3 MULTIPARENTALIDADE NA FILIAÇÃO
4.2 Exercício do poder familiar
O poder parental deve ser exercido pelos pais em prol dos direitos e interesses
do filho, e gera responsabilidades e tomadas de decisões muito importantes na vida
diária dos menores, pois implica em definir diversas questões como por exemplo:
onde estudar, quais atividades extracurriculares fazer, qual religião adotar, onde
morar, o que comer, o que vestir, quais valores familiares adotar, como administrar o
seu patrimônio caso o filho possua, dentre outras.
Uma vez reconhecido o múltiplo vinculo parental a questão do exercício do
poder familiar se o filho tiver menos de 18 anos, precisa ser delimitada pelo
magistrado de modo a evitar conflitos familiares. Havendo discordância ou mau
exercício do poder familiar por qualquer dos pais, cabe recorrer à autoridade
judiciária para dirimi-los, conforme prevê os artigos 1637 do CC/02 e 21 do ECA.
71Regina Tavares Silva (2016), presidente da ADFAS, demonstra uma grande
preocupação com o reflexo no exercício do poder familiar, pois pondera que devem
surgir graves conflitos entre os dois pais ou duas mães. E reflete que se poderá ter
mais “pais envolvidos em relações concomitantes com o mesmo filho, já que durante
os 18 anos do crescimento de um filho, a sua mãe poderá casar-se ou manter união
estável quantas vezes quiser”, ampliando, portanto a multiparentalidade e seus
reflexos.
O poder familiar gera responsabilidades para todos os genitores como, por
exemplo, exercer a representação do filho nos atos da vida civil até os 16 anos e a
assistência deste até completar maioridade civil com 18 anos. Caberia também ser
curador em caso de ausência ou doença incapacitante, caso não possua cônjuge,
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Art. 1.637 do CC/02: Se o pai, ou a mãe, abusar de sua autoridade, faltando aos deveres a eles inerentes ou arruinando os bens dos filhos, cabe ao juiz, requerendo algum parente, ou o Ministério Público, adotar a medida que lhe pareça reclamada pela segurança do menor e seus haveres, até suspendendo o poder familiar, quando convenha. E Art. 21 do ECA: O poder familiar será exercido, em igualdade de condições, pelo pai e pela mãe, na forma do que dispuser a legislação civil, assegurado a qualquer deles o direito de, em caso de discordância, recorrer à autoridade judiciária competente para a solução da divergência.
companheiro ou descendentes. De igual modo a necessidade de conceder anuência
para habilitação em casamento quando em idade núbil, ou a concessão da
emancipação voluntária (CASSETARI, 2014).
Nos casos de famílias neoconfiguradas, ou mosaico, o exercício do poder
parental simultâneo ou sucessivo (por viuvez, separação ou divórcio) não é previsto
legalmente e exige um grau de maturidade e equilíbrio entre os múltiplos pais ou
mães biológicos e socioafetivos, de modo a propiciar ao filho um ambiente
harmônico e seguro permitindo que livre e equilibradamente desenvolva a sua
personalidade em formação.
Inobstante a lacuna legislativa sobre o tema, tem-se no artigo 1636 do CC/02
72a determinação de que o novo cônjuge ou companheiro (padrastos e madrastas)
não poderão intervir no poder familiar. Ocorre que na prática os padrastos e
madrastas acabam por exercer papéis de educação e criação do infante
doando-lhes amor e serviço, por estarem no dia a dia das suas vivências ao lado do pai ou
mãe biológico, contribuindo para a formação da sua personalidade, inclusive quando
há negligência destas funções por parte dos pais biológicos. Não se trata de simples
afinidade, mas do desenvolvimento de laços mútuos de cuidado e afetividade dos
padrastos e madrastas pelo(a) enteado/enteada.
Catalina Ronchietto (2002, p.223) salienta:
Es evidente que se trata de relaciones de importancia fundamental
em la vida de los menores, máxime si el nuevo matrimonio se
produce, como suele suceder, em su primer infância se prolonga
durante su adolescência.
O desenvolvimento dos papéis paterno e maternos nestas famílias multiafetivas
tende a ser mais denso e complexos, por sua vez mais dinâmicos também. Existe a
necessidade de manter o diálogo aberto e respeitoso com o genitor não guardião
para resolver consensualmente as questões relativas ao(à) filho(a) percebe-se um
partilhar de novos laços de solidariedade e afetividade com os novos parceiros dos
genitores e com os possíveis filhos destes parceiros, na percepção dos “seus, meus
e nossos”, estabelecendo regras de convívio próprias e muitas vezes novas para
todