3 O PROJETO PESCADOR DE FATO NO PROCESSO DE REPARAÇÃO DO
5.2 Execução do projeto e critérios de elegibilidade
Uso inadequado da cartografia social como matriz de critérios eliminatórios e qualificatórios – Como descrito neste relatório, a etapa inicial do Projeto Pescador de Fato consiste em uma cartografia social para mapeamento sobre a atividade pesqueira, que deveria ser construída de maneira participativa com a comunidade.
As entrevistas realizadas revelam que esse processo foi percebido como confuso e com pouca mobilização, sendo que o material elaborado a partir do conhecimento dos pescadores ouvidos não foi devidamente validado pelas comunidades atingidas, tampouco retornou para conhecimento e uso dos participantes, como previsto.
Além disso, ao invés de ser utilizado com ferramenta de heteroidentificação inclusiva, como é próprio desse método, a cartografia social foi utilizada como uma matriz de critérios eliminatórios ou qualificatórios para confrontação, o que não era claro para aqueles que contribuíram com seus saberes para sua elaboração.
A matriz elaborada a partir da cartografia social serviu de baliza para aderência dos participantes, o que foi feito por meio da análise de discurso de suas declarações e entrevistas por técnicos externos à comunidade. Identifica-se, portanto, que esse também é um obstáculo a ser apontado, porquanto o procedimento de análise de discurso por agente externo divorcia-se da ideia de autorreconhecimento inicialmente traçada para o Projeto Pescador de Fato, além de se mostrar distante do propósito de efetiva consideração das realidades socioeconômica e culturais da pesca nos territórios. Falta de participação informada durante as fases de oitiva comunitária e atendimento individual – Os relatos das pescadoras e dos pescadores ouvidos pela FGV apontam também para a falta de participação efetiva e informada nas diferentes fases de implementação do piloto do Projeto Pescador de Fato.
Como demostrado, mesmo após reuniões introdutórias e inscrição realizadas em Linhares e Conselheiro Pena, interlocutores atingidos que participaram do piloto e foram ouvidos pela FGV não tinham total domínio sobre o público-alvo, o objetivo efetivo e os critérios de elegibilidade para o Projeto Pescador de Fato. Também não tinham clareza sobre o procedimento e a finalidade da cartografia da pesca, tampouco da dinâmica e função das perguntas realizadas na etapa da entrevista individual.
Não reconhecimento de pescadores envolvidos em pluriatividades – Como apontado no item anterior, uma das restrições mais significativas em termos de critérios de elegibilidade diz respeito ao exercício de pluriatividades para além da pesca. Isso porque, como destacado, pela forma como o Cadastro Integrado é preenchido, a pesca muitas vezes pode não ser considerada a atividade principal do atingido, sendo assim tida como um “complemento de renda”. Essa limitação, que é transportada do processo de cadastramento para o Pescador de Fato, acaba por excluir da política indenizatória justamente o perfil de trabalhador da pesca a quem esta buscava atender, qual seja, o pescador informal, que tem de exercer diversas atividades para o seu sustento.
Não reconhecimento das diferentes atividades que compõem a cadeia da pesca – Tendo em vista que a pesca comercial é composta por diferentes atividades, o não reconhecimento de todas resulta em obstáculo para o acesso à indenização de parte significativa de trabalhadores que, antes do desastre, tiravam seu sustento da pesca. Verifica-se, nesse sentido, que o Projeto Pescador de Fato não acata a recomendação da CTOS/CIF via NT no 22/2018, para a ampliação da abrangência do escopo com
adequação às realidades locais, nem aquelas expostas pelas NT no 31/2019/CTOS/CIF
e NT no 43/2020/CTOS/CIF para a inclusão das diferentes atividades que compõe a
cadeia da pesca e seu acesso à reparação. Com isso, resta frustrado o propósito inclusivo anunciado pelo Projeto Pescador de Fato e reforçado pela implantação do piloto nas comunidades. Conforme demonstrado neste documento, as comunidades relataram a expectativa de que o Projeto Pescador de Fato apresentasse uma resposta efetiva às suas realidades pesqueiras, o que não aconteceu devidamente.
