3 A POÉTICA DA SUGESTÃO: o Simbolismo
4.5 A queda: o ideal perdido
4.5.2 O exílio nos versos de Camilo Pessanha
O tema exílio na obra de Camilo Pessanha tem sido, quase sempre, discutido a partir do próprio exílio do autor. No entanto, neste trabalho, procurar-se-á perceber o exílio como uma atitude lírica e não como atitude do próprio poeta. O exílio representará a queda ou a perda do ideal, como foi o satanismo na lírica de Maranhão Sobrinho.
A queda nos versos de Pessanha é revelada a partir da contemplação da vida presente, enquanto que o ideal fora constituído a partir do olhar voltado para o passado. Dentro de um Simbolismo mais humano, o eu-lírico se deslocará para o presente de restrições e de perdas, mas consciente de que é nesse lugar e nesse tempo que deve permanecer.
A temática do exílio, como queda e como perda de referência, não se materializa nos versos de Pessanha por meio de influência de outros textos simbolistas. A temática é particular e surge de uma atitude lírica extremamente melancólica.
Como em “Entre o céu e a terra”, de Maranhão Sobrinho, o poema “Quem poluiu, quem rasgou meus lençóis de linho”, de Pessanha, traz a transição do sonho pelo ideal para sua perda, numa atitude consciente e irreversível:
Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho, Onde esperei morrer, meus tão castos lençóis? Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho? Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!) A mesa de eu cear de tábua tosca de pinho? E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho? - Da minha vinha o vinho acidulado e fresco... Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova. Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova... Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve. Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais, Alma da minha mãe... Não andes mais à neve, De noite a mendigar às portas dos casais. (PESSANHA, 2009, p. 79)
O soneto apresenta dois planos semânticos opostos, mas complementares. As duas quadras representam a revolta do ser frente à possibilidade eminente da perda do seu ideal (o seu passado glorioso) e nos tercetos, tem-se a realização da queda, sendo aceita com resignação e ímpeto pelo ser.
A musicalidade dos versos alexandrinos (“Quem/ po/lu/iu/, quem/ ras/gou os/ meus/ len/çóis/ de/ li/nho,”) é garantida pela alternância entre frases interrogativas e frases afirmativas. As interrogações criam um clima de mistério que aos poucos irá sendo desvendado nas afirmativas. O esquema rítmico (abba/ caac/ dde/ fef) ajuda ainda a manter a separação de sentido entre as quadras e os tercetos.
A figura dominante nas quadras é o pronome interrogativo “quem”, pois é a partir dele que o percurso temático será construído. O sentimento exposto é o de perda do ideal, sendo contestado pelo eu-lírico que não aceita a destruição do seu ideal.
Nas quadras, o percurso figurativo é particularizado a partir das associações: “lençóis” – “de linho” e “castos”; “Jardim” – “dos altos girassóis”; “mesa” – “de eu cear de tábua tosca de pinho”; “vinho” – “da vida”, “acidulado” e “fresco”.
As associações remetem a uma apresentação íntima dos objetos, os quais servem de referência de sua história. Não é qualquer lençol, nem qualquer jardim, nem qualquer mesa ou vinho. Os objetos são constructos de sua vida ligada a um lugar e a um tempo.
Porém, todos esses objetos estão ligados a ações de ruptura e degradação, pois foram poluídos, rasgados, arrancados, lançados, quebrados, espalhados e entornados. Dessa forma, toda a intimidade é desfeita, é corrompida sem o consentimento do ser. A ruptura foi abrupta e o eu-lírico pergunta-se inconformado: quem retirou dele suas referências, quem desfez sua história, quem poluiu seus sonhos, quem apagou seu lugar, quem o lançou ao caminho, sem referências e sem raízes?
As quadras remetem à aniquilação de uma história presa num espaço e num tempo e, portanto, o fim do ideal. À medida que as perguntas vão sendo feitas, a tensão e a revolta do ser aumentam. Os versos vão transmitindo a sensação de uma progressiva queda que só persevera, já que o último verso da segunda quadra é encerrado com reticências, as quais sugerem que as perdas continuarão.
No entanto, o leitor é surpreendido por uma drástica mudança de atitude do eu-lírico. No lugar da revolta inicial, ele se mostrará passivo, tolerante e conformado com a situação.
A figura da “mãe” que também é uma representação de referência do seu passado será renegada e afastada. O eu-lírico dirige-se à alma de sua mãe, na tentativa de convencê-la a não se levantar mais da cova, que, na verdade, simboliza a última ruptura com seu passado. O sossego da mãe na cova lhe dará a certeza de um passado desfeito e a aceitação do presente.
[...] o risco da opressão pela estreiteza do meio e pelo sufocamento através de um prolongamento excessivo da função de alimentadora e guia: a genitora devorando o futuro genitor, a generosidade transformando-se em captadora e castradora. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2015, p. 580).
Por isso, o ser consciente de sua situação de ser exilado, perdido e desterrado deseja apagar a imagem materna com o intuito de resignar- se com sua queda. O eu-poético deseja, agora, estar preso no lugar de exílio, como forma de anulação dos desejos.
Não só a ruptura com o seu lugar, mas também a sua situação de exilado (lançado ao caminho) irá preencher o eu-lírico de uma saudade não mais nostálgica, mas sim uma saudade melancólica, posto que a melancolia tende a apagar o desejo pelo retorno e “o exílio é fundamentalmente um estado de ser descontínuo”. (SAID, 2003, p. 50).
