3 OS CURSOS DE LETRAS NOS RESULTADOS DO ENADE: UM RETRATO SEM RETOQUES DE SEU DESEMPENHO
3.2 O EXAME NACIONAL DE DESEMPENHO DOS ESTUDANTES (ENADE)
3.2.1 O EXAME NACIONAL DE DESEMPENHO DOS ESTUDANTES (ENADE) PARA OS CURSOS DE LETRAS NO BRASIL
3.2.1.4 EXAME ENADE: POSICIONAMENTOS CONTRA E A FAVOR
Com a expansão do ensino superior no Brasil, crescimento em número de IES, cursos e matrículas, houve a necessidade de se criar um meio de medir a qualidade dos cursos superiores. A Lei 9.131 de 1995 aprovou o Exame Nacional de Cursos (ENC) aos graduandos, que ficou popularmente conhecido como Provão. A adoção desse exame anual, único e comum a todos os cursos superiores do país foi bastante criticada e o modelo considerado limitado quanto aos dados para comparação entre as áreas e as aplicações, inadequado para tomada de decisões do governo e das instituições e de alto custo (VERHINE et al, 2006, p.291-310). Para corrigir suas limitações, o MEC buscou uma alternativa para a substituição e, em 2004, pela Lei 10.861, a aplicação do ENADE tornou-se obrigatória para ingressantes e concluintes até 2008 e só para concluintes a partir de 2009.
Entende-se que a rápida expansão ocorrida com o ensino superior, em número de instituições de ensino, cursos e oferta de vagas, tornou urgente a criação de um sistema de avaliação e monitoração, entretanto existe uma crítica forte ao ENADE como indicador de qualidade, porque os índices de desempenho não mensuram os resultados do aprendizado durante a graduação, visto que os estudantes, apesar de serem obrigados a responder às questões e questionários das provas, não têm o compromisso de tirar boas notas. Há, também, aqueles que defendem o exame como impulsionador de melhorias para os currículos dos cursos
de graduação, assim que sua relevância for compreendida pelos alunos e IES. “A avaliação da educação superior é complexa e envolve outros aspectos [...], as chamadas avaliações in loco, realizadas por comissões de especialistas nas instituições para verificar as condições de oferta”, porém, a despeito das críticas aos indicadores de qualidade, Avancini (2017) continua sua reflexão, “a existência do Sinaes é apontada como um fator que gerou impacto na gestão das instituições de ensino superior, que se vêem frente à necessidade de aprimorar a qualidade da oferta dos cursos” (AVANCINI, 2017, on-line).
Em 2008, Márcia Regina Ferreira de Brito, professora e colaboradora do Departamento de Psicologia da UNICAMP (1974-2018), consultora do INEP (2004- 2008) e membro da Comissão de Formação Geral do ENADE (2005-2013), declarou que diretrizes do ENADE vinham sendo discutidas desde a implantação do SINAES em 2004 e muitos avanços ocorreram, contudo o problema esteve em mudanças na concepção, exigências e critérios para o alcance das metas de qualidade pelas IES a cada ano e “um apego excessivo a índices”, que “prejudicam a evolução e consolidação de um sistema” (BRITO, M. R. F., 2008, p.841-850): no ENADE 2004, questões de conhecimentos específicos a cada formação foram inseridas nas provas e houve ranqueamento, assim como no de 2005 e de 2006, quando também surgiu o Indicador de Diferença de Desempenho (IDD); em 2007, quando seria possível fazer a primeira comparação de desempenho entre os alunos que prestaram em 2004 quando eram ingressantes e agora concluintes, surgiram dois novos indicadores, o Conceito Prévio e o Índice Geral de Cursos (IGC). Complementou que “existe uma forte tendência dos formuladores de políticas públicas de estabelecer indicadores e rankings”, mas o problema está em como são utilizados, já que só há como comparar as provas dos diferentes cursos quando realizadas em um mesmo ano e somente nas questões do Componente de Formação Geral, comuns a todos eles. Segundo a professora, pela primeira vez, em 2008, o próprio MEC divulgou um
ranking:
Se o objetivo fundamental do ENADE vai ser produzir um ranqueamento, os ingressantes devem ser excluídos do exame porque apenas “prejudicam” os resultados das IES. O objetivo central do exame foi perdido porque ele foi feito para aferir o progresso do estudante e o questionário de avaliação discente pode ser resumido a duas questões. O ENADE evoluiu ou regrediu? Do meu ponto de vista, regrediu. Na proposta original do exame, o interesse seria no conjunto de elementos que compõem o SINAES. Várias
transformações foram sendo impostas na análise do exame. Todos os indicadores são válidos, mas é o conjunto deles, como bem expresso no SINAES, que pode, ainda que de forma incompleta, mostrar uma IES e como ela contribui para com a sociedade (BRITO, M. R. F., 2008, p.841- 850).
Na opinião de Brito (2008), o professor, em sua visão, examina os resultados dessas avaliações e busca entender o processo de aprendizagem, enquanto que o elaborador de políticas públicas dá prioridade ao ranqueamento e, muitas vezes, se utiliza dos indicadores para alocação de recursos e promoção da instituição.
Quando criado com o intuito de avaliar a trajetória dos estudantes ao ingressar e ao concluir a graduação, o ENADE concebia uma mudança na forma de avaliar, pois partia do princípio que “os sujeitos aprendem durante o intervalo entre as testagens e com as provas [...] na noção de que as habilidades cognitivas são modificáveis” (BRITO, M. R. F., 2008, p.841-850). Buscava também aferir o potencial do ingressante e, do concluinte, as habilidades acadêmicas (domínio de conhecimento da área de estudo e capacidade de realizar tarefas relativas a ela) e a competência profissional (capacidade de colocar tais conhecimentos em prática em diferentes contextos e promover qualidade de vida para a sociedade).
Considero que a avaliação do progresso acadêmico dos estudantes é importante e deve constituir parte das políticas públicas, porém precisam ser estabelecidos o limite e o real alcance desse tipo de avaliação, pois eles diferem de maneira crucial na própria concepção, no tipo de exame, no alcance, na forma de administração e utilização dos resultados da prova (por exemplo, se será usada ou não como nota para o estudante) etc (BRITO, M. R. F., 2008, p.841-850).
Wanderley Messias da Costa, coordenador da Comunicação Social da Universidade de São Paulo (2005-2009) e a favor da não participação da USP no ENADE, em 2009, declarou que fica difícil determinar o que é desconhecimento do assunto e o que faz parte de boicote dos alunos em não responder as questões, já que o baixo desempenho no referido exame não reprova:
O Enade, por sua vez, surgiu como uma forma de avaliar novos cursos que surgiram com a expansão das instituições. Porém acredito que esse objetivo não foi atingido. Isso fica claro ao se observar que cursos considerados ruins por ele, não foram fechados. [...] Quando se julga as
propriedades de uma instituição, o Enade leva em conta majoritariamente infraestrutura e recursos pedagógicos. Dessa forma, outros dados importantes não são devidamente representados pelos indicadores.[...] As queixas dos estudantes sobre os próprios cursos, sobre os currículos, sobre os tipos de aulas – algumas vezes entediantes – e até sobre a lotação das salas não são consideradas em uma avaliação desse tipo. Assim, esse mecanismo não é eficiente para avaliar a graduação da USP, uma vez que, não há plena segurança em seus resultados (REDAÇÃO JC, 2009, on-line).
Sonia Teresinha de Sousa Penin, diretora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP/2006-2010)) e membro do CONAES (1995- 2007 e 2016-2018), acredita que os resultados dos exames ENADE podem auxiliar a identificar as carências e dificuldades e propor melhorias na qualidade do ensino:
No caso da educação superior, as avaliações podem identificar caminhos de expansão da democratização do acesso e da melhoria da qualificação dos estudantes, assim como promover políticas públicas de revalorização da educação superior, como parte de um projeto de desenvolvimento da nação brasileira (REDAÇÃO JC, 2009, on-line).
Segundo o MEC/INEP, o conceito 3 para os cursos configura a média nacional, o que não significa que os cursos com conceitos 1 e 2 sejam ruins, apenas que seus alunos obtiveram médias mais baixas que os de outros cursos da mesma especialidade. "Teoricamente o que se pode dizer, por exemplo, é que um curso 3 agrega mais valor do que um curso 2", ou seja, os conceitos são relativos e “não se pode concluir automaticamente que um curso é bom ou ruim, mas sim que ele foi melhor ou pior que um curso igual oferecido por outra instituição” (MORENO, 2013, on-line).
Paula Baptista Jorge Louzano, pedagoga e professora da Faculdade de Educação da USP (FE-USP/2012-2013), considera que este fato não desmerece o ENADE, mas ressalta que o MEC deveria divulgar que o conceito não revela “um padrão ou critério de qualidade”. Acredita que, "Para decidir se um curso é excelente, por exemplo, primeiro você tem que definir o que é excelente, e então fazer uma nota de corte nesse critério", mas o exame não possui tal nota de corte e sempre haverá cursos com conceitos de 1 a 5. Para ela, a não divulgação da nota média dos cursos, torna-se empecilho em se avaliar se aquele que alcançou o conceito 3 ou 5 não precisa ser revisto e alterado (MORENO, 2013, on-line).
O professor Luiz Henrique Amaral, reitor da Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL/2017-atual) e da Universidade Cidade de São Paulo (UNICID/2012-atual) e pró-reitor de graduação da Universidade Cruzeiro do Sul (2009-2014 e 2003-2009), especialista em avaliação do ensino superior e avaliador do MEC, declarou que o ENADE precisa ser sempre divulgado junto a outros indicadores, como o Indicador de Diferença de Desempenho (IDD) e o Conceito Preliminar de Curso (CPC). Afirmou que "O Enade não mede as fragilidades e as diferenças que os alunos carregam na própria formação. A diferença de desempenho que se expressa nos cursos não pode ser explicada só pelo Enade, elas carregam diferenças pré-existentes na formação", motivo pelo qual a nota no ENEM e o perfil sócio-econômico são considerados quando o aluno é ingressante e, somados à nota do concluinte no ENADE, podem ajudar na avaliação do que lhe foi agregado pelo curso de graduação (MORENO, 2013, on-line).
Em 2013, o professor Adauto Marin Molck da PUC-Campinas (2003-atual), fez um estudo sobre a repercussão do ENADE no aprimoramento das IES e efetividade da avaliação dos graduandos. Considera o sistema, apesar das falhas, eficiente na avaliação das universidades e destaca a importância dos questionários respondidos pelos estudantes, “a ideia do exame é avaliar a entidade educacional, não só por aquilo que ela declara em seus relatórios, mas também pelo aluno que forma, através do questionário específico que ele responde sobre a instituição onde estuda” (DIGITAIS, PUC CAMPINAS, 2018, on-line), mas considera que o exame ainda apresenta problemas decorrentes das alterações que vem sofrendo desde o início de sua aplicação:
O exame também já foi mais eficiente [...] pois eram realizadas duas provas: o aluno ingressante prestava uma prova e, ao final do curso, prestava outra. Ou seja, dava para avaliar o progresso do estudante. Ou seja, saber como ele entrou e como ele saiu do curso (MORAES, 2018, on- line).
A professora Tatiana Dantas de Oliveira, diretora do curso de Artes Visuais da PUC-Campinas (2011-atual), também coloca em cheque a eficiência desse exame, visto que, devido à necessidade de preparar os alunos para conseguirem um bom desempenho, precisam ampliar a carga teórica, que julgam desnecessária para a
formação dos mesmos, em um curso de natureza mais focada na prática do que na teoria (MORAES, 2018, on-line).
O INEP já estuda mudanças nos indicadores dessa avaliação, porque o modelo atual, baseado em conceitos 1 a 5 que não refletem os padrões de qualidade e não sinalizam a realidade dos cursos, também dificulta a comparação com as provas dos anos anteriores em função das mudanças dos níveis de exigência que vêm ocorrendo. Rui Barbosa de Brito Junior, diretor de avaliação da Educação Superior do INEP (2016-2017), confirmou a possibilidade de alterar os métodos de conceituação: "Para [o Enade] 2017, não será possível mudar essa metodologia. Mas ao longo desse ano estamos estudando formas de tornar o Enade comparável. Para 2018, podemos ter um Enade diferente" (FOLHAPRESS, 2017, on-line). Outra alteração que está prevista de acontecer desde 2016, é a inclusão da nota obtida pelo aluno em seu histórico escolar, o que faria com que o exame passasse a ser visto com mais seriedade pelos graduandos e minimizaria as possibilidades de boicote por parte deles ou das próprias IES que não queiram ser avaliadas. O consultor em Educação Fernando Kutova, em 2015, fez uma declaração quanto à importância de se incluir a nota do exame no histórico escolar para se evitar o boicote:
Da forma como está hoje, os estudantes não se sentem estimulados e entram em sala apenas por ser pré-requisito para retirar o diploma. Em seguida, zeram a prova. Às vezes, a própria instituição percebe que não tem condições de ser classificada e estimula o boicote dos alunos ao exame para escapar da avaliação (KIEFER, 2015, on-line).
Há, ainda, muitas opiniões divergentes sobre a efetividade em se avaliar desempenho do aluno universitário graduando, conceituar os cursos superiores e qualificar as IES pelos exames ENADE. O que não há dúvida é que a formação do estudante universitário não pode se limitar aos conhecimentos técnicos de sua futura profissão. A professora Márcia Regina de Brito da UNICAMP, em 2008, já havia tecido comentários, a respeito, em seu artigo Sinaes e o Enade: da concepção à
Os documentos oficiais que tratam do ENADE indicam que, na passagem pela IES, além de dominar os conhecimentos e desenvolver as habilidades e competências necessárias para o perfil da profissão escolhida, espera-se que os graduandos evidenciem a compreensão de temas que transcendam ao seu ambiente próprio de formação e sejam importantes para a realidade contemporânea. Essa compreensão vincula-se a perspectivas críticas, integradoras e à construção de sínteses contextualizadas. Esse componente da prova não trata de conhecimentos gerais, mas, sim, da formação do estudante que ultrapassa os conteúdos tratados em disciplinas. São temas próprios da formação de cidadãos conscientes, engajados e aptos a atuar com ética e consciência social em um mundo com diferentes exigências (BRITO, M. R. F., 2008, p.841-850).
4 EDUCAÇÃO E OS DESAFIOS DA FORMAÇÃO TÉCNICA E HUMANA NA