CAPÍTULO 2 – A TEORIA DA DEPENDÊNCIA E O ENFOQUE MARXISTA
2.4. Exército industrial de reserva e o polo marginal
O Polo Marginal, segundo Aníbal Quijano, estabelece uma atualização de conceituação referente à situação da mão de obra do sistema, haja vista que cobre um vazio instalado pelo próprio estabelecimento do polo enquanto setor da mão de obra. Não que a questão do desemprego ou do subemprego não tenha sido tratada anteriormente, mas é preciso entender como a marginalização perpassa essas duas situações em que se encontra a mão de obra.
Quando tratados anteriormente, o desemprego ou o subemprego não tinham uma caracterização própria, para além da constatação de que estes fenômenos são parte da engenharia econômica imposta pelo capital. Escreve o autor:
La dificultad central que ofrecen estas categorías es que, precisamente, agotan su utilidad en eso: un intento de cuantificación en abstracto de la proporción de mano de obra no plenamente empleada, sin permitir indicar nada acerca del lugar concreto que aquélla tiene en las relaciones de producción de la sociedad, o en otros términos, del rol económico que define la situación de esa mano de obra en la estructura de relaciones de producción, y por eso mismo, esas categorías nada pueden decir tampoco sobre los modos de articulación de la estructura económica, de los modos de acumulación de capital que en ella predominan. (QUIJANO, 2014, p. 154).
O enfoque marxista se utiliza de uma formulação teórica que entende a superpopulação relativa como um fenômeno que aparece dada as interações entre a o conjunto que forma a mão de obra, suas respectivas diferenciações e a economia industrial. Quijano resgata o conceito de
“exército industrial de reserva” e o atualiza, porém de maneira a que, para o autor, este não mais existe apenas como um extrato da população trabalhadora que está fora do mercado de trabalho.
De acordo com a análise de Marx (2017, p. 689), a composição do capital pode ser entendida a partir de dois ângulos. No que se refere ao seu valor, tem-se o capital constante que representa o valor dos meios de produção, e o capital variável, que corresponde à “soma total dos salários”. Sob o ângulo do processo produtivo, da sua forma materializada, este está separado em meios de produção e força viva de trabalho. O primeiro ângulo, portanto, se refere à composição do valor em si. Já o segundo, tem-se como a composição técnica. Assim, “onde se fala simplesmente de composição do capital, entenda-se sempre sua composição orgânica”.
(MARX, 2017, p. 689).
Estas definições se aplicam tanto ao cenário individual de uma firma como ao cenário formado por várias firmas, já que os processos produtivos, segundo Marx, tendem a ser mais ou menos parecidos. Por isso, a média da composição do capital das firmas individualmente é a definição do capital social total do ramo produtivo ao qual elas estão inseridas. As médias das médias de todos os ramos produtivos, nesse sentido, nos dão a composição total do capital do país.
