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3 IGUALDADE

3.2 Evolução Igualdade Formal e Igualdade Material

O nascedouro do que viria ser estandardizado na Revolução Francesa como ideal universal de igualdade coincide com a evolução do Cristianismo e a sua valorização da pessoa humana. Numa rápida retrospectiva verifica-se que na antiguidade, sobretudo na sociedade Greco-romana, o indivíduo era valorizado pelo grau de participação política que exercia, sendo a posição de cidadão político a maior expressão da personalidade. A expansão da religião Cristã, com o seu entranhamento no poder estatal, fez prevalecer um reconhecimento distinto da pessoa humana, que para tanto não se valia de qualquer formulação jurídica ou política como outrora.

Com o advento do Estado Liberal, que eclode com o movimento burguês francês, objetiva-se a ideia de igualdade, sacrificando-a em sua compreensão absoluta, uma vez que ficava resumida ao conceito de igualdade política ou formal. Esta noção surgiu como uma contrapartida ao modelo social vigente no denominado Antigo Regime, o qual dividia-se em três ordens – Clero ou Primeiro Estado, Nobreza ou Segundo Estado e Povo ou Terceiro Estado –, cada uma regida por leis próprias, sob a direção de um rei absoluto. Os dois primeiros grupos sociais eram privilegiados em detrimento do Povo que era explorado. Este era composto por uma densa e heterogênea camada, que incluía desde os emergentes burgueses até os camponeses sem terra. A mobilidade social estava comprometida pelo engessamento promovido pela compartimentação hierárquica existente entre os indivíduos que eram diferenciados por critérios de estirpe.

Os revolucionários, impulsionados pela proposta iluminista, comandaram a reviravolta política, econômica e social, combatendo um sistema cristalizado pela força do tempo e da tradição de mais de 50 gerações. O ideário expresso na máxima "Liberté, Egalité, Fraternité" foi vertido para o texto da introdução da primeira Constituição Francesa, fragmento que seria denominado como a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

igual nada diz sobre a questão de saber qual deve ser o conteúdo deste tratamento igual” (p. 52), o que impede a sua aplicação a quem quer que seja; 2) prescinde de uma norma de igualdade, que venha a definir as qualidades em relação às quais as desigualdades serão levadas em conta; e 3) é possível que uma norma se aplique a um único caso, “com efeito “igual” é um conceito de relação e um fato ou situação apenas é “igual” em relação a um outro fato ou situação” (p. 57). Disso conclui: “Por isso o princípio, plenamente formulado, diz: ‘quando os indivíduos são iguais – mais rigorosamente: quando os indivíduos e as circunstâncias externas são iguais – devem ser tratados igualmente, quando os indivíduos e as circunstâncias externas são desiguais, devem ser tratados desigualmente.” (p. 54). (GRAMSTRUP, Revista Eletrônica Videtur. Edição 17).

O constitucionalismo nascente anunciava o Estado de Direito caracterizado pela centralização das relações jurídicas, superando o modelo indiscriminado de formulação normativa difusa do feudalismo e arbitrária das monarquias. A compreensão acerca da igualdade formal se insurgia contra os privilégios de nascença, contra as diferenças estamentais e as discriminações injustificadas. A possibilidade de se estabelecer direitos iguais para todos os homens, acabando com a desigualdade extremada, só foi ofuscada pela primazia que recebeu o direito à liberdade. Ofuscamento que consistiu na limitação do sentido de igualdade ao aforismo, apropriado remotamente da construção do jusconsulto romano Ulpiano11,

“dar a cada um o que se lhe deve, conforme o seu mérito particular”.

Veja-se, contudo, que essa conquista em torno da igualdade formal não incorpora como objetivo transformar as relações sociais no sentido de fazê-las mais igualitárias. Não há também um comissionamento do Estado no sentido de reduzir a pobreza. No entanto, ao menos, era a primeira vez que, diante da lei, todos os indivíduos passaram a ser considerados iguais, concepção que não se afastava do pressuposto segundo o qual o Estado não se portava como ente discriminatório de partes formalmente iguais e que, portanto, ao natural, seria possível equacionar de maneira livre e conveniente para todos os envolvidos os eventuais conflitos de interesse.

Contudo, como lembra Daniel Sarmento (2014), no plano prático, essa concepção de igualdade formal não logrou êxito em se materializar em realidade. Com efeito, as declarações de direitos dispunham sobre a igualdade, mas a escravidão continuava a se perpetuar em diversos países. No continente Europeu, enunciava-se a igualdade, mas os países que o compunham exploravam diversas colônias nos continentes africano e asiático, sem que os cidadãos das regiões tributárias das metrópoles ostentassem quaisquer direitos. Enfim, essa construção em torno da igualdade falhava no aspecto da concretização, especialmente porque o discurso do

laissez faire, laissez passer12 era desmentido pela forte atuação do Estado em direção

à manutenção do status quo, coibindo, por exemplo, a organização sindical.

O novo passo de evolução da concepção de igualdade, a assim denominada igualdade material, adveio a partir das críticas ao sistema de organização capitalista,

11 "Dar a cada um o que lhe cabe” (CUNHA; DIP, 2001).

12É parte da expressão em língua francesa "laissez faire, laissez aller, laissez passer", que significa

baseado na propriedade privada dos meios de produção e na livre-iniciativa dos particulares, as quais foram formuladas pelo socialismo, marxismo e pela doutrina social da Igreja, aliadas à mobilização dos trabalhadores, tudo somado para mudar o perfil do Estado e a compreensão sobre a igualdade. Historicamente, de forma simbólica, o colapso ocasionado pelo sistema político-econômico liberal foi consolidado – ou, pelo menos, simbolizado – na “stock market crash”.

O desenvolvimento do Estado Social, cujo objetivo era reduzir as desigualdades existentes entre os indivíduos, oferecendo proteção especial para aqueles que se encontravam em posição de desvantagem - estreitando assim o abismo econômico alimentado pelo período de liberalismo - seguiu a máxima “tratar os iguais de forma igual e os desiguais de forma desigual, na medida da sua desigualdade” (BASTOS, 1978)13.

A proposta de um Estado interventor, que se ocupa de equilibrar as condições de vida através de prestações positivas em diversos setores, serviu para compensar a desigualdade natural dos homens. Sob esse ponto de vista, o Estado teria que agir para diminuir a assimetria, tendo que muitas vezes regular as relações sociais para proteger o mais fraco do mais forte; prestar serviços públicos para garantir as condições mínimas de uma vida com qualidade; e, inclusive, intervir na economia.