l l Fig 23 Retábulo lateral Santa Rita.
Entre 1 795 e 1 800, foi executada a talha da Capela do Santíssimo, situada na nave lateral esquerda da Igreja de Nossa Senhora de Monserrate, no Mosteiro
de São Bento, por encomenda de Frei Luciano do Pilar, natural do Rio de Janeiro. Trata-se de gracioso modelo de talha rococó, no qual foi adotado um trabalho fino e delicado, com influências chinesas, sobretudo no sacrário, no
qual, segundo afirmou Bazin 193, as formas sinuosas têm recurvamentos de
labaredas.
A capela, inteiramente dourada, faz a ambientação rococó em plenitude, decorando paredes, altar e teto, em consonância com a predileção desse estilo por ambientes intimistas e de pequenas dimensões. O retábulo desenvolve-se em ritmo de ligeira concavidade, conduzido pelas colunas e pelos espaços intercolúneos que fazem a passagem de forma contínua das paredes laterais para o camarim. Esta mesma integração harmoniosa ocorre em relação ao
teto, onde a forma semicircular da abóbada de berço compartimenta-se em frisos decorados, induzindo em cadência o olhar em direção à parede de fundo, na qual se insere o altar.
O corpo do altar é formado, de cada lado, por mísulas, em movimento de rotação superior projetado para fora, que sustentam duas colunas torsas externas e uma coartelão que ladeia o altar. As torsas (colunas salomônicas)
Fig. 38 - Capela do San tíssimo Sacramento - Mosteiro de São Bento -
têm o terço inferior estriado em curvas de dinâmica acelerada, como de praxe nos altares cariocas da segunda metade setecentista. As espiras, de sulcos profundos, são guarnecidas de fartas guirlandas, acionando a movimentação ascendente através da base ligeiramente mais grossa que a parte superior · (entasis). Os espaços intercolúneos entre as torsas são recobertos por lambris guarnecidos com molduras, tendo ao centro elemento oval com simbologia cristã. No segundo espaço, próximo ao altar, insere-se peanha com imagem de santo encimado por dossel.
A cimalha, num caso atípico entre as capelas aqui estudadas, vêm das paredes laterais, avançando sobre o altar, onde contribuem para assinalar a movimentação em avanços e recuos. Sobre a cornija, encimando as colunas, a decoração descreve ritmo ascendente, inserindo-se em triângulo (símbolo da Santíssima Trindade). Sobre a primeira coluna (externa), temos um pequeno arranque, encimado por volutinha retorcida e arranjo de flores; sobre a
segunda, um arranque de frontão interrompido, encimando um anjo ajoelhado, orando. Da terceira coluna - quartelão -, desenvolvem-se as volutas que fazem o coroamento, sustentando os arremates de frontão. O tema decorativo central, rodeado de radiação gloriosa, é o cordeiro sobre o livro dos sete selos
(símbolo do apocalipse). Cobrindo o sacrário, desponta uma_ sanefa com
lambrequins, de onde desce um cortinado vermelho, recobrindo o fundo do nicho e pontuando a única cor sobre toda a talha que reveste a capela.
Dois arcanjos (ou figuras de convite?), segurando cornucópias (símbolos da fartura), repetem, em versão rococó, a disposição adotada no altar-mor da igreja: fazem a recepção do altar, trajados de forma cortesã, com arranjos de plumas sobre as cabeças. A postura contorcida e graciosa dessas esculturas descreve sinuosidade em "S", numa movimentação espontânea, quase dançante.
O sacrário, elemento fundamental e espetacular, justifica a nome da capela, que resume o mistério maior do cristianismo - o Santíssimo Sacramento -, e 193 BAZIN, Germain. A arquitetura rel igiosa barroca no Brasil. Op. cit. , p. 332.
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preenche o nicho desde a mesa até a cimalha, inserindo-se em triangulação conduzida por linhas sinuosas e decoração flamejante. No centro, figura o Sagrado Coração, em meio a nuvens e querubins, com radiação gloriosa .
. Em toda a concepção de fatura prevalece o detalhamento preciosista, em que as extremidades se contorcem em pequenos "arrebites"; o resultado é um espaço refinado, favorecido pelo ouro da talha e pelo esmero decorativo. As diferenças entre o risco e a obra, assim como ocorreu no altar-mor (que também sofreu modificações em relação ao risco), tiveram a intenção de torná la mais rococó.
