De acordo com Martins (2003), a exclusão deixou de ser um conceito referente às contradições, à falta de algo, à pobreza, para se tornar uma inclusão marginal, na medida em que a sociedade capitalista desenraiza, exclui, para incluir de outro modo, segundo suas próprias regras, segundo sua própria lógica. O problema está justamente nessa inclusão (p.32).
Não há exclusão, há vitimas de processos sociais, políticos e econômicos excludentes (Martins, 2003, p.14).
A valorização do capitalismo, a coisificação do ser humano empurra as pessoas para fora da sociedade, como se não houvesse volta da situação. Comenta Martins (2003):
A exclusão deve ser concebida como expressão de contradição no desenvolto da sociedade capitalista para ser vista como um estado, uma coisa fixa [...] como se fosse o resultado único da dinâmica da sociedade atual [...]; a exclusão é apenas um momento da percepção que cada um e todos podem ter daquilo que concretamente se traduz em privação [...] é em termos concretos o que vulgarmente chamamos de pobreza [...] mudando o nome de pobreza para exclusão, podemos estar escamoteando o fato de que a pobreza hoje mudou de forma, de âmbito e de conseqüências;
A privação hoje é mais do que privação econômica, há certa dimensão moral.
A exclusão não se aplica apenas ao fenômeno em si, mas também pela interpretação que dele faz a vítima. [...] discutimos a exclusão e por isso, deixamos de discutir as formas pobres, insuficientes e, às vezes, até indecentes de inclusão (p.17, 18,21).
36 Uma nova desigualdade, aquela que separa materialmente, mas que unifica ideologicamente, ou seja, que permite às pessoas reconhecerem-se numa mesma realidade cria uma sociedade dupla, dois mundos que se excluem; nos dois mundos encontramos a mesma competição, as mesmas idéias e objetivos individualistas, mas as oportunidades são diferentes, desiguais, excluindo os que não se enquadram. Estes são privados do respeito, da dignidade e do sentimento de pertencimento a um grupo, a um ideal.
A nova desigualdade cria novas categorias sociais, que degradam o ser humano; [...] recobrem e anulam o potencial de transformação das classes sociais e tendem para o conformismo [...] (Martins, 2003, p.22). Com nova mentalidade, o homem colonizado, já não luta por sua igualdade e autenticidade, fica feliz em imitar os ricos e poderosos e pensa que nisso está a igualdade, tornando-se agente da nova sociedade da imitação.
Esse agente de recolonização da sociedade tem sua principal característica na perda da capacidade de criar, de cultivar a inteligência crítica, de revolucionar as relações sociais; privilegiando a dignidade do homem como referência fundamental da vida (Martins, 2003, p.23).
Como se estivesse alienado, perdeu a dimensão da humanidade e acaba por se tornar excluído.
Para Martins (2003), a exclusão não passa de uma inclusão precária, onde se justificam as desigualdades sociais, um momento transitório, onde se é excluído de um determinado grupo ou situação para depois de algum tempo ser recolocado em outro grupo ou situação, de acordo com as propostas socioeconômicas neoliberais, como, a pobreza.
É tal a generalidade do emprego da concepção de exclusão que, no fim das contas, ela acaba sendo aplicada a todo e qualquer âmbito da vida e a todo e qualquer tipo
37 de problema social. Perde-se de vista, assim, a especificidade de cada problema e perde-se também de vista o modo de enfrentá-lo e de resolvê-lo ( Martins, 2003, p.25).
O autor ressalta que a palavra exclusão mascara a precariedade da sociedade e sua falha em suprir os menos favorecidos, excluindo para incluir, segundo suas próprias regras. O capitalismo inclui economicamente, mas exclui moralmente, como no caso da prostituição.
A questão da inclusão / exclusão não passa de “fetichização” de uma realidade. O que antes se tratava como pobreza passou a ser tratado como marginalização e, agora, exclusão. A transição entre a exclusão (de um emprego ou posição social) agora é mais longa do que antes, as pessoas demoram a ser re-incluídas pelo capitalismo (Martins, 2003).
O neoliberalismo aproveita-se da desigualdade social. Aqueles que não conseguem manter certo padrão de vida, emprego, nível intelectual, perdem seu lugar na sociedade elitista, são excluídos. É um período de transição para a inclusão marginal, onde passam a ocupar lugares de exploração, subemprego, desrespeito à dignidade humana, à margem da sociedade, mesmo fazendo parte dela, mas num contexto indigno.
Os excluídos, todos aqueles que são rejeitados e levados para fora de nossos espaços, do mercado de trabalho, dos nossos valores, vítimas de representação estigmatizante (Carvalho, 2004, p.48), enfrentam não só exclusão social, mas também hostilidade nas relações interpessoais, resultando no sentimento de abandono e crise identitária.
A educação inclusiva é um âmbito menor que pertence ao social. Não há escola inclusiva em sua totalidade, assim como não há sociedade inclusiva. Há experiências de inclusão, espaços inclusivos e períodos de transição. O aluno (especial ou com dificuldades de aprendizagem) está excluído do espaço escolar, mas incluído em outros espaços (casa, sociedade, entre outros). No entanto isso não basta,
38 o ambiente escolar deve ser verdadeiramente acolhedor, onde o respeito à dignidade do ser humano seja não apenas discutido, mas exercitado no dia-a-dia, por toda a comunidade escolar (Machado & Chamlian, 2007, p.124).
Alguns alunos freqüentam as aulas, mas não pertencem ao grupo, permanecem [...] operacionalmente na marginalidade, excluídos e na inclusão marginal [...] (Carvalho, 2004, p.55).
A própria escola pode induzir o aluno a uma situação de fracasso e criar uma pedagogia da exclusão. No processo ensino-aprendizagem é corriqueiro perder-se a visão do todo, aluno e professor estabelecem inter-relações e um acaba por ocupar o papel do outro, as inter-relações são esquecidas e o processo se torna estático e estéril, sem significado tanto para o aluno, que não estabelece ligação do que aprende com o que vive, quanto para o professor que trabalha em meio à diversidade.
O aluno ‘aprisionado’ em dificuldades que a escola ainda não sabe bem como resolver, passa a ser considerado deficiente (Carvalho, 2004, p.58), o que o leva a criar uma imagem negativa e desvalorizada de si mesmo, resultando em sofrimento, desinteresse, indisciplina e agressividade.
Para promover a inclusão nas escolas é preciso enfrentar os mecanismos excludentes, transformar a cultura escolar da exclusão e do fracasso e ter o apoio e intervenção das políticas públicas, de acordo com a realidade da sociedade e da comunidade escolar.
Para enfrentar os mecanismos excludentes, precisamos intervir no sistema educacional, ampliando, diversificando suas ofertas, aprimorando sua cultura e prática pedagógica e, principalmente, articulando-o com todas as políticas públicas (Carvalho, 2004, p.62).
A exclusão social acompanha a humanidade desde os primórdios. Hoje a sociedade ocidental busca reverter esse quadro por meio de ideais democráticos,
39 valorização dos direitos humanos, a re-significação da educação e da escola, discussões sobre exclusão e marginalização.