• Nenhum resultado encontrado

1.4 Modernidade, Confiança e Poder

2.2.1 Exclusões e Inclusões

Van Leeuwen (2008) investiga principalmente inclusões e exclusões, são as principais categorias de sua taxionomia (ver tabela em anexo). Segundo ele, representações incluem e excluem atores sociais para atender interesses e propósitos do autor em relação aos leitores que visa alcançar (p.28). Algumas exclusões podem partir do pressuposto de já serem conhecidas pelo leitor, ou consideradas irrelevantes por quem escreve, outras são intencionais. Algumas exclusões não deixam marcas, excluindo tanto atores sociais, quanto suas atividades (como, por exemplo, o fato de a imprensa não mencionar outros integrantes do conselho deliberativo da Petrobras, ao noticiarem a suposta compra irregular de uma refinaria nos Estados Unidos pela estatal). Essa exclusão radical tem papel importante numa análise que compare diferentes representações de uma mesma prática social, como no caso da minha pesquisa.

Há dois tipos de exclusão: supressão e encobrimento. Na supressão, não há referência alguma a determinados atores sociais no texto, já no encobrimento ou backgrounding, essa exclusão é menos radical, o ator social não aparece ligado diretamente à atividade, mas é mencionado em outro ponto do texto e o leitor pode inferir quem ele seja.

A supressão pode ocorrer pelo apagamento do agente da passiva, por meio de nominalizações, uso de adjetivos no lugar de verbos. Um exemplo de supressão seria: “No Brasil, preocupação e tensão têm sido expressas a respeito da Copa do Mundo”. (Quem expressa?) Nos discursos parlamentares analisados nesta pesquisa, percebi, por exemplo, que alguns parlamentares mencionam a polícia e outros não. Esse ator social só pode ser conhecido pela comparação de discursos sobre o mesmo evento. Em alguns excertos, não encontramos o povo mencionado, apenas a atividade de manifestar, isso também é uma forma de supressão.

Quando um autor escolhe incluir determinado ator social, temos que examinar de que maneira ele é inserido no texto. O falante pode escolher generalizar ou especificar atores sociais. A representação pode se dar por termos genéricos (Os deputados estão decidindo se vão apoiar o governo), plural sem artigo (“Ministros estão entregando seus cargos”) ou pode-se, por outro lado, usar termos específicos, nomear ( A ministra Marta Suplicy pediu demissão esta tarde).

O falante pode também optar pela ativação ou passivação do ator social. A ativação diz respeito à representação do ator como quem exerce a ação, como a força dinâmica na atividade (p.33), exerce o papel, no Sistema da Transitividade, de Ator, Experienciador, Dizente, Comportante etc. A passivação apresenta o ator como recebedor da ação (Meta, Beneficiário, Alvo). Observe o exemplo abaixo:

A Presidenta Dilma expressou seu apoio aos jovens que protestaram.

Nesse caso, temos o ator social Presidente Dilma como Dizente e jovens como alvo. Ela age e eles recebem a ação. Numa análise, é preciso observar quem ocupa o lugar de agente e quem ocupa o de paciente. Adjetivos e pronomes possessivos também podem ser usados para apassivar, por isso, van Leeuwen alerta para que o analista não fique preso a categorias gramaticais. Assim, teríamos como exemplo: “a legítima ação dos agentes...” – (Quem legitima?) ou “a divulgação de imagens...” – (Quem divulga?). Nosso governo apoia as manifestações pacíficas. (inclui os Deputados da base do governo).

Outra distinção feita por van Leeuwen (2008, p. 37) é entre Individualização e Assimilação. Podemos nos referir a atores sociais como indivíduos: “O Deputado André Vargas teve atitude serena”, ou como grupos: “essa nação”, “os brasileiros”, “a classe média”. A Assimilação pode ainda ser por Agregação, quando há um quantificador (40% da população) ou por Coletivização (a juventude brasileira, pesquisadores). Agregação é usada para regular uma prática e fabricar uma opinião consensual. Trata do que a maioria considera legítimo.

Outra subdivisão categórica é a da Diferenciação. Nesse caso, há um contraste entre dois entes, o eu e os outros. Nos discursos analisados, algumas vezes encontramos essa situação em que o político distingue o povo nas ruas e os parlamentares lá dentro.

“A população não se sente representada e nós aqui temos dificuldade de fazer valer os nossos mandatos”.

Os atores podem também ser impessoalizados, isto é, pode ser atribuído a eles um nome que não possua um componente humano. Isso pode ocorrer por Abstração e por Objetivação. Na Abstração, o ator é substituído por um nome que define uma qualidade atribuída a ele. Assim, imigrantes considerados problemáticos são chamados de problemas (LEEUWEN, 2008, p.46). A Objetivação, por sua vez, consiste na referência metonímica de algo, pode ser por Espacialização, Autonomização de Enunciado, Instrumentalização e Somatização.

Exemplos: Abstração

...atitudes infiltradas que visam constituir vandalismos.

...estão em plena sintonia com reivindicações expressas nas ruas, Ouvir as vozes das ruas é dever de todos os poderes.

Objetivação

O Brasil acordou nesta terça-feira mais forte…

é hora de o Parlamento saber escutar este pulsar das ruas.

Outra contribuição de van Leeuwen diz respeito à representação de ações sociais. Baseado no Sistema da Transitividade de Halliday, o autor investiga as ações além das representações. Segundo ele, os textos são cheios de reações. Explica que “conforme o poder dos atores sociais diminui, a quantidade de reações emotivas atribuídas a eles aumenta” (LEEUWEN, 2008, p.56). Faz distinção entre ação e reação. Segundo van Leeuwen, os processos materiais descreveriam a ação e os processos mentais a reação. Assim, teríamos, por exemplo, “imigrar” como ação e “preocupar-se” como reação. No entanto, esse não seria o único critério, pois podem ser expressas por grupos nominais e por orações descritivas (em vez de dizer “eles temiam”, diz-se eles estavam com medo”). Conclui que esse fenômeno sociosemântico é realizado congruentemente pelos processos mentais e metaforicamente por outras formas como as orações estáticas descritivas. Os tipos de processos mentais (afetivo, perceptivo, cognitivo) vão mostrar que tipos de reações os atores têm, se são reações racionais ou não, por exemplo.

Por meio da descrição do Sistema da Transitividade, ao observarmos a utilização de Processos Materiais e Mentais poderemos entender as ações e reações de deputados e dos manifestantes.

Documentos relacionados