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O EXERCÍCIO DO PODER NA CONSTRUÇÃO DAS NARRATIVAS DE CLARICE LISPECTOR

4 A LEGITIMIDADE DO ESTADO EAS ENGRENAGENS DO PODER NO COMBATE À DESORDEM SOCIAL: REPRESENTAÇÃO LITERÁRIA E

4.3 O EXERCÍCIO DO PODER NA CONSTRUÇÃO DAS NARRATIVAS DE CLARICE LISPECTOR

A obra de Clarice Lispector é um convite ao mergulho nas camadas mais profundas da alma; é o encontro com uma realidade que, inundada de significações, traz à tona observações acerca de um mundo antes submerso e, muitas vezes, subtraído pelas relações sociais. Essa prática, que faz de Clarice Lispector uma escritora singular e diferenciada, apresenta-se a partir de uma literatura que comunga com uma multiplicidade de vieses que vão auxiliar a compreensão do mundo e das coisas ao nosso redor. Potencialmente, sua escrita compartilha de uma experiência para além do construto teórico, pois, de acordo com Ottmar Ette (2015), ―a dimensão estética da escrita não se limita a ser ornamento, mas é, justamente pelo caráter de inconclusão dos processos de significação que ela desencadeia ou está por desencadear, um

saber sobre a vida que se apresenta sob a forma narrativa‖ (ETTE, 2015, p. 14).

De acordo com Ette (2015), esse saber sobre a vida, desencadeado pelo processo de leitura, atinge dois níveis de compreensão: o saber sobre a vida, no sentido do saber como elemento de sobrevivência; um modo de condução, de prática e apreensão da vida, cerceada por movimentos multi, inter e transculturais que produz nos indivíduos repetidos processos de autorreferencialidade eautorreflexividade, e o saber da vida sobre si mesmo, sintetizado por um saber em meio a vida, viabilizando o saber-sobre-viver em suas mais variadas formas de opressão até as reflexões que abarcam o campo das múltiplas ciências. Nesse sentido, a literatura em sua diversidade de gêneros, funciona como uma mídia interativa de armazenamento dos saberes sobre a vida (ETTE, 2015, p. 14-15). Tal análise caracteriza-se pela forma de atuação da literatura em sua estrutura mais profunda, relacionando a esses

saberes os campos mais complexos, no intuito de ―torná-los acessíveis e frutíferos para o pensamento e o agir de hoje‖ (ETTE, 2015, p. 16) pois,

[...] o saber sobre a vida abre horizontes, questiona limites disciplinares e demanda abordagens transdisciplinares que relacionem o saber acumulado proveniente dos Estudos Literários, das Ciências Sociais, Naturais e da Cultura com a memória sempre dinâmica das literaturas do mundo (ETTE, 2015, p. 22).

Dessa forma, a escrita literária de Clarice Lispector, representada pelas narrativas exploradas neste trabalho, e encerradas em seus aspectos jurídicos, sociais e políticos, rompe com as barreiras da complexidade e da divisão das ciências, em seus processos analíticos específicos, em prol de um saber sobre a vida, objetivando a difusão e a apreensão das relações humanas. Em sua arquitetura, a escritora, consciente de sua necessidade física, afirma escrever para se libertar, e encontra nessa dinâmica os caminhos inconscientes de uma literatura empenhada por sua necessidade, ainda que disfarçada por seu ofício, de colocar em palavras o que ela acreditava não se concretizar em ações. E a escritora deságua:

Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior do que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir ―arte‖, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria ―fazer‖ alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, por mais que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele- e, sem me surpreender não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para nada humano e social por meio de escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não ―fazer‖, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. [...] Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho (LISPECTOR, 1999, p. 29-30).

Ancorada pela virtude inerente da justiça, a escritora, revestida pela leveza e sensibilidade das palavras, cerca-se de sua habilidade para compor narrativas que, mesmo sem nenhuma pretensão, apresenta-se como uma literatura que se coloca à disposição do leitor, possibilitando o seu processo de reflexão ao alcance de um saber sobre a vida. Essa relação, estabelecida pelo exercício da escrita, depara-se com a construção de uma literatura ―ligada a uma outra modalidade do poder‖ (FOUCAULT, 2012, p. 155). O ensaio Observações sobre o

direito de punir, preservando o tom íntimo tradicional, discorre sobre as reflexões da

―reação franca e humana de uma personalidade ante o impacto da realidade‖ (COUTINHO, 2003, p. 118-119). Esse discurso produzido pela observação de atitudes excessivas no direito

de punir denota a especificidade de um gênero de julgamento, caracterizado modernamente

pelo ensaio crítico que atua em suas estruturas interpretativas e expositivas dos estudos crítico- filosóficos, políticos, históricos, entre outros, (COUTINHO, 2003, p.119) pontuando, portanto, uma espécie de literatura que se propõe, através do poder da palavra, problematizar assuntos desalinhados no exercício do Direito Penal.

Por seu caráter informativo, a crônica também faz uso da realidade para conduzir reflexões acerca dos acontecimentos e da própria condição humana. Sendo assim, outra forma de poder circunda as esferas da sociedade, pois, ao contrário do poder que vigia e controla a individualidade humana, essa maneira proporciona a reflexão ante as formas dominadoras do poder. É o poder de um discurso que se propõe a perspectivas que vão além da existência humana por sua capacidade, ou pelo menos tentativa, de compreender e abrigar as relações sob outro olhar; mais justo e mais humanizado. Dessa forma, desde os tempos mais remotos, o veículo informativo, ―a crônica de um homem, o relato de sua vida, sua historiografia redigida no desenrolar de sua existência faziam parte dos rituais do poderio‖ (FOUCAULT, 2012, p. 183), e até hoje continuam exercendo essa função. A visão que se tem da crônica, ainda de acordo com Foucault (2012) é a ―de uma certa função política da escrita, mas numa técnica de poder totalmente diversa‖ (FOUCAULT, 2012, p. 183).

Esse discurso propiciado pela crônica, em Clarice, subverte os conceitos de uma prática vista apenas como um exercício de soberania, resultando na submissão dos corpos em detrimento das práticas positivas incorporada nas relações de poder exercida pelos discursos, principalmente os literários. A observação de Foucault (2012) torna clara a existência de uma vertente do poder, pois,

Temos que deixar de descrever sempre os efeitos de poder em termos negativos: ―ele exclui‖, ―reprime‖, ―recalca‖, ―censura‖, ―abstrai‖, ―mascara‖, ―esconde‖. Na verdade o poder produz; ele produz realidade; produz campos de objetos e rituais de verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele se pode ter se originam nessa produção (FOUCAULT, 2012, p. 185).

É nessa direção que voltamos para a obra de Clarice Lispector, na sistematização de uma produção que tem como objetivo fazer nascer, no interior de cada indivíduo, a consciência de uma literatura que discursa para o conhecimento através de uma escrita política, ainda que não condicionada a essa certeza, mas que se propõe a um discurso positivo de maior completude para a compreensão das relações humanas. Diante desse contexto, é

impossível analisarmos o corpus deste trabalho, ignorando a existência da intrínseca relação entre eles. No âmbito das experiências formais e estéticas, elas transitam pela mesma veia social, política e jurídica, apresentando discussões que se integram e se justificam. Contudo, este fato só é possível se considerarmos a lógica dos estudos memorialísticos, elemento principal que proporcionou a coerência na criação e execução deste trabalho, aliada ao campo das relações humanas e identitárias identificadas na obra como um todo.

5 A ESCRITA DA VIDA: A LITERATURA EM SUAS VERTENTES HISTÓRICAS,