Como se observa na leitura de Marx, para que o capital como um todo consiga auferir crescimento, é preciso que a quantidade de trabalho, o capital variável, também cresça. Ocorre que, por questões mercadológicas inerentes ao capitalismo, como a criação de novos mercados surgidos a partir da necessidade do capitalista aumentar seu poder de acumulação, movimentos dessa natureza exigem a expansão da produção. Se a expansão da força de trabalho disponível não acompanha o movimento da demanda por esta força e, assim, a demanda por trabalho seja maior do que o que se tem disponível de mão de obra, poderá ocorrer aumento dos níveis de salário. Daí a importância do componente técnico para equilibrar esta correlação de forças expressa na flutuação do salário, em favor do capitalista. De acordo com Marx,
A reprodução da força de trabalho, que tem incessantemente de se incorporar ao capital como meio de valorização, que não pode desligar-se dele e cuja submissão ao capital só é velada pela mudança dos capitalistas individuais aos quais se vende, constitui, na realidade, um momento da reprodução do próprio capital. Acumulação do capital é, portanto, multiplicação do proletariado. (MARX, 2017, p. 690)
O desenvolvimento de novas tecnologias acelera o processo de produção das mercadorias, o que leva o capitalista a buscar, incessantemente, níveis cada vez maiores da incidência destas na própria produção. O resultado disso é um aumento do capital constante em relação ao capital variável, quando se lança o olhar para o capital total. Há uma mudança na composição orgânica do capital. A quantidade de capital constante novo aumenta à medida que novas inversões de capital aumentam na produção. Não que o capital variável não consiga alcançar crescimento, mas este se dá em um nível inferior. Daí tira-se alguns movimentos:
Se considerarmos o capital social total, ora o movimento de sua acumulação provoca uma variação periódica, ora seus elementos se distribuem simultaneamente entre as diferentes esferas de produção. Em algumas dessas esferas ocorre, em decorrência da mera concentração, uma variação na composição do capital sem crescimento de sua grandeza absoluta; em outras, ora o capital continua a crescer sobre sua base técnica dada e atrais força de uma mudança orgânica e seu componente variável se contrai;
em todas as esferas, o crescimento da parte variável do capital e, portanto, do número de trabalhadores já ocupados anteriormente, quer a forma menos evidente, mas menos eficaz, de uma absorção mais dificultosa da população trabalhadora suplementar mediante os canais habituais. (MARX, 2017, p. 705-6)
Revela-se uma trama de relações advindas do âmbito da produção econômica, que coloca em conformidade o capital social já existente seu grau de crescimento, a expansão da escala de produção e da composição total de trabalhadores, todos atrelados ao nível geral de riqueza obtida em momento anterior; tudo isso jogado num novo movimento de acumulação, exige a flutuação, como já apontada, da massa de mão de obra empregada na produção, mas mais que isso. Como num jogo de corda, “a escala em que uma maior atração dos trabalhadores pelo capital está vinculada a uma maior repulsão desses mesmos trabalhadores” (MARX, 2017, p. 706). O resultado disso é que a população trabalhadora sofre a partir dos movimentos da acumulação de capital um crescimento acima da sua necessidade de entrada na produção.
Mas se uma população trabalhadora excedente é um produto necessário da acumulação ou do desenvolvimento da riqueza cm base capitalista, essa superpopulação se converte, em contrapartida, em alavanca da acumulação de produção capitalista. Ela constitui um exército industrial de reserva disponível, que pertence ao capital de maneira tão absoluta como se ele o tivesse criado de sua própria conta. (MARX, 2017, p. 706)
O capital entra de tal forma nos processos produtivos, que estabelece um ritmo de crescimento desigual entre as diferentes modalidades de produção. Modalidades mais leves se desenvolvem em um ritmo mais acelerado do que as mais pesadas. Marx cita o exemplo do ramo ferroviário (MARX, 2017, p. 708). Obviamente que para as ferrovias se desenvolverem,
é preciso que o setor de matéria-prima voltado para a extração e modificação de ferro acompanhe o ritmo de desenvolvimento destas. Assim, afirma:
[…] é preciso que grandes massas humanas estejam disponíveis para serem subitamente alocadas nos pontos decisivos, sem que, com isso, ocorra uma quebra na escala de produção alcançada em outras esferas. A superpopulação provê essas massas. O curso vital característico da indústria moderna, a forma de um ciclo decenal interrompido por oscilações menores de períodos de vitalidade média, produção a todo vapor, crise e estagnação, repousa sobre a formação constante, sobre a maior ou menor absorção e sobre a reconstituição do exército industrial de reserva ou superpopulação. (MARX, 2017, p. 708)
Marx segue afirmando que a expansão do capitalismo só pode ser possível graças ao crescimento da população explorável acima da capacidade de expansão do próprio capital. O movimento cíclico da expansão e retração da produção precisa da liberação constante de mão de obra ocupada. “Toda forma de movimento da indústria moderna deriva, portanto, da transformação constante de uma parte da população trabalhadora em mão de obra desempregada ou semiempregada” (MARX, 2017, p. 708).
