1 INTRODUÇÃO
2.3 Marco regulatório
2.3.3 Tribunal de Contas e a ecologia na administração pública
2.3.3.1 Exercício do controle externo – aspectos administrativo e ambiental
Em relação à Administração Pública Estadual e seus órgãos, o exercício do controle externo pelo TCE/SC requer “a fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial10, quanto à legalidade, legitimidade e economicidade na arrecadação e aplicação
dos recursos públicos”. O citado dispositivo legal está inserido no Art. 58 da Constituição Estadual (CE/1989), em auxílio à Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina (ALESC).
Já em relação às Administrações Municipais o enfoque das atribuições está definido no Artigo 113 da CE, neste caso, em auxílio às câmaras de vereadores dos municípios. Em termos infraconstitucionais, a Lei Orgânica do TCE/SC, define o alcance e o detalhamento das suas competências, no contexto da Administração Pública.
O TCE/SC, além da apreciação e julgamento das contas dos administradores, do exame da legalidade dos atos de gestão de pessoal, da fiscalização quanto à aplicação dos
10 Há convergência de entendimentos hoje, entre os tribunais de contas brasileiros, de que a fiscalização patrimonial abrange também o patrimônio natural ou ecológico.
recursos, tem por incumbência principal a realização de auditorias. Seja para verificar o andamento de obras, seja para apurar denúncias e representações, seja para a certificação da correta aplicação dos recursos públicos nas diversas áreas de alcance da ação governamental, inclusive a área do patrimônio natural.
O alcance das ações para todos os órgãos da Administração Pública Estadual, e para os órgãos dos 293 municípios do território catarinense, dá uma dimensão mais clara das tarefas ligadas ao controle externo exercido pelo TCE/SC. É nesse cenário de exigências legais crescentes para atuação, que se estabelece o “negócio do TCE/SC”. Por isso, precisa se estruturar e atuar estrategicamente visando, tempestivamente, dar as respostas requeridas pela sociedade civil organizada. De maneira análoga, com peculiaridades próprias, ocorre a atuação dos demais tribunais de contas em relação aos 5.560 municípios brasileiros.
Atuar junto com as administrações públicas municipais dando transparência às ações ambientais significa uma inovação. Estender para o campo socioambiental como sugere Reyes (2008) pode ser a oportunidade e o desafio para pensar e estruturar até mesmo a contabilidade ambiental.
Mais ainda, o momento em Santa Catarina é de reconstrução. A catástrofe ocorrida no Vale do Itajaí tem causa atribuída a desequilíbrios ambientais. Neste caso, importa contribuir para encontrar alternativas que possibilitem um trabalho preventivo e integrado pelos municípios nas bacias hidrográficas. Isto pode constituir-se numa meta de largo alcance para o TCE/SC. Entender e contribuir na orientação de como as administrações públicas estaduais e municipais e os munícipes, podem e devem agir nestas circunstâncias é ponto fulcral. Para isso, em muitos casos é preciso rever planos diretores e projetos de ocupação de áreas. E ainda definir obras prioritárias de contenção de cheias e de encostas, minimizando áreas de risco, quando couber. Auxiliar, enfim, no planejamento urbano e ambiental dos municípios é uma tarefa pertinente e necessária, dentro do contexto do patrimônio natural.
No entender de Lemos11, catástrofes ambientais têm sido cada vez mais frequentes,
especialmente nos Estados Unidos, com a incidência de tornados. Assim,
Se os incidentes catastróficos ambientais são inevitáveis e mais frequentes nos dias de hoje, importa implementar um conjunto de mecanismos e medidas capazes de propiciar a recomposição, de maneira rápida e com o menor grau de sofrimento e prejuízo aos atingidos. Esta tem sido a alternativa adotada nos EUA após a tragédia de Nova Orleans (LEMOS, 2008).
