Cordani (1973) é um dos primeiros autores a apontar a inflexão da Faixa Araçuaí para NW (porção oriental do arco) como resultado do Ciclo Brasiliano, através de idades K-Ar na região de Salto da Divisa. Em direção a NW, reconhece a influência deste ciclo até a altura das cidades de Calculé, Paramirim e Brotas de Macaúbas. Embora o autor e colaboradores reconheçam, a princípio, a existência de dois blocos estáveis onde hoje é o Cráton do São Francisco, esse trabalho lança as primeiras ideias para definição de seus limites e de sua curvatura a sudeste (na Saliência do Rio Pardo).
O primeiro projeto de mapeamento da curvatura norte da Faixa Araçuaí foi o de Silva Filho et al. (1974), no projeto Sul da Bahia. Em Portela et al. (1976), ela foi redefinida como zona pericratônica do Alto do Rio Pardo.
Almeida (1977) delineia os limites do Cráton São Francisco e define a Faixa de Dobramentos Araçuaí como “a faixa de dobramentos brasilianos adjacente às bordas sul e sudeste do Cráton São Francisco, em Minas Gerais e regiões vizinhas da Bahia”. Assim, reconhece o encurvamento setentrional da Faixa Araçuaí entre os dois estados (Figura 3.5), indicando, além disso, o falhamento de Itapebi como o limite nordeste entre a faixa e o cráton.
Ainda buscando uma melhor delimitação para a porção sudeste do Cráton São Francisco, Almeida et al. (1978) realizam um estudo estratigráfico, estrutural e metamórfico de maior detalhe na região da Saliência do Rio Pardo. Neste estudo, definem os limites da curva desde a zona de falhas de empurrão da Serra do Espinhaço, no norte de Minas Gerais, até a falha Planalto-Potiraguá, considerada no projeto Sul da Bahia (Silva Filho et al. 1974) como uma falha de empurrão que promoveria transporte tectônico para nordeste. Os autores apresentam também um mapa da distribuição das paragêneses metamórficas detectadas na região (Figura 3.6).
Em termos estratigráficos, uma grande incógnita que permanece na porção interna da Saliência do Rio Pardo refere-se à porção basal das rochas supracrustais nela envolvidas (na região da Serra Geral – ou Serra do Inhaúma). Esta unidade é composta por metarenitos, intercalados com metapelitos e, subordinadamente, metaconglomerados. Esta sequência metassedimentar foi inicialmente correlacionada por Almeida et al. (1978) e Inda e Barbosa (1978) ao Supergrupo Espinhaço. Estes últimos autores indicam provável sedimentação concomitante ao fim do Supergrupo Espinhaço e início do Grupo Macaúbas. Lima et al. (1981), no entanto, levando em conta o maior grau metamórfico e a sua posição fora do cráton, denomina-a Grupo Serra da Inhaúma.
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Figura 3.6. Zoneamento metamórfico proposto por Almeida et al. (1978) para parte da região da Saliência do Rio
Pardo. Ky, cianita; St, estaurolita; Sil, sillimanita; Kf, feldspato-K; Sp, espinélio. Linha A-A’ – Limite do Cráton do São Francisco. Linha B-B’ – limite sul da ocorrência de cianita. Linha C-C’ – limite norte do metamorfismo de alto grau (Modificado de Almeida et al. 1978).
Após o avanço dos conhecimentos sobre a saliência alcançado até a década de 1980, houve um grande período no qual não se realizaram estudos na região. Eles são restabelecidos a partir de Uhlein (1991), que, ao estudar a transição entre a Faixa Araçuaí e Cráton do São Francisco, realiza estudos tectono-estratigráficos na região (Figura 3.7). O autor correlaciona o Grupo Serra do Inhaúma à porção basal e média do Supergrupo Espinhaço (na região de Diamantina). Descreve para a unidade a seguinte sucessão: (a) metaconglomerado, que grada para quartzito mal selecionado micáceo ou feldspático; (b) intercalações de metarritmito, quartzito e xisto; (c) quartzito com estratificações cruzadas de pequeno a médio porte. O mesmo autor sugere como ambiente de deposição leques aluviais na base, lacustre ou marinho raso para a porção intermediária e sistema fluvial entrelaçado para o topo, indicativos, portanto, uma evolução regressiva.
Uhlein et al. (1998b) em estudo sob as condições de deformação e plutonismo das porções mais internas da saliência, onde afloram os migmatitos do Complexo Jequitinhonha, estima condições metamórficas de deformação regional e colocação de plútons entre 715 e 790 ºC (pelo geotermômetro Grt-Bt). A deformação é descrita por estruturas NW-SE e zonas de cisalhamento de empurrão vergentes para SSW.
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Figura 3.7. Perfil ao longo da Serra da Inhaúma apresentado por Uhlein (1991).
A investigação em relação à grande curvatura que bordeja o cráton do São Francisco a sudeste em si foi retomada nos anos 2000, com os trabalhos Cruz (2004) e Cruz e Alkmim (2006), que a interpretam como uma típica saliência. Para estes autores ela seria um produto da interação entre o Aulacógeno do Paramirim e o Orógeno Araçuaí, marcada por quatro conjuntos de estruturas (Figura 3.8).
O primeiro conjunto de estruturas estaria associado a uma zona de cisalhamento de baixo ângulo de aproximadamente 200m de espessura, atuante como um descolamento basal posicionado no contato embasamento/cobertura. Nas rochas metassedimentares, as estruturas correspondentes seriam dobras isoclinais, às quais se associaria a foliação penetrativa de plano axial. Já reconhecidas por Almeida et al. (1978), estas estruturas mostram orientação variável entre NE-SW, na porção ocidental do arco, passando a E-W na sua zona de charneira, e NW-SE no flanco oriental. A lineação de estiramento nas rochas do embasamento e supracrustais segueria o rumo do mergulho da foliação. Os indicadores cinemáticos associados indicariam movimento dirigido para NW, N e NE nas porções ocidental, central e oriental da saliência, respectivamente.
O segundo conjunto é formado por dobras recumbentes a reclinadas, observadas tanto no embasamento quanto nas unidades do Grupo Macaúbas, estando associadas com uma segunda fase de deformação. A orientação geral das estruturas deste conjunto também seguiria os traços da curva da saliência.
O terceiro conjunto englobaria dobras abertas, com plano axial de direção NNW-SSE, e ao se superpor aos conjuntos anteriores daria origem a padrões de redobramento em domos e bacias, também observados por Almeida et al. (1978).
Cortando todos os conjuntos anteriores, as estruturas do quarto conjunto corresponderiam a zonas de cisalhamento reversas a dextrais, em geral com direção NNW-SSE e alto ângulo de mergulho. Estas zonas cortariam o embasamento e o Grupo Macaúbas, e seriam geradas por um encurtamento geral
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na direção WSW-ENE. Almeida et al. (1978) associa a este último conjunto estrutural a sinuosidade observada nos lineamentos estruturais.
Figura 3.8. Mapa geológico simplificado da Saliência do Rio Pardo, com principais dados estruturais (Cruz et al.
2012a).
Na porção oriental da curvatura, Belém (2006) em estudo petrológico das rochas do Complexo Jequitinhonha estima em 791 ± 42ºC e 4,98 ± 0,45 kbar a condições da recristalização do paleossoma de migmatitos.
Moraes-Filho e Lima (2007) detalham em termos estratigráficos e estruturais o flanco leste da saliência na região de Itapetinga. Os autores delineiam o limite do cráton ao longo de uma zona de cisalhamento de direção NW-SE (que coincide aproximadamente com a Zona de Cisalhamento Itapebi), de carácter transpressivo dextral e dúctil. Na área entre as zonas de cisalhamento, são descritos dobramentos com vergência principalmente para NE. Zonas de cisalhamento rúpteis, brasilianas, de direção NE-SW adentram o cráton e condicionam intrusões alcalinas neoproterozoicas.
Cruz et al. (2012a) apresenta o estado-da-arte dos conhecimentos do Orógeno Araçuaí no estado da Bahia, em grande parte representado pela Saliência do Rio Pardo. Segundo estes autores, as condições do metamorfismo regional crescem de norte para sul em direção às porções centrais do Orógeno Araçuaí. A assembleia sin-cinemática, formada por biotita, granada, estaurolita e cianita nas porções
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mais externas é progressivamente substituída por sillimanita, feldspato-K e estaurolita ao se adentrar na saliência e, mais adiante, por feldspato-K e espinélio.
Nos mapas regionais de Minas Gerais (2003, 2013) rochas da região da Serra Geral e a sul são correlacionadas ao Grupo Macaúbas. Alguns trabalhos de mapeamento recentes, em mapeamento na escala 1:100.000, correlacionam parte da sequência aflorante na Serra Geral à Unidade Piripá – Iguatemi, de idade Sideriana, que corresponderia à sequência plataformal pré-Espinhaço (Wosniak et al. 2013). Também em mapeamento na escala de mapeamento 1:100.000, Knauer et al. (2015) denominam como Grupo Serra do Inhaúma toda a sequência metassedimentar que vai da base do complexo Tingui, na região de Montezuma, seguindo pela Serra Geral, atribuindo à sequência sedimentação Paleoproterozoica.
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CAPÍTULO 4
PANORAMA ESTRATIGRÁFICO E GEOCRONOLÓGICO DA
SALIÊNCIA DO RIO PARDO, MG-BA
4.1 – Introdução
A partir de dados da literatura, cujas fontes foram mencionadas no capítulo anterior, e informações colhidas nos trabalhos de campo, propõe-se para a região da Saliência do Rio Pardo a subdivisão estratigráfica compilada no mapa da Figura 4.1 e na carta estratigráfica da Figura 4.2. O trabalho na região mostrou que o tanto arcabouço estratigráfico geral, como o conteúdo das unidades presentes variam significativamente ao longo da saliência. Por esta razão, descrevem-se as suas unidades constitutivas de forma compartimentada de acordo com seus três setores, como enfatizado na Figura