1. Justificação do Tema
2.6 Exemplos de esteróides da classe pregnano bioactivos
Os esteróides da série pregnano (C-21) são uma importante classe de compostos bioactivos que apresentam variadas actividades farmacológicas, o que tem proporcionado um elevado interesse no desenvolvimento de novos fármacos. Exemplos de compostos desta série, incluem alguns pregnanos glicosilados, conhecidos da medicina tradicional chinesa e isolados principalmente da família de plantas Asclepiadaceae
,
que apresentam importantes actividades farmacológicas designadamente anticancerígenos, anti-asmáticas, antifúngicas, entre outras.46Como já referido, alguns esteróides pregnanos bioactivos têm sido descobertos no âmbito da medicina tradicional. Neste contexto, compostos isolados da planta Solanum
lyratum têm sido usados no tratamento de vários tipos de tumores humanos. Esta planta
apresenta na sua constituição glucuronidos esteróides, glucósidos alcalóides esteróides, coumarina, ácido fenólico e outros compostos, e foi já reportado que o extracto aquoso da mesma apresenta uma relevante citotoxicidade sobre células de leucemia promielocítica humanas HL-60.48 De forma a avaliar de modo sistemático os constituintes deste planta no
que toca à sua potencial actividade citotóxica, isolaram-se fracções bioactivas da mesma através de um processo de fraccionamento do extracto etanólico desta planta guiado pela bioactividade. Desta forma, a 16-desidropregnenolona e a pregnenolona foram isoladas pela primeira vez a partir da planta Solanum lyratum. De acordo com os resultados obtidos pelos autores, a 16-desidropregnenolona isolada apresenta uma importante actividade citotóxica para as linhas celulares do carcinoma uterino humano (Hela), do melanoma maligno humano (A375-S2) e apresenta um efeito mais moderado nas linhas de células do cancro gástrico humano (SGC-7901) e do carcinoma hepatocelular humano (Bel-7402). Sun LX, et al. (2006) afirmaram que, até à data, este era o único dado de citotoxicidade relativo à 16- desidropregnenolona em linhagens de células de vários tipos de cancro.48
A partir da planta denominada Nerium Oleander L. (Apocyaceae) também foram isolados compostos pregnanos bioactivos. Tal como as plantas acima referidas, também plantas desta espécie têm vindo a ser usadas na medicina tradicional, uma vez que apresentam propriedades de extrema relevância em termos terapêuticos incluindo antibacterianas, anti-cancerígenas, e cardiotónicas.49 Num estudo recente, foi reportado o
isolamento e caracterização de cinco pregnanos a partir da raiz desta planta (figura 11): 21- hidroxipregna-4,6-dien-3,12,20-triona (G), 20R-hidroxipregna-4,6-dien-3,12-diona (H), 16β,17β-epoxi-12β-hidroxipregna-4,6-dien-3,20-diona (I), 12β-hidroxipregna-4,6,16-trien- 3,20-diona (J), 20S,21-dihidroxipregna-4,6-dien-3,12-diona (K).
O O CH3 CH3 H O H H CH3 H H H O CH3 CH3 O O H H H OH O H H H CH3 CH3 OH O C H3 O CH3 OH CH3 O C H3 H O H H H O H H H H OH H O H O CH3 CH3
Figura 11. Compostos pregnano esteróides bioactivos.
No estudo acima referido também foi efectuada a avaliação da actividade citotóxica dos compostos G-K sobre 4 linhas de células humanas: células de fibroblastos humanos não- tumorais (WI-38), células de tumor maligno induzido a partir das células WI-38 (VA-13) e células tumorais de fígado humano (HepG2). Através deste estudo,conseguiu-se verificar a significativa capacidade do composto K para inibir o crescimento celular das células VA-13 e HepG2. Este facto é relevante uma vez que este composto evidenciou uma citotoxicidade relativamente inferior para as células normais de fibroblastos em relação, por ex., às células VA-13.47 Estes compostos têm muitas semelhanças estruturais entre si, mas como se pode
verificar existem diferenças significativas no que diz respeito à sua bioactividade, verificando-se, por exemplo, que o grupo funcional 16β,17β-epóxido como substituinte nas posições 16 e 17 da molécula não pareceu ser importante quanto à inibição do crescimento de células tumorais. Contudo, o composto J, muito semelhante ao anterior, apresenta propriedades interessantes no combate ao crescimento de células tumorais, que são consequência da existência de uma olefina conjugada nas posições 16 e 17 do núcleo esteróide deste pregnano bioactivo.47
No âmbito da importância dos compostos pregnano esteróides no tratamento de tumores hormono-dependentes, mais propriamente no CP, está relatado que algumas 20- oximas esteróides são inibidoras das enzimas CYP17 e 5α-redutase.48. O 3β-acetoxi-5α,6α-
epoxipregnan-16-eno-20-ona, que não apresenta uma olefina nos anéis A ou B, bem como a 6α,7α-epoxiprogesterona, apresentam uma maior capacidade de inibição da enzima 5α-
K
G H
O AcO O AcO O HO N OH O O O O O N H CH3 CH3 O N C H3 OH
redutase relativamente ao finasteride.19 Com base nestes dados específicos, Kim, S. e E. Ma
(2009) descreveram a síntese de várias 20-oximas e/ou epoxipregnanos, pregnenos e pregnadienos (figura 12), avaliando posteriormente a sua capacidade de inibição da enzima 5α-redutase e a sua citotoxicidade in vitro sobre duas linhas celulares de cancro da próstata: LNCaP (androgénio-dependente) e PC-3 (androgénio-independente).19 Os compostos que se
revelaram mais citotóxicos foram o composto P, contendo um grupo oxima em C20 e o R, com um grupo 1α,2α-epóxido.19
Figura 12. Exemplos de compostos sintetizados e avaliados nas células LNCaP e PC-3 por Ma e Kim
(2009)
Actualmente, também se conhecem muitos esteróides isolados de diferentes organismos marinhos que têm diversas actividades biológicas relevantes. Alguns deles são mesmo extremamente tóxicos contra células tumorais, mostrando também efeitos anti- inflamatórios, entre outros. Portanto, não é surpreendente que os esteróides “marinhos” também despertem o interesse, não só de químicos, mas também de farmacêuticos e médicos.49 Num estudo com objectivo de pesquisar mais compostos bioactivos de origem
marinha, Quang (2011), através da análise de um extracto metanólico de L. laevigatum, isolou vários esteróis, incluindo dois metabolitos conhecidos, como a pregnenolona e o colesterol. Inicialmente avaliou-se a citotoxicidade destes compostos contra linhas celulares cancerígenas de pulmão (A549), cólon (HCT-116) e de leucemia (HL-60), conhecidas linhas de células cancerígenas. Contudo, verificou-se que tanto a pregnenolona como o colesterol foram inactivos para todas estas linhas celulares.49 Apesar deste resultado, a pregnenolona,
um esteróide natural, precursor da síntese de outras hormonas importantes no nosso organismo, foi recentemente descrita como tendo actividade anti-tumoral contra células HepG2, embora não se tenha revelado citotóxico contra células MDA-MB-231 (de cancro da mama). Além disso, este esteróide pode ser usado como template no desenvolvimento de
L M N
Q P
prepararam-se vários compostos com actividades anti-tumorais interessantes, nomeadamente derivados benzilidenos, pirazolinas, pirazóis, hidrazonas, oximas, entre outros.50
Num outro estudo recente, Shan et al. (2009) avaliaram a capacidade de vários esteróides pregnanos, incluindo a pregnenolona, inibir a capacidade de proliferação de uma linha celular cancerígena de esófago humana (EC-90) e concluiu que este composto apresentou alguma capacidade de inibição deste tipo de células cancerígenas (13,6 % de inibição).51 Adicionalmente, os esteróides 16α-metil-2-oxopregn-5-eno-3β-il acetato e o seu
derivado 3β-hidroxilado foram recentemente preparados e caracterizados, tendo revelado ter uma acção antiproliferativa marcada contra células de cancro gástricas (MGC-803).52
Por fim, é importante referir que estes resultados fornecem informações úteis na descoberta e desenvolvimento de compostos químicos mais bioactivos; especialmente reforçam a ideia de que os esteróides da classe pregnano, funcionalizados no anel D, podem apresentar relevantes actividades anti-tumorais.