Limitação para reconhecimento e reparação de mulheres – Observa-se que as atividades realizadas especialmente por mulheres não foram incluídas no Projeto Pescador de Fato, a exemplo da limpeza do peixe e práticas de pesca de anzol e em barranco, ou mesmo sua inserção na atividade pesqueira como embarcadas, o que reforça uma discriminação de gênero, contribuindo para acirrar a vulnerabilidade de sua condição. O Projeto Pescador de Fato reforça (ao invés de endereçar) mais uma vez as limitações da metodologia de aplicação do Cadastro Integrado, que insere as mulheres como “dependentes dos declarantes”, o que inviabiliza sua entrada no procedimento indenizatório, corroborando assim com o não reconhecimento de sua profissão e com o acirramento da discriminação de gênero na prática das ações reparatórias.
Ausência de mecanismo de busca ativa e obstáculos à acessibilidade para fins de inscrição no projeto – A despeito da recomendação realizada na NT no 22/2018/CTOS/CIF para realização de busca ativa no projeto Pescador de Fato, de
modo a incluir no processo todos os pescadores artesanais atingidos para fins indenizatórios, não foram identificados procedimentos próprios para isso, o que refletiu na diferença significativa entre o universo potencial de atingidos (aqueles que informaram serem pescadores profissionais no Cadastro Integrado) e os que efetivamente se inscreveram nos dois municípios onde foi realizado o projeto-piloto. Segundo informações coletadas, não houve o atendimento da recomendação da Nota Técnica no 22/2018/CTOS/CIF, no sentido de que todos os atingidos que declararam no
Cadastro Integrado serem pescadores profissionais deveriam ser contatados, de forma a assegurar sua inclusão.
Em termos de acessibilidade, destacam-se importantes obstáculos ao procedimento de inscrição, a saber:
exigência de duas testemunhas portadoras de RGP, sendo que cada um desses profissionais somente poderia avalizar a inscrição de oito pescadores;
custos de autenticação e reconhecimento de firma, no cartório, da documentação exigida para a inscrição incompatíveis com o custo de vida de alguns pescadores;
custo de transporte de postulantes residentes em outras localidades;
alta taxa de analfabetismo, o que dificultou o atendimento das exigibilidades documentais, sem que haja registro de procedimentos de assessoria voltados à facilitação da obtenção dos documentos.
Caráter excessivamente inquisitório das etapas de entrevista e coleta de testemunhos, com restrições ao direito à assistência jurídica, violações à dignidade dos participantes e acirramento da conflituosidade nos territórios – No tocante ao procedimento de entrevista e coleta de testemunhos, foram identificados obstáculos sensíveis, na medida em que a descrição dos procedimentos, obtida por meio da análise documental e corroborada com os relatos das pessoas atingidas, revelam um processo excessivamente inquisitório, em que testemunhas e postulantes são acareados sem o devido acesso à assistência jurídica.
Para além da declaração escrita, os pescadores profissionais que atuaram como testemunhas eram inquiridos na presença dos candidatos, com perguntas sobre a prática de pesca dos colegas, que deveriam permanecer em silêncio. Foi relatado o emprego de técnicas exaustivas de interrogatório e de acareação que criaram situações de desconforto e constrangimento, influíram na participação realizada e, por conseguinte, nos resultados dos pareceres de elegibilidade. Esse tratamento
configurou, ainda, uma situação estranha ao território e à vivência das pessoas que se submeteram ao processo, deixando impressões negativas e, em alguns casos, acarretando sofrimento, abalos morais e psicológicos.
Além disso, a exigência dos dois testemunhos e a limitação de oito candidatos por pescador profissional com RGP foram fatores que desencadearam constrangimentos e desconfiança, contribuindo para a promoção de conflituosidade nos territórios.
Situações similares foram relatadas quanto à etapa de entrevista dos postulantes, que teriam sido submetidos a perguntas repetitivas, excessivamente técnicas, por vezes incompreensíveis e que, a seu ver, não teriam relação com o conteúdo discutido, na elaboração da cartografia social. A longa duração das entrevistas e a impossibilidade de adentrar com um acompanhante ou de ter acesso a assessoria técnica ou jurídica são importantes obstáculos que também devem ser considerados.