O perfil esquemático, figura 5.5, destaca a porção referente ao Cone do Rio Grande na linha strike 059. Este perfil engloba a total construção do Cone, partindo desde o refletor referente ao Mioceno Médio até o fundo submarino atual.
Nota-se, primeiramente, que existem dois grandes centros deposicionais no próprio Cone: o centro C2, mais próximo ao Arco de Torres, e o centro C1, em topográfico da deposição. Este mesmo intervalo não exerce tal influência quanto à construção de C1. No intervalo justaposto, de idade Pliocênica ao Recente, uma espessa cunha de aproximadamente 800 metros desempenha um importante papel na construção do depocentro C1, o que já não pode ser visto em C2.
A fonte de sedimentos desses centros deposicionais é muito provavelmente de proveniência terrígena, associada à drenagem fluvial pretérita, que fornecia sedimentos para a margem continental e pela posterior redistribuição destes sedimentos para o mar profundo através de processos de correntes de turbidez e correntes de contorno. Portanto, acredita-se que a evolução espacial e temporal desses centros se deu em função de um sistema de canais migratórios, favorecendo um fluxo de grande descarga para os dois centros deposicionais. No depocentro C1 nota-se uma série de feições em forma de “u”, truncando refletores subjacentes, que podem ser interpretados como paleocanais geneticamente interligados. A orientação desses paleocanais indica uma migração lateral para leste do eixo de deposição (Figura 5.5 e 5.6). A cunha depositada posteriormente a oeste do Cone foi, provavelmente, resultado erosivo da ação de correntes de fundo de um dos flancos deste paleocanal.
No centro deposicional C2, o Arco de Torres parece condicionar a dispersão sedimentar deste depocentro. A terminação “onlap” dos refletores sobre o Arco (Figura 5.7) indica que este alto estrutural funciona como uma barreira topográfica na porção norte do Cone do Rio Grande. Já o limite sul do depocentro (C1) se dá sobre o Lineamento Chuí, no entanto, nenhuma barreira topográfica está associada à mesma. Na verdade, o que se observa são irregularidades superficiais e truncamento dos refletores a partir do Mioceno Médio, corroborando que o ambiente é caracterizado por ação de correntes geostróficas de contorno como visto anteriormente (Figura 5.4).
Figura 5.5: Perfil esquemático realçando a porção referente ao Cone do Rio Grande na linha strike
SW NE
(Km)
0 2.5 5
Figura 5.6: Destaque referente à figura esquemática anterior (linha strike 500 059A -base Leplac-IV). A seta mostra o eixo de migração dos paleocanais no centro deposicional do Cone do Rio Grande.
Figura 5.7: Destaque na linha strike 500 059A (base Leplac-IV) realçando a terminação
“onlap” dos refletores sobre o Arco de Torres.
SW NE
(M ) 0 5 00 1 000
(M ) 0 5 00 1 000
SW NE
V) CONCLUSÃO:
A interpretação dos dados sísmicos realizados neste trabalho se mostrou satisfatória na identificação e interpretação das principais feições da margem continental sul brasileira, são estas: Dorsal de São Paulo, Arco de Torres, Zona de Fratura do Rio Grande, Lineamento de Porto Alegre; Lineamento Chuí e o Cone do Rio Grande.
Através da geração do mapa de isópacas, de toda a seqüência pós-rift, e do mapa de profundidade do embasamento observou-se a presença de grandes depocentros confinados entre estruturas na margem que abrange a Bacia de Pelotas. O depocentro a sul do Lineamento de Porto Alegre representa o principal depocentro da margem continental sul brasileira, no qual desenvolveu-se o Cone do Rio Grande.
Os mapas intervalares, das quatro seqüências sísmicas aqui identificadas, possibilitaram o entendimento de como se deu a evolução espacial e temporal dos depocentros da Bacia de Pelotas. O mapa da seqüência mais basal, entre o embasamento e o Maastrichtiano, mostra os principais depocentros localizados sobre os domínios da margem continental. Já nas seqüências posteriores, que envolvem o intervalo do Maastrichtiano ao Oligoceno, observou-se que dois depocentros (D3 e P3) deslocaram-se para porções mais distais, sendo isolados da margem por um alto no embasamento cuja atuação como alto topográfico deixa de existir após o Oligoceno. Outros dois depocentros (D2 e P2) se desenvolvem mais a nordeste da Bacia de Pelotas, e foram controlados também, por falhas normais, que deslocam o embasamento, servindo como geradoras de espaço para acomodação. Apenas no intervalo Oligoceno – Recente que se observa uma deposição aplainadora de relevo com volumosas cunhas progradantes, caracterizando a formação do Cone do Rio Grande. A taxa de acumulação durante esse intervalo é extremamente alta, equivalendo a do Cone do Amazonas. Portanto, a espessa seção progradante do Cone reflete, entre outros fatores, a intensificação do processo de flexura e subsidência térmica da margem sul Brasileira.
O Cone desenvolveu-se em forma de leque protuberante a partir do Mioceno Médio e certamente extrapola os domínios do Talude Continental afinando-se em direção à planície abissal. Os limites offshore do Cone definidos neste trabalho são menores do que foi previamente descrito na literatura (Bassetto et al., 2000). O Cone tem, ainda, como seu limite lateral a norte, o Arco de Torres, sismicamente observado na terminação em forma onlap dos refletores. Já seu limite sul está coincidentemente associado ao Lineamento Chuí, mas este lineamento não exerce qualquer influência quanto à distribuição sedimentar.
Os processos, atuais e passados, condicionantes na morfologia do Cone estão associados à ação de correntes de fundo, face ao grande número de feições erosivas e deposicionais encontradas na área de estudo. A abrupta diminuição das espessuras sedimentares na terminação do Cone mostra a ação dos processos de correntes termo-halinas na modulação do Cone. Depósitos de contouritos também foram observados e correlacionados à construção do Cone, através da erosão de um sistema migratório de paleocanais. Portanto, a configuração dos principais depocentros da margem sul brasileira não está relacionada somente a processos termomecânicos e estruturais, mas também a processos dinâmicos de corrente de contorno.
VI) REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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