A Capela do Santíssimo Sacramento é de autoria desconhecida. Numa época em que os artistas seguiam os caprichos da encomenda, deixando transparecer apenas em detalhes o aspecto pessoal de seu estilo, fica difícil detectar, em alguns casos, a linguagem pessoal de determinados artistas. No
entanto, o risco original194
, existente nos arquivos do Mosteiro de São Bento,
nos oferece preciosos indícios a respeito da obra, e, embora não possamos afirmar categoricamente sua autoria, apontaremos alguns detalhes que nos pareceram relevantes.
Em primeiro lugar, constatamos as diferenças entre o traçado- original e a
concepção final da obra. Formalmente, as correções resultaram num sacrário mais longilíneo; o tema central foi substituído - em lugar da ressurreição do Cristo, o Sagrado Coração. O Divino Espírito Santo, que encimava o sacrário, foi suprimido, assim como o cortinado que pendia do dossel, contornando a boca da tribuna. O tema central do coroamento - o cordeiro sobre o livro -, que no risco estava deitado sobre o livro, ganhou versão mais disposta, de pé, portando a bandeira. O autor do projeto previra uma coluna torsa central ladeada por duas colunas de fuste reto. Frei Luciano do Pilar mandou modificar para a configuração atual, com duas torsas e uma quartelão. O espaço intercolúneo entre a coluna quartelão e a torsa central, em lugar de repetir a
194 SILVA-NIGRA, Clemente da (Dom) . Op. cit. , p. 1 08 - Projeto da obra da nova talha da Capela do SS. Sacramento, desenho atribuído ao mestre-entalhador lgnácio Ferreira Pinto - 1795. Dimensões do original 51 X 56 cm, arquivo do Mosteiro.
decoração de ovais com elementos simbólicos, recebeu peanha onde se inserem imagens.
A segunda constatação, já discutida, é a de que a adoção da coluna torsa nos .retábulos cariocas partia da clientela, e do gosto já instituído no Rio de Janeiro. Temos aqui um caso em que o encomendante é carioca e optou pela presença marcante de duas colunas torsas já no final do século XVIII, quando os próprios artistas pareciam considerar esse elemento esgotado. Bazin 195 chamou a
atenção para o fato de que esta capela, construída mais de dez anos depois da capela-mor, é mais rococó do que aquela. Obedeceu à vontade de Frei Luciano do Pilar, que afirmou tê-la mandado executar pelo modo "mais moderno" e clarqmente interveio em sua execução, dadas as diferenças entre a traça e a obra. Este fato nos documenta que, no descompasso entre o que o que o artista planejava e o resultado final da obra, prevalecia a vontade do enco�endante. Atenção: estamos inaugurando o século XIX!
Finalmente, quanto ao aspecto ornamental, gostaríamos de apontar alguis pontos que nos pareceram curiosos. Comparando a Capela do Santíssimo com o altar da Ordem Terceira do Carmo, encontramos os mesmos anjinhos, segurando festões de flores, assentados sobre mísulas de movimentação torsa projetada para fora, e também os ovais, ornados com simbologia cristã, pendendo do arremate superior da moldura. O Cristo que está à frente do sacrário e o Cristo do coroamento do retábulo são bastante parecidos. É fácil observar uma enorme quantidade de anjinhos e querubins, no risco, assim como o cortinado, tão ao gosto de Mestre Valentim, sobre o sacrário. Quanto ao sacrário, trata-se de concepções triangulares, divergindo apenas em alongamento na altura. A utilização recorrente de simbologia cristã era uma predileção de Valentim, assim como a adoção de sanefas e lambrequins. A atribuição de autoria que D. Clemente da Silva-Nigra delega a lgnácio Ferreira Pinto não nos parece pertinente. A traça em nada combina com o estilo daquele mestre. Não cremos tampouco que Frei Luciano do Pilar fosse recorrer a artista estrangeiro, quando os cariocas já se revelavam tão competentes e amealhavam todas as ofertas do mercado. Nossa intenção aqui não foi delegar
uma atribuição definitiva, mas manifestar nossa impressão de que o risco pode ser de Valentim. Supomos que o "modo mais moderno" ao qual Frei Luciano do Pilar se refere foi justamente a supressão dos elementos barrocos, aos quais Valentim era afeito, enxertando alongamento de linhas e chinesices na decoração.
Fig. 39 - Anjos do altar - Ordem Terceira de N. S. do
Monte do Carmo.
Luiz da Fonseca Rosa.
Arquivo pessoal.
Fig. 40 - Coroamento do altar. Ordem Terceira de N. S. do Carmo.
Luiz da Fonseca Rosa - Arquivo pessoal.
fig. 42 -Projeto da talha da Capela do Santuário -Planta 1 56 do catálogo de mapas e plantas do arquivo de São Bento - 65,5 x 54 cm. ROCHA, Mateus Ramalho, 1 99 1 , p. 1 76.
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