Nos tercetos a melancolia irá se tornar substituta do luto. Como pontua Freud (2010), o luto, de modo, geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como um país, a liberdade ou o ideal. No entanto, algumas pessoas desenvolvem a melancolia no lugar do luto, assim, em vez de enlutar-se pela morte de sua mãe e pela morte simbólica de seu lugar, o eu-lírico padecerá de uma forte melancolia, que irá fazê-lo sufocar essas referências e anular a vontade do regresso.
A melancolia nos versos de Pessanha assemelha-se com o tédio nos versos de Baudelaire. A melancolia, assim como o tédio, faz o corpo e a mente fontes de desencanto perante o mistério da existência. Tanto um quanto o outro fazem o homem negar suas referências, vagando sem paragens, sem repouso no tempo e no espaço, como faz o eu-lírico em “Os mochos”: “O homem [...]/ Carrega sempre a punição/ De querer mudar de lugar”. (BAUDELAIRE, 2012, p. 87).
A alma melancólica do ser nega o retorno, efetivando o exílio como a perda necessária, mais ainda pela “percepção de referência que afeta por completo a perspectiva emocional e temporal, colocando no mesmo nível de incerteza tanto as fixações afetivas do passado, quanto as projeções idealizadas para o futuro” (FRANCHETTI, 2001, p. 18).
Desse modo, além de negar a possibilidade do regresso, a sensação melancólica dada no exílio paralisa o ser por completo. A sua perda de ideal (exílio) o faz perder não só suas referências de passado, mas as ambições de presente e futuro, como em “Depois das bodas de oiro”:
Depois das bodas de oiro, Da hora prometida, Não sei que mal agoiro Me anoiteceu a vida... Temo de regressar... E mata-me a saudade... – Mas de me recordar Não sei que dor me invade. Nem quero prosseguir, Trilhar novos caminhos, Meus pobres pés dorir, Já roxos dos espinhos. Nem ficar... e morrer... Perder-te, imagem vaga... Cessar... não mais te ver... Como uma luz se apaga...
(PESSANHA, 2009, p. 68, grifo nosso)
A queda (o exílio) é, de fato, a negação de qualquer ideal, esteja ele atrelado ao presente, ao passado ou ao futuro, visto que o exílio “é uma fratura incurável” (SAID, 2003, p. 46) na alma do ser. O ser exilado afirma, assim, uma oposição a tudo que o rodeia, tornando-se enfraquecido, ainda que consciente. A sensação de perda gera a falta de ânimo e de defesa, gerando um ser vulnerável.
Por outro lado, um dos últimos poemas de Clepsidra, “Enfim levantou o ferro”, o eu-lírico assume que “às vezes, o exílio é melhor do que ficar para trás ou não sair”. (SAID, 2003, p. 51). Como o eu-lírico de Sobrinho que se deixa permanecer no inferno, o eu-lírico de Pessanha vai desejar sempre a partida do seu lugar natal:
Enfim, levantou o ferro.
Com os lenços adeus, vai partir o navio. Longe das pedras más do meu desterro, Ondas do azul oceano, submergi-o. Que eu, desde a partida,
Não sei onde vou. Roteiro da vida, Quem é que o traçou? Nalguma rocha ignota
Se vai despedaçar, com violento fragor... Mareante, deixa as cartas da derrota. Maquinista, dá mais força no vapor. Nem sei de onde venho,
Que azar me fadou? Das mágoas que tenho, Os ais porque os dou... Ou siga, maldito,
Co’a bandeira amarela...
Pomares, chalets, mercados, cidades... A olhar da amurada,
Que triste que estou! Miragens do nada, Dizei-me quem sou...
(PESSANHA, 2009, p. 112-113, grifo nosso)
A irregularidade na métrica, com alternância entre versos curtos e longos dá um efeito de idas e vindas, ou de um navio no mar que ora atravessa ondas curtas, ora atravessa ondas mais compridas. Esse movimento de extensão e encurtamento simboliza o mesmo movimento na mente do eu-lírico sobre sua situação de exilado.
“Enfim levantou o ferro” e já “vai partir o navio”. Esses versos da primeira estrofe, combinados com o último verso da terceira estrofe, “Maquinista, dá mais força ao vapor”, expressarão, de forma direta, o desejo de partir, ainda que desconheça o seu destino. Longe da atitude inconformada de ter sido lançado ao caminho em “Quem poluiu, quem rasgou meus lençóis de linho”, agora o ser pergunta conformado “Roteiro da vida, / Quem é que o traçou? ”.
O “Quem” aqui não será mais responsável pelo tormento do ser, mas sim por lançá-lo ao desconhecido. Não sabe para onde vai, mas também pouco importa o lugar de sua origem. “Nem sei de onde venho”, pois, as referências estão findas.
O ser exilado é o ser amaldiçoado (“siga, maldito”), como são os poetas malditos no inferno a contemplar satã, na lírica de Maranhão Sobrinho. A estrofe composta apenas de reticências simboliza a falta de importância do ambiente ou também pode simbolizar o contínuo movimento do ser vindo de um lugar qualquer em direção a um exílio desconhecido.
Já sem referências, ao ser não resta mais nada. A atitude niilista diante do desconhecido é também uma forma de não lembrar o que deixou. Sem presente, sem passado e sem futuro, vivendo numa profunda incerteza, o ser, ao cair, não perde só a possibilidade de atingir um ideal, mas perde sua história e, consequentemente, sua identidade.