Esse processo desencadeia um aumento do volume de trabalho e do trabalho extraído da mão de obra empregada, pressionando os salários para cima, aumentando, desta maneira, o capital variável. Segundo Marx, é preferível para o capitalista “extrair quantidade de trabalho de um número menor de trabalhadores, em vez de extraí-lo por um preço igual ou até mesmo mais barato de um número maior de trabalhadores” (MARX, 2017, p. 711). Isso porque há uma substituição de capital variável por capital constante, o que aumenta a capacidade produtiva em larga escala, o que aumenta a exploração individual do trabalhador. Esse aumento é condicionado pelo avanço da tecnologia, que modifica a estrutura produtiva e pelo crescimento da superpopulação relativa, que fortalece a concorrência entre os trabalhadores, subjugando a força de trabalho empregada “ao sobretrabalho e à submissão aos ditames do capital”. (MARX, 2017, p. 711).
Com isso, outro elemento – os salários – é impactado por essa estratégia do capital. Diz Marx, “não se determinam, portanto, pelo movimento do número absoluto da população trabalhadora, mas pela proporção variável em que a classe trabalhadora se divide em exército ativo e exército de reserva”. (MARX, 2017, p. 712-3). Quijano afirma que, para Marx,
[…] si bien la formación del ejército industrial de reserva es una tendencia constante del capitalismo, la situación de la mano de obra implicada es transitoria, pues su formación obedece a un momento cíclico de expulsión de obreros que luego serán absorbidos, parcial o totalmente, al expandirse la necesidad de fuerza de trabajo cuando se dilata el mercado de las viejas ramas de producción o cuando aparecen nuevas ramas. (QUIJANO, 2014, p. 156).
Como já exposto anteriormente, ocorre que a mão de obra, que não adentra nos setores mais avançados do processo produtivo, se torna um resíduo no sistema. Isso é consequência de dois fatores: o primeiro deles é que a produtividade do trabalho cresce independentemente da concorrência entre os trabalhadores. O segundo versa sobre o fato de que a expansão industrial depende mais das inovações tecnológicas do que da quantidade de mão de obra disponível no mercado (QUIJANO, 2014).
A mão de obra se encontra não mais na condição de transitória, não é mais uma reserva, mas sim excluída do processo produtivo de maneira permanente nos setores hegemônicos, principalmente o industrial-urbano (QUIJANO, 2014, p. 158). Portanto, se ela se torna excluída, não mais influencia na determinação dos níveis de salários desse setor, a que Quijano chama de “setores de ponta”. Há, portanto, uma diferenciação grande no nível de salário médio global da economia. Dado que nesses “setores de ponta”, a qualidade técnica exigida para o trabalhador é maior do que nos demais setores e a maior parte do conjunto de trabalhadores não consegue auferir o nível técnico para fazer concorrência com os trabalhadores já empregados, eles se tornam não mais necessários, inclusive, a própria concorrência. “Eso ayuda a explicar la apreciable distancia que hay entre el salario de los obreros de los niveles avanzados de la producción em América Latina, y el de los obreros de los niveles intermedios, para ya no hablar del nivel o polo marginal” (QUIJANO, 2014, p. 159).
Além disso, como não há concorrência, os trabalhadores desse nível de “ponta” não mais precisam se submeter a condições tão degradantes como no tempo em que Marx analisava o sistema. A própria posição desses trabalhadores em relação aos demais criou um ambiente onde as condições de trabalho são diferenciadas, corroborando para certa estabilidade dos trabalhadores alocados nesses setores. Cria-se, desta forma, um nível monopolístico de oferta de força de trabalho e uma conjuntura onde há maiores possibilidades de negociações entre trabalhadores e capitalistas, aumentando os salários dos setores modernos da economia. O resultado disso é a diminuição da participação da massa total de trabalho sobre o capital variável total; o que, no limite, contribui para o declínio da taxa média de lucro (QUIJANO, 2014, p.