11 LEMOS, Maria Carmen de Mello, Pesquisadora e professora da Universidade de Michigan, proferiu palestra no Workshop Internacional de Pesquisa em Indicadores de Sustentabilidade - WIPIS com o tema - Indicadores para Gestão da Água, na USP em São Carlos, em julho/2008.
Em outra frente, Reyes considera que o maior desafio hoje é “melhorar os detalhes e o rigor das contas de capital natural para atender nossas necessidades reais mais relevantes”. Pois, “como em finanças, os governos necessitam uma contabilidade ambiental que permita estimar seu patrimônio ecológico e assim programar o seu uso”. E ainda, é relevante considerar que pelas medidas da pegada ecológica “a partir de 1985 passamos a consumir mais do que o planeta consegue recompor. Hoje, já estamos usando cerca de 20% a mais do que a capacidade de recompor do planeta. O que acontece com a natureza quando se excede à capacidade de renovar-se?”(REYES, 2008).
Ainda na visão de Reyes, a resposta a esta intrigante pergunta requer que seja observado este desafio, em termos das oportunidades a serem obtidas. É preciso uma espécie de “conta corrente no estilo bancário” para a ecologia como se fosse uma parcela do PIB. De um lado, quanta natureza (reservas) tem e do outro, quanto está em uso. É preciso ter um pressuposto ecológico visível, de tal forma que seja manejável. Como nas finanças, necessita- se de um livro de registro dos bens ecológicos para programar seu uso. Que seja uma ferramenta inteligente para o planejamento estratégico, compreendendo o contexto global e os custos de um sobre-consumo. Importa assim encará-la como um desafio à criatividade e não uma receita.
Dar os primeiros passos nesta direção com a definição de um sistema em condições de interagir com as administrações municipais, e estas com os cidadãos, seria uma forma direta de atuação do Tribunal de Contas de Santa Catarina. É pressuposto para a formação de uma rede ambiental em prol de comunidades sustentáveis como sugere Capra (2002).
Nesse sentido, a figura 03, busca ilustrar os procedimentos relacionados ao fluxo de informações e dados ambientais de cada município enviadas ou disponibilizadas periodicamente para o Tribunal de Contas. Note-se que a ilustração busca evidenciar as características diferentes de cada município.
Figura 03 – Fluxo de informações dos municípios para o TCE/SC. Fonte: Imagem produzida pelo autor.
Já a figura 04, torna evidente a necessidade que a administração pública tem de estimular os munícipes para que apresentem informações ambientais no site municipal. Há nele espaço para pessoas, ONGs, Igrejas, Escolas, Associações, Condomínios e para a própria Administração Pública prestar informações periódicas acerca dos projetos e ações que pretendem desenvolver, ou que estejam em desenvolvimento e ao seu alcance.
SITE DO MUNICIPIO
A
ESCOLAS UNIVERSIDADES IGREJAS ASSOCIAÇÕES EMPRESAS CONDOMINIOS ADM. PUBLICA MUNICIPAL ONGs PARTICULARESDEFINIÇÃO DAS INFORMAÇÕES DO MUNICIPIO A
Figura 04 – Site do Município “A”, ligado ao sistema de informações periódicas do TCE. Fonte: Ilustração produzida pelo autor.
É nesse cenário que a participação da administração pública pode fazer a diferença. As ações podem levar a sustentabilidade ou insustentabilidade. No entanto, um monitoramento delas possibilita a prevalência das ações positivas ligadas ao desenvolvimento sustentável. Ou seja, é recomendável que os gestores públicos municipais, enquanto atores do processo de regulação do uso do solo urbano assumam seus papéis e suas responsabilidades em relação à causa ambiental, notadamente na educação ambiental.
Há concordância, embora ainda persista algum tipo de ceticismo, de que a ecologia constitui-se em tema estratégico para a formulação de toda a ação política, sobretudo a política pública, seja no nível internacional, nacional, estadual, municipal ou local. Neste caso, a adoção de indicadores próprios de desempenho ambiental passa a ser um requisito de avaliação da gestão pública, também pelo controle externo.