3. O PAPEL DO DIREITO NA SOBERANIA POPULAR E OS DESAFIOS
3.2. PERSPECTIVAS PARA A RADICALIZAÇÃO DA DEMOCRACIA E O
3.2.2. Exclusão participativa pela razão técnica
institucionalização de processos de formação discursiva da vontade individual e coletiva, capazes de garantir negociações e decisões orientadas pelo consenso.256
do âmbito das decisões, sob o pretexto de que ele não entenderia as questões a serem tratadas. Isso diminui o espaço para a ação cidadã e para a democracia.259
A razão técnica tornou-se destrutiva para democracia, porque possibilitou o surgimento da burocracia e da cientificação da política. A política afastada da compreensão popular restringe seus limites à solução de questões técnicas, sem controle ético por parte da sociedade. Logo, o poder popular é enfraquecido, para tomar decisões meramente plebiscitárias em torno de questões relevantes.260
A legitimidade dessas decisões depende da comunicação entre o povo e o grupo técnico que toma as decisões sobre a vida popular. Isso porque o sentido do princípio da soberania popular consiste na decisão popular sobre si.
É necessário adotar condições democráticas para essas deliberações, tais como processos de tradução e de ampliação da acessibilidade da linguagem técnica, tanto para os mandatários do povo quanto para a população em si. Pois, o afastamento linguístico entre o corpo técnico e o povo leigo é uma forma de exclusão deste no processo democrático.
A necessidade da inclusão discursiva é observada por Rafael Lazzarotto Simioni:
Um discurso elitista, secreto, corporativista etc., no qual as decisões tomadas não foram discutidas com todos os implicados, reclamará uma legitimidade que não poderá ser alcançada. A legitimidade das deliberações tomadas discursivamente está na participação de todos os envolvidos.
Somente nessas condições de inclusão discursiva de todos os implicados é que os destinatários das decisões poderão ser ao mesmo tempo, os seus autores. Esta é a condição de legitimidade das deliberações, que, no entanto estão sempre sujeitas ao problema da acessibilidade discursiva em situações de urgência, de incapacidade, de desmotivação e de exclusão social.261
Os procedimentos democráticos do Estado Democrático de Direito têm o sentido de institucionalizar as formas de comunicação necessárias para a formação
259 FAZUOLI, Fábio Rodrigues, op. cit.; p. 66.
260 Tal como se faz hoje no Brasil, “quando se estabelece as discussões sobre a independência do Banco Central e das agências reguladoras, a legalização da biossegurança que trata, entre outras matérias, do emprego medicinal de células-tronco de embriões humanos e do plantio de soja com sementes transgênicas.” (SOUZA CRUZ, Álvaro Ricardo, op. cit.; p. 67).
261 SIMIONI, Rafael Lazzaratto, op. cit.; p. 227.
racional de vontade. Ao povo, destinatário das deliberações, não cabe ficar ausente no processo decisório. Quando não há inclusão popular nos processos discursivos, estes não produzem decisões legítimas tampouco justas, já que se configura aquela situação combatida por Habermas, na qual um indivíduo decide sobre a vida de outrem.
O Brasil possui exemplos que ilustram a possibilidade de institucionalização de procedimentos de participação popular em decisões, sejam elas predominantemente técnicas ou predominantemente políticas.
A possibilidade de integração social com as deliberações científicas, mediante debate público, pode ser destacada com a citação de exemplos brasileiros como: os estudos de impacto ambiental (EIA) traduzidos para o leigo por meio do Relatório de Impacto no Meio Ambiente (RIMA) e a possibilidade de haver debate entre congressistas e magistrados com peritos.262
Mostra-se relevante o rigor procedimental a ser desenvolvido pelo Direito, com o desenvolvimento de pressupostos participativos nas deliberações técnicas.