160).
Existe, portanto, um novo lugar para esta massa de trabalho marginalizada pela baixa oferta de trabalho no setor hegemônico monopolístico da economia. Se neste setor ela assume o caráter “marginal”, no nível intermediário ela se torna o “exército industrial de reserva”, desempenhando a função de promover a concorrência entre os trabalhadores dos setores incluídos neste nível. Repete-se aqui, o mesmo processo de exclusão de trabalhadores, mas em
escala maior haja vista que este nível tem alta dependência dos ciclos econômicos pelos quais passa o nível monopolístico, formando o polo de força de trabalho marginalizada, excluída do processo produtivo como um todo. Essas relações acontecem em um mesmo período histórico, de forma estrutural, como já dito, pois combinam velhas e novas formas de produção e de exploração do trabalho, formas que já existiam antes do capitalismo e formas que existiam antes da era monopolística do capital. É neste contexto que a dependência econômica da América Latina se acentua com relação ao centro do sistema mundial. O “polo marginal” produtivo se combina com a “mão de obra marginalizada” como resultado do próprio movimento do capital que organiza os níveis da produção de maneira a excluir permanentemente trabalhadores do mercado de trabalho e empresas e firmas do processo produtivo. Quijano salienta que
[…] el proceso de ‘marginalización’ se ha convertido ya, en América Latina, en un elemento definitorio del carácter específico que asume este régimen de producción en una estructura dependiente. Y por añadidura, parece probable que esta tendencia no haya cobrado aun su más plena realización. (QUIJANO, 2014, p. 162).
É importante destacar alguns pontos que trazem consequências profundas na organização da economia e da sociedade latino-americana como um todo. Resumindo, Quijano aponta o que segue. Tem-se heterogeneidade dos níveis e modalidades globais da estrutura econômica latino-americana, que pressiona em direções distintas esses setores e modalidades, onde o crescimento de um resulta na depressão de outro perpetuando um tipo de desenvolvimento extremamente desigual e que só beneficia um setor da economia (QUIJANO, 2014, p. 163). Há também a emergência de um novo nível baixíssimo de produção representado pelo “polo marginal”, tornando a estrutura econômica ainda mais desigual, mais heterogenia e mais contraditória ao passo que se agudizam as contradições, já que combinadas e modificadas de maneira desigual e combinada, de acordo com o conceito indicado por Aníbal Quijano.
Torna-se evidente o processo de dependência da América Latina, já que a agudização e expansão do “polo marginal” se deriva da hegemonia monopolística da estrutura global da economia, ou dos níveis e modalidades controlados pelos interesses do capitalismo monopolista mundial, gerando diferenciação das classes trabalhadoras em subclasses, aumentando a concorrência no interior dessa classe nos níveis intermediários da economia (QUIJANO, 2014).
Socialmente tem-se o aprofundamento dos conflitos entre o proletariado urbano e a burguesia urbana; entre os trabalhadores do campo com suas diferenciações prévias e a burguesia rural, gerando políticas assistencialistas paternalistas de um lado e políticas repressivas do outro, evidenciando a pauperização de uma parte da população, o que deixa claro
a incapacidade do regime atual de produção em satisfazer as necessidades mínimas da maior parte da população (QUIJANO, 2014, p. 164)
Transferência de capital entre o nível mais baixo da produção ou polo marginal para o nível intermediário e deste ao nível monopolista da economia latino-americana e adiante aos centros metropolitanos de todo o sistema. Os três níveis estruturais ficam caracterizados como:
a) Monopolístico no dominante;
b) Competitivo no intermediário;
c) Marginal nos níveis mais baixos. (QUIJANO, 2014, p. 165).
O capital investido pelo setor monopolista é menor do que o capital que se transfere da América Latina ao centro do sistema, assim como uma parte dos recursos investidos no interior do sistema é capitado nesse mesmo interior.