7. INTERPRETAÇÃO DA REALIDADE
7.3. EVOLUÇÃO DA OCUPAÇÃO
A região onde está localizada a Vila Nossa Senhora da Luz, hoje o bairro Cidade Industrial de Curitiba, era uma das entradas de Curitiba por onde, em 1730, passavam os tropeiros. Estando localizada em um ponto distante do marco zero da cidade, essa região passou por poucas mudanças até a década de 1960 com a implantação da Vila. De acordo com a COHAB-CT (2006), na região haviam Figura 28 - Planta de implantação da VNSL, em verde as ruas do comércio.
chácaras e fazendas ocupadas por imigrantes poloneses, que somavam cerca de 2.500 pessoas em 1930. Ao longo de mais de 30 anos, o transporte que ligava essa região ao centro da cidade, consistia em um trem que saía da Estação Barigui para a Estação Portão, de onde se deveria acessar outro tipo de transporte até o destino final.
Figura 29 - Foto aérea 1952 Fonte: IPPUC (2006).
Em 1966, o Seminário de Desenvolvimento Industrial de Curitiba discutia a possibilidade de expandir a área industrial da cidade no sentido oeste, onde os terrenos eram mais planos e os ventos predominantes não levariam resíduos para as residências, complementado a região industrial existente no bairro Rebouças. O Plano Diretor, da mesma época, ia de acordo com essas discussões, analisando o padrão de crescimento habitacional da cidade e também as tendências de crescimento industrial, que necessitariam de maiores terrenos (COHAB-CT 2006). Também em 1966 a Vila Nossa Senhora da Luz foi
implantada na região conhecida como Barigui do Portão, o que contribuiria nos anos seguintes para a consolidação do local. No ano seguinte, em 1967, o prefeito Ivo Arzua assina um decreto, delimitando e oficializando a área discutida pelo Seminário como novo distrito industrial, entretanto nenhuma obra de infraestrutura é feita até 1971, quando o prefeito Jaime Lerner retoma os estudos sobre a área (ARAUJO,2011).
Figura 30 - Foto aérea 1972 Fonte IPPUC (2016).
Em 1973 é anunciada então, a criação da Cidade Industrial de Curitiba (CIC) em convênio entre a URBS e o governo do Estado do Paraná. O decreto nº 30/73 assinado por Jaime Lerner desapropriando uma área de 43,7 milhões de m² que iria do Tatuquara até o Campo Comprido, oficializa a operação. O passo seguinte
foi a alteração do zoneamento da cidade para tornar a então zona de expansão urbana como zona industrial, tal feito foi alcançado através da Lei nº 4773/1974. Segundo Araújo (2011), em 1975 começam as desapropriações dos terrenos da CIC, que acabariam se tornando o principal custo do projeto. Para atrair as empresas, era necessário que se investisse em infraestrutura na região, entretanto esses mesmos investimentos acabavam tornando a desapropriação mais onerosa e os processos ainda mais lentos. A primeira empresa nacional a se instalar na CIC foi a Plastipar, logo depois a Siemens Telecomunicações e a New Holland fecharam acordos para instalarem suas fábricas, sendo o terreno escolhido pela Siemens localizado em frente à Vila Nossa Senhora da Luz. A CIC também contava com regiões pensadas para a habitação, principalmente a habitação dos trabalhadores que seriam atraídos pelas novas indústrias que se instalavam. Em 1979, o recém nomeado diretor técnico da COHAB-CT, Rafael Dely começa a compra de terrenos que eram considerados propícios para a implantação de novas habitações.
“Começamos com o estoque de terras e até hoje a COHAB continua usando... todos terrenos que foram comprados naquela época. E o estoque de terras tinha algumas características: ficar próximo aos equipamentos urbanos, ficar próximo ao sistema de transporte e integrado à estrutura dos bairros que lhe faziam vizinhança para evitar esse negócio de criar guetos afastados.” (DELY apud COHAB-CT 2006).
A ideia principal da compra dos terrenos era, portanto, garantir que os novos empreendimentos habitacionais fossem instalados em áreas com infraestrutura, evitando conjuntos isolados. Além disso, o estoque de terras permitia que a COHAB planejasse e norteasse suas próximas ações. A partir desse estoque foi criado inicialmente o conjunto Oswaldo Cruz I localizado em frente à Vila Nossa Senhora da Luz.
Figura 31 - Foto aérea 1985
Fonte:IPPUC (2006), editado pela autora.
As novas habitações e construções da COHAB e sua e contribuíram para fazer com que a CIC se tornasse um dos bairros mais populosos da cidade. Desde sua fundação na década de 70 até 2010, sua população duplicou e embora tenha recebido diversos conjuntos habitacionais, a quantidade de ocupações irregulares no bairro também é bastante expressiva, representando 14% das ocupações irregulares de Curitiba (IPPUC, 2010).
1970 1980 1996 2010
Posição em ranking (quando comparado aos demais bairros)
5º 2º 1º 1º
Tabela 3 - Evolução da população na Cidade Industrial de Curitiba Fonte: IPPUC (1996), IBGE (2000,2010).
Apesar da grande ocupação, algumas áreas do bairro permaneceram vazias e subutilizadas até serem de interesse ao setor imobiliário. É o caso da região conhecida como Ecoville que segundo Araújo (2011) só começou a ser explorada a partir dos anos 90 e hoje possui valor do metro quadrado muito acima do praticado no resto do bairro. Em 2010 outra área subutilizada é explorada: na região sul do bairro surge o loteamento conhecido como Neoville, voltado para famílias de classe média, com construção de casas e prédios de até oito pavimentos em um terreno localizado ao lado da antiga fábrica da Siemens e próximo à Vila Nossa Senhora da Luz.
Figura 33 - Entorno da Vila atualmente Fonte: Google Maps (2018), editado pela autora.
Atualmente a região no entono da Vila Nossa Senhora se encontra consolidada. A fábrica da Siemens, com a saída da empresa da cidade, se tornou sede da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). O terreno onde foi iniciado o loteamento Neoville teve novas ruas abertas e a construção de uma escola particular, posto policial e centro comercial. Nas proximidades da Vila foi implantado o Terminal da CIC, que oferece conexões com os demais bairros e cidades da região metropolitana, através de linhas alimentadoras, ligeirinhos e interbairros. A Vila Nossa Senhora da Luz também se encontra próxima de duas vias principais, a Rua Pedro Gusso, à qual faz frente, que liga o bairro Capão Raso à Cidade Industrial, passando pelo terminal do CIC; e a Rua João Bettega, que concentra em seus arredores lotes industriais e que liga o bairro Portão à Avenida Juscelino Kubistchek, próximo ao Contorno Sul de Curitiba, por onde passam ônibus que vão até a cidade de Araucária.
Apesar do rígido traçado, a Vila também passou por mudanças ao longo dos anos, acompanhando o desenvolvimento do bairro. Conforme será exposto no próximo capítulo, a população da Vila cresceu com o passar dos anos, bem como as taxas de ocupação dos lotes foram aumentando para suprir a demanda. Novas áreas comerciais foram se desenvolvendo e novos equipamentos foram instalados.