Diz Habermas que “é preciso criar não somente o sistema dos direitos, mas também a linguagem que permite à comunidade entender-se enquanto associação voluntária de membros do direito iguais e livres”.263
É possível conciliar o estilo tecnocrático com a participação deliberativa, conforme demonstrou a experiência da participação orçamentária de Belo Horizonte a partir de 1997. Foi incluído nos debates um número crescente de regras e critérios técnicos capazes de induzir a alocação distributiva dos recursos.264
262 Cite-se também exemplos alemães: “as jornadas de trabalho da Corte Constitucional alemã e a colaboração do amicus curae para decisões a respeito da constitucionalidade de normas jurídicas envolvendo campos especializados do conhecimento.” (SOUZA CRUZ, Álvaro Ricardo de, op. cit.; p.
72).
263 HABERMAS, Jürgen, op. cit.; v. 1, p. 140.
264 Explica Roberto Pires: “Em boa medida, a adoção desses critérios e procedimentos resultou de um esforço por parte dos gestores públicos no sentido de associar a participação popular via OP [orçamento participativo] com a implementação dos instrumentos de planejamento e gestão urbana do município (Plano Diretor, planos globais específicos para vilas e favelas, Plano Diretor de Drenagem Urbana).” (PIRES, Roberto. Regulamentação da participação no OP em Belo Horizonte:
eficiência distributiva ao planejamento urbano. In______. MARQUETTI, Adalmir; CAMPOS, Geraldo Adriano de (Org.). Democracia participativa e redistribuição: análise de experiências de orçamento participativo. São Paulo: Xamã, 2008. p. 67).
Mesmo com a inclusão técnica no debate com o público, o modelo participativo obteve os esperados efeitos redistributivos, elemento ínsito ao orçamento participativo. Ressalte-se a análise sobre os aspectos técnicos e burocráticos na participação orçamentária:
No que se refere à burocracia, a maior parte da literatura atesta sua resistência inicial ao OP, mas afirma que existem formas de superá-la.
Santos (1998),265 por exemplo, argumenta que os burocratas também estão sendo submetidos a um processo de aprendizagem quanto à comunicação e ao diálogo com os cidadãos, que são leigos em matéria orçamentária.
Santos admite, todavia, que o caminho da tecnoburocracia para a
“tecnodemocracia” é acidentado. Como lembra Navarro (1997),266 no entanto, o conhecimento técnico é uma exigência essencial do OP. Quanto à relação entre os participantes do OP e o executivo local, existe consenso de que o governo local desempenha papel decisivo no OP, mesmo quando os participantes o contestam.267
Constata-se que o caráter técnico do orçamento participativo não pode ser suprimido sem o comprometimento dos resultados das deliberações. Isso não justifica a exclusão popular sobre os debates que envolvam esses assuntos. O melhor caminho apontado pelos referidos autores é a integração discursiva com os técnicos e burocratas, para que prevaleça sempre o interesse popular.
A experiência do orçamento participativo é exemplo de democracia deliberativa compatível com o modelo da soberania popular procedimental proposto por Habermas. Esse meio de participação vai contra o enraizamento totalitário que ignora ou suprime as diferenças e os diálogos, tão comum no meio político brasileiro.
A participação é propícia à ideologia pluralista e difunde o conceito de espaço público, pois os participantes do orçamento adquirem a noção do bem público, respeitando a diversidade de opiniões mediante a deliberação sobre o emprego dos recursos públicos.
265 Consta nas referências da autora: SANTOS, B. de S. Participatory budgeting in Porto Alegre:
toward a redistributive democracy. Politics & Society, v. 26, n.4, 1998, p.461-510.
266 Consta nas referências da autora: NAVARRO, Z. Affirmative democracy and redistributive development: the case of participatory budgeting in Porto Alegre, Brazil [1989- 1997]. Porto Alegre:
Mimeo, 1997.
267 SOUZA, Celina. Construção e consolidação de instituições democráticas: papel do orçamento participativo. São Paulo em Perspectiva, v. 15, n. 4, p. 92, 2001.