de direcionamento da política econômica, especialmente no que se refere ao intervencionismo estatal dos governos do PT. Segundo sua avaliação, a expansão do mercado interno tem sido incentivada com políticas de aumento do salário mínimo e da extensão do Programa Bolsa-Família; durante a crise financeira de 2008, o BNDES e outros bancos estatais implementaram políticas anticíclicas ampliando empréstimos às empresas nacionais; houve uma tímida diminuição das taxas de juros; e o governo passou a dar mais apoio a grupos empresariais brasileiros. Por outro lado, evidencia que o governo continua a utilizar as políticas ortodoxas de “taxas de juros ainda altas e taxa de câmbio sobre-apreciada, ou, em outras palavras, baseada em déficit público e em déficit em conta corrente – duas políticas perversas que levaram o Brasil a perder mercado externo e que vem freando o investimento e o crescimento da economia brasileira” (BRESSER-PEREIRA, 2010b, p.60).

No que se refere à sua ideia de sociedade civil – constituída pelos grupos de empresários industriais nacionais e seus representantes intelectuais e institucionais – Bresser-Pereira avalia que o Novo Desenvolvimentismo ainda não se tornou hegemônico, sendo dominante apenas entre alguns grupos de empresários industriais. Afirma que a ortodoxia convencional, neoliberal e globalista, ainda é hegemônica no país, mas que tanto sua Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento quanto sua estratégia política novo-desenvolvimentista já estão consolidadas teoricamente. Cita, ainda, como marco da

disseminação do Novo Desenvolvimentismo no plano político as Dez teses sobre o novo

desenvolvimentismo aprovadas em maio de 2010.

A estratégia neodesenvolvimentista implica em retomar a Ideia de Nação no país. Segundo ele,

Se nos anos 1980 eu e muitos outros afirmávamos que o grande problema que o país enfrentava no plano político era a crise do Estado e, no plano econômico, a crise da dívida externa, hoje sugiro que o grande obstáculo político que o país enfrenta está no enfraquecimento da Nação brasileira, e o grande obstáculo econômico, na aceitação da ortodoxia convencional para orientar a política macroeconômica do país (2007, p. 18).

Ao analisar a crise financeira dos anos 2000, nas linhas finais de Globalização e

Competição, Bresser-Pereira (2009, p.220) assegura:

Essa crise, porém, representa também uma oportunidade para os economistas revisarem sua ciência e construírem uma teoria econômica mais histórica e mais prática, e – o que é mais importante – para os cidadãos e políticos se unirem no Estado democrático com o objetivo de reformar o capitalismo – buscando organizar a sociedade no sentido do desenvolvimento econômico, político, social e sustentado.

Como se este resultado fosse objetivamente possível na órbita do capital!

Bresser-Pereira, contando com a colaboração de Theuer, analisa os anos de governo petista e afirma que os mandatos de Lula seguiram o caminho novo-desenvolvimentista apenas no campo da política social e que o governo Dilma vem implementando as medidas novo-desenvolvimentistas também no plano macroeconômico. É relevante aqui citar a passagem em traçam tal análise, de modo a evidenciar seus argumentos, veja-se:

No Brasil, o presidente Lula tentou construir um acordo social para o desenvolvimento, envolvendo trabalhadores, empresários, lideranças sociais e a burocracia estatal. A criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) foi a iniciativa formal nesse sentido. A adoção de uma política industrial mais ativa, o fortalecimento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a retomada das políticas de apoio às empresas nacionais foram claramente políticas desenvolvimentistas. O mesmo pode ser dito da decisão de criar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O governo Lula, no entanto, foi incapaz de enfrentar o problema das altas taxas de juros e da taxa de câmbio sobreapreciada. Lula assumiu o governo em meio a uma crise financeira que levara a taxa de câmbio para R$ 3,95 por dólar e, durante todo o seu governo, essa taxa não deixou de apreciar-se, confirmando a tendência à sobreapreciação cíclica da taxa de câmbio. Ao encerrar seu mandato, a taxa de câmbio estava em R$ 1,65 por dólar – uma taxa incompatível para que o país continuasse a desenvolver-se de forma economicamente sustentável, fortalecendo sua indústria de produtos manufaturados. O crescimento econômico foi satisfatório e superávits em conta-corrente materializaram-se nos primeiros anos do governo Lula, mas isso se deveu, principalmente, a um forte aumento dos preços das commodities combinada com

competentes políticas distributivas. A diminuição da desigualdade econômica ocorreu, sobretudo, devido ao aumento real do salário mínimo de 54%, o que

garantiu uma demanda doméstica para a indústria de transformação. Dado o fato de que a taxa de crescimento praticamente dobrou no governo Lula, vários antigos desenvolvimentistas interpretaram tal fato como um sinal de um crescimento

wage-led e rejeitaram as teses novo-desenvolvimentistas. Logo, porém, o mercado doméstico também foi abastecido por importações e, no último ano do governo Lula, a indústria de transformação voltou a entrar em crise. O país havia aumentado o mercado interno, mas, em seguida, devido ao câmbio sobreapreciado, entregou-o aos países concorrentes, em particular à China. A grande realização de Lula, além do aumento do salário mínimo, foi a redução da pobreza por meio de programas de transferência de renda. Assim, a taxa de pobreza absoluta que, entre 1992 e 2002, variava entre 28 e 31% da população, caiu para 24,8% em 2005 e para 14,2% em 200917.1O governo não chegou a ser novo-desenvolvimentista do ponto de vista macroeconômico, mas o foi na política industrial e na política social. A presidente Dilma Rousseff, ao contrário de seu antecessor, reconheceu os obstáculos centrais ao desenvolvimento econômico brasileiro apontado pela macroeconomia estruturalista do desenvolvimento: a taxa de juros muito superior à internacional e a taxa de câmbio cronicamente sobreapreciada. Apoiada por um presidente do Banco Central identificado com os interesses nacionais, ela liderou uma nova política macroeconômica baseada na solução desses problemas. Hoje, o Brasil está no caminho novo-desenvolvimentista também na área macroeconômica, mas o governo continua incapaz de taxar a exportação de commodities – uma condição para a neutralização da doença holandesa e a obtenção de altas taxas de crescimento. Tal fato mostra a dificuldade que o governo enfrenta na condução de um novo acordo desenvolvimentista, a qual provém da relativa dependência e fragilidade da burguesia nacional industrial

(enfraquecida pela desindustrialização e desnacionalização nos anos neoliberais) e da força de uma nova e moderna burguesia agrícola apoiada ideologicamente pelo neoliberalismo (BRESSER-PEREIRA, THEUER, 2012, p.825-826 – grifos meus).

Enfim, cabe aos pesquisadores do campo social e econômico investigar e acompanhar o desenvolvimento do Pacto Neodesenvolvimentista na sociedade brasileira, buscando evidenciar suas estratégias de reprodução e construção de consensos, sua

processualidade no âmbito das políticas econômicas e sociais governamentais e trazer subsídios para seu enfrentamento. Esta tese busca dar esta contribuição no campo das políticas de expansão da Educação Superior.