3 ASPECTOS GERAIS SOBRE A DECADÊNCIA E A PRESCRIÇÃO NO DIREITO
5.4 PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE
5.4.1 Executivo Fiscal
Nos termos propostos por Ernesto Toniolo “a expressão intercorrente é empregada em execução fiscal para designar a situação na qual a prescrição, anteriormente interrompida, volta a correr no curso do processo, nele completando o fluxo de seu prazo”.591 Diz ainda que “trata-se da mesma prescrição prevista no CTN, [...] que pode voltar a fluir no curso da execução fiscal, geralmente em virtude da
591 TONIOLO, Ernesto José. A Prescrição Intercorrente na Execução Fiscal, op. cit., p. 102.
inércia do exeqüente em fazer uso, durante o processo de execução, dos poderes, das faculdades e dos deveres inerentes ao exercício do direito de ação”.592
De acordo com o já analisado § 4º do artigo 40 da Lei 6.830/80, incluído pela Lei 11.051/04, é possível o reconhecimento de ofício da prescrição intercorrente, o que a princípio afastaria dúvidas a respeito da existência desta. Todavia, uma vez que a prescrição tributária é matéria reservada à lei complementar, tem-se que tal dispositivo não é competente para disciplinar o assunto, fazendo-se, por isso, necessária a análise das regras do CTN para se chegar a uma conclusão a respeito da possibilidade ou não de haver prescrição intercorrente.
Eurico Diniz julga não haver prescrição intercorrente, sob a justificativa de que
“a prescrição extingue o direito de ação, e não o processo, que decorre do exercício do direito de ação”. Diz também o autor que “o processo executivo fiscal não pode ser extinto pela omissão do Fisco, pois é movido por impulso oficial do juiz”.593 Questiona ainda: “para que continuar o curso de prazo extintivo do direito de ação se esta já foi exercida?”594
Em contrapartida, Renato Becho595, Fernando Dias596 e Toniolo597 admitem a prescrição intercorrente, compreendendo que a propositura da ação não é a única obrigação do credor, devendo este também zelar pelo seu andamento, tomando as medidas cabíveis para tanto, na busca da satisfação de seu crédito. No que se refere ao impulso oficial mencionado por Diniz, Becho esclarece que “refere-se aos ritos internos, não atingindo uma parcela considerável de atos”.598
Toniolo observa ademais que, embora exercido o direito com o ajuizamento da execução, esta, por suas peculiaridades, pode estender-se ilimitadamente no tempo. E se esta extensão ilimitada ocorrer, diz o autor, “o devedor e a sociedade estariam expostos aos malefícios decorrentes da prolongada pendência da situação
592 TONIOLO, Ernesto José. A Prescrição Intercorrente na Execução Fiscal, op. cit., p. 103.
593 SANTI, Eurico Marcos Diniz de (Coord.). Curso de Direito Tributário e Finanças Públicas: Do Fato à Norma, da Realidade ao Conceito Jurídico, op. cit., p. 918.
594 SANTI, Eurico Marcos Diniz de. Decadência e Prescrição no Direito Tributário. 2. ed., op. cit., p. 240. No mesmo sentido, Christine Mendonça (Decadência e Prescrição em Matéria Tributária, op. cit., p. 671).
595 BECHO, Renato Lopes. A Prescrição Intercorrente nos Executivos Fiscais. Revista de Estudos Tributários, Porto Alegre, Síntese, n. 53, p. 155, jan./fev. 2007.
596 DIAS, Fernando Vaz Ribeiro. Prescrição Intercorrente. Revista de Estudos Tributários, Porto Alegre, Síntese, n. 53, p. 164, jan./fev. 2007.
597 TONIOLO, Ernesto José. A Prescrição Intercorrente na Execução Fiscal, op. cit., p. 112.
598 BECHO, Renato Lopes. A Prescrição Intercorrente nos Executivos Fiscais, op. cit., p. 155.
processual litigiosa”.599 Acrescenta também que se a Fazenda não exerce os demais poderes, faculdades e deveres de que dispõe ao longo de todo processo, volta-se ao estado de inércia. E nestas circunstâncias, julga o autor, faz-se presente o fundamento da prescrição (necessidade de pôr fim à instabilidade das relações jurídicas), bem como a sua causa eficiente (inércia do suposto titular do direito).600 Além disso, afirma que “ao contrário de outras formas de interrupção da prescrição, que se consumam em um só ato [...], o ajuizamento da execução diferencia-se por representar processo contínuo”. Por isso, entende que “o período de interrupção poderia durar enquanto durasse o processo (suspensão) ou ser renovado a cada novo ato processual (interrupções sucessivas)”.601 Com essas ponderações conclui:
“o ajuizamento da execução fiscal ‘afasta’ a causa eficiente da prescrição (inércia...), mas não a ‘elimina’ em definitivo”.602
O STJ também aceita a existência da prescrição intercorrente. O Excelentíssimo Ministro José Delgado justifica esse posicionamento dizendo que:
“Repugnam aos princípios informadores do nosso sistema tributário a prescrição indefinida. Após o decurso de determinado tempo sem promoção da parte interessada, deve-se estabilizar o conflito, pela via da prescrição, impondo segurança jurídica aos litigantes”.603
Por outro lado, na hipótese de paralisação do processo por motivos alheios à vontade do credor, Ernesto Toniolo604 e Margarete Barsani605 julgam que não será considerada a prescrição intercorrente, fazendo menção à Súmula 106 do STJ que diz que “proposta a ação no prazo fixado para seu exercício, a demora na citação, por motivos inerentes ao mecanismo da justiça, não justifica o acolhimento da argüição de prescrição ou decadência”.
599 TONIOLO, Ernesto José. A Prescrição Intercorrente na Execução Fiscal, op. cit., p. 112.
600 Idem, p. 129.
601 Idem, p. 115.
602 Idem, p. 129-130. José Eduardo Soares de Melo (Curso de Direito Tributário, op. cit., p. 357-358), também admite a prescrição intercorrente, dizendo que esta “decorre da negligência fazendária em dar prosseguimento aos processos decorrentes de lançamento e exigibilidade tributárias”. Sustenta-a ainda com base nos princípios da moralidade administrativa, eficiência do serviço público, segurança e certeza das relações jurídicas.
603 AgRg no Ag 966656/MG, 1ª Turma, Relator Ministro José Delgado, DJe 24.04.2008.
604 TONIOLO, Ernesto José. A Prescrição Intercorrente na Execução Fiscal, op. cit., p. 133.
605 BARSANI, Margarete Gonçalves. Decadência e Prescrição no Direito Tributário: Atualizado de acordo com a Lei Complementar 118/2005, op. cit., p. 117.
Para se chegar a uma conclusão sobre a possibilidade de haver a prescrição intercorrente, é oportuno lembrar as observações realizadas nos item 5.2, no sentido de que o fundamento da interrupção é o fato de o titular de um direito deixar de permanecer inerte na busca da satisfação deste. É importante memorar também que o fluxo prescricional inicia-se novamente após o ato interruptivo.
Assim, uma vez interrompida a prescrição pela citação (até o advento da LC 118/05) ou pelo despacho que a determina (proferido depois da LC 118/05), o prazo prescricional de 5 (cinco) anos do artigo 174 do CTN, a princípio, pode voltar a fluir de forma imediata.
O retorno do curso da prescrição se justifica porque a simples propositura da execução fiscal não é suficiente para o recebimento do crédito tributário, devendo a Fazenda praticar demais atos processuais até que consiga receber o seu crédito. E até que esta finalidade seja atingida, tem-se que ainda haverá um direito a exercer.
E, enquanto este estiver pendente, continuará sujeito ao respectivo prazo prescricional previsto em lei, sob pena de permitir o prolongamento indefinido de relações jurídicas, o que prejudicaria o objetivo da norma prescricional de promover a segurança jurídica por meio da estabilização daquelas (relações jurídicas).
Todavia, se a Fazenda continuar a promover os atos processuais que lhe são imputados para dar continuidade ao processo executivo, não há como a considerar inerte, condição sine qua non para a configuração da prescrição.
Portanto, somente quando a Fazenda deixar de realizar qualquer ato processual na busca da satisfação de seu crédito, é que poderá ser considerada inerte, deixando de existir obstáculo ao reinício do prazo prescricional.
Diante do exposto, é possível concluir que a citação ou o despacho que a determina interrompem a prescrição, interrupção esta que deverá se estender enquanto a Fazenda continuar agindo para receber o seu crédito. Verificada a inércia desta, o prazo do artigo 174 do CTN voltará a fluir, de modo que, permanecendo omissa por 5 (cinco) anos contados da data do último ato que manteve a prescrição interrompida, deverá ser reconhecida a prescrição, que neste caso é chamada de “prescrição intercorrente”.