primeiro lugar, que no
homem
não há estação de cio, o que significa que ohomem
é capaz de ter relações sexuaisem
qualquer época e a mulher está pronta a responder a ele, condição que,como
todos sabemos, não simplifica o convíviohumano. Nada há
nohomem
que atuecom
amesma
incisiva determinação que tem o inícioda
ovulaçãoem
qualquerfêmea
de mamíferos.Significa isso portanto que
não
existe coisaalguma
que se aproximado
acasalamento indiscriminadoem alguma
sociedadehumana? Sabemos
quemesmo
nas culturas mais licenciosasnão
existenada
que se assemelhe à“promiscuidade”,
nem
poderia jamais ter existido.Em
toda cultura
humana
encontramos,em
primeiro lugar, sistemas de tabusbem
definidos, quesaparam
rigida-menteum
certonúmero
de pessoas de sexos opostos e excluem categorias inteiras de parceiros potenciais.O
mais
importante destes tabus exclui completamente do acasalamento aquelas pessoas que estão normal e na-turalmenteem
contato, isto é, osmembros da mesma
família, os pais dos filhos, os irmãos das irmãs.
Como uma
extensão deste fato, verificamosem um
certonú-mero
de sociedades primitivasuma
proibição maisampla
das relações sexuais, que excluem grupos inteiros de pessoas de quaisquer relações sexuais. Esta é a lei da exogamia.Logo
após o tabudo
incesto, osegundo em
importância é a proibição
do
adultério.Enquanto
o pri-meiro serve para defender a família osegundo
serve para a proteçãodo
casamento.Mas
a cultura não exerceuma
influênciameramente
negativa sobre o impulso sexual.Em
todas as comuni-dades encontramostambém
incentivos à corte e ao in-teresse amoroso, ao lado de proibições e exclusões.As
várias épocas festivas, ocasiões de danças e exibições pessoais, períodos nos quais o alimento é prodigamente
consumido
e usados estimulantes, sãoem
regratambém
sinais para atividades eróticas. Nessas ocasiões grande
número
dehomens
e mulheres sereúnem
e os rapazes jovens entramem
contatocom
asmoças
de fora do círculoda
família edo grupo
local.Com
freqüênciaal-gumas
das restrições habituais são suspensas, sendo per-mitido aos rapazes emoças
encontrarem-sesem
obstá-culosnem
controles. Realmente, estas ocasiõesencora-jam
naturalmente a corte por meio de estimulantes, ati-vidades artísticas euma
disposição deânimo
festiva.*Assim, o sinal para o início da corte, a libertação do processo de acasalamento é
dado
não poruma mera
modificação corporalmas
poruma combinação
de in-fluências culturais.Em
última instância estas influências evidentementeatuam
sobre o corpohumano
e estimulam reações inatas pelo fato de fornecerem a proximidadefísica, a atmosfera mental e as sugestões adequadas. Se o organismo não estivesse pronto a responder
sexual-48 Havelock Ellis apresentou uma grande abundância de dados sobre o acasalamento estacionai no animal e no homem, no ensaio sobre Sexuat Periodicity, volume I (ed. 1910), veja-se especialmente pp. 122ss. Con~
sulte-se também a History of Human Marriage, de Westermarck, vol. I, capitulo II.
mente
nenhuma
influência cultural poderia fazer ohomem
copular.
Mas, em
vez deum mecanismo
fisiológico au-tomático, temosum
complicado arranjo no qualforam em
grande parte introduzidos elementos artificiais. De-ve-se observar por conseguinte dois pontos: não háno homem um mecanismo
de desencadeamento puramente biológico,mas em
vez disso háum
processo conjunto psicológico e fisiológico, determinadoem
sua natureza temporal, espacial e formal pela tradição cultural; asso-ciado a este fato, e completando-o, háum
sistema de tabus culturais que limitam consideravelmente a ação do impulso sexual.Examinemos
agora qual é o valor biológico do cio parauma
espécie animal e quais são as conseqüências para ohomem
da ausênciado
cio.Em
todas as espécies animais o acasalamento tem de ser seletivo, isto é, deve haver oportunidade paracomparação
e escolhanum
e noutro sexo.Tanto
omacho
quanto afêmea devem
teruma
possibilidade de exibir seus encantos, de exercer atra-ções, de competirem pelo parceiro escolhido.
A
escolha é determinada pela cor, voz, vigor físico, astúcia e agi-lidade no combate, sintomas de força corporal e perfei-ção orgânica.O
acasalamento por escolhatambém
éum complemento
indispensávelda
seleção natural, poissem
haveralgum
dispositivo para o acasalamento seletivo a espécie degeneraria. Esta necessidade cresce àmedida
que subimos na escala da evolução orgânica.Nos
mais inferiores animais não hánem mesmo
necessidade de acasalamento. E’ claro por conseguinte que no maisele-vado dos animais, o
homem,
a necessidadeda
cópula seletiva nãopode
ter desaparecido.De
fato, a suposição oposta, que é mais convincente, tem maiores probabili-dades de ser verdadeira.O
cio, porém, não somente fornece ao animal as opor-tunidades de seleçãomas também
circunscreve e delimita demodo
definido o interesse sexual. Fora da estaçãodo
cio o interesse sexual acha-se
em
estado latente e a competição e a luta, assimcomo
a onipotente absorção pelo sexo, estão eliminadas da vidacomum
deuma
es-pécie animal. Considerando-se os grandes perigos prove-nientes dos inimigos externos e as torças de ruptura interiores, que estão ligadas à corte, a eliminação do interesse sexual nas épocas normais e sua concentração
em um
curto período definido tem grande importância para a sobrevivência da espécie animal.À
luz de tudo quantoacabamos
de dizer, que signi-fica realmente a ausência do cio nohomem? O
impulsosexual não está confinado a
uma
certa estação,não
é condicionado poralgum
processo corporal, e, no que diz respeito às meras forças fisiológicas, está pronto para exercer efeitosem
qualquermomento da
vidado homem
e
da
mulher. Está disposto para perturbar todos os ou-tros interessesem
qualquermomento,
e deixado a simesmo
tende constantemente a atuar e afrouxar todos os laços existentes. Este impulso, absorvente e invasorcomo
é, interferiria assim
em
todas as ocupações normais dohomem,
destruiria qualquerforma
nascente de associação, criaria interiormente o caos e atrairia perigos de fora.Como
sabemos, istonão
é pura fantasia, pois o impulso sexual tem sido a fonte de muitas perturbações, deAdão
e
Eva em
diante. E’ a causa da maior parte das tragédias, quer o encontremos na realidade atual, na história pas-sada, no mito ou na produção literária.No
entanto, o próprio fatodo
conflito mostra que existem forças que controlam o impulso sexual, prova que ohomem
não se rende a seus insaciáveis apetites, que cria barreiras eimpõe tabus que se tornam tão poderosos quanto as próprias forças do destino.
E’ importante observar que estas barreiras e
mecanis-mos
reguladores do sexo no estado de cultura são dife-rentes da vigilância animal no estado de natureza.No
animal, os dotes instintivos e as modificações fisiológicas lançam o
macho
e afêmea em uma
situação da qual têm de se livrar pelo simples jogo dos impulsos naturais.No
homem
aparece o controle,como
sabemos, realizado pela cultura e pela tradição.Em
cada sociedade encontramos regras que tornam impossível aoshomens
e mulheres entre-garem-se livremente ao impulso. Veremos, dentroem
pou-co,
como surgem
estes tabus e por meio de que forças atuam.No momento
basta compreender claramente queum
tabu social não tem no instinto a origem de sua força,mas
ao contrário tem sempre de agir contraalgum
im-pulso inato.Vemos
neste pontocom
toda clareza a di-ferença entre os dons naturaishumanos
e o instinto ani-mal.Embora
ohomem
esteja pronto a responder sexual-mente a qualquermomento,
submete-setambém
auma
restrição artificialmente imposta a est.i reação. Ainda mais,
embora
não hajanenhum
processo corporal natural que desencadeie claramente o interesse sexual ativo entre omacho
e a fêmea,um
certonúmero
de incentivos à corte,guiam
e despertam o impulso.Podemos
agora formular demodo
mais preciso aqi.iloque entendemos por plasticidade dos instintos.
Os modos
de
comportamento
ligados ao interesse sexual são deter-minados nohomem
somente no que diz respeito a suas finalidades; ohomem
deve copular seletivamente, nãopo-dendo
fazê-lo promiscuamente. Por outro lado, a liberação do impulso, o incentivo à corte, os motivos parauma
de-terminada seleção são ditados por dispositivos culturais.Estes têm de seguir certas linhas paralelas às linhas dos dons naturais no animal.
Tem
de haver o elemento de se-leção, vigilância na exclusividade, e acima de tudotem
de haver tabu que impeça o sexo de interferir constante-mente na vidacomum.
A
plasticidade dos instintos nohomem
é definida pela ausência de modificações fisiológicas,do
desencadea-mento automático deuma
causa de galanteio biologica-mente determinada. Essa plasticidade está associadacom
a efetiva determinação do
comportamento
sexual por ele-mentos culturais.O homem
é dotado de tendências se-xuais,mas
estas têm de sermoldadas
além disso por sistemas de regras culturais, que variam deuma
sociedade para outra.Veremos com
maior precisão no curso de nossa atual pesquisa até que ponto estasnormas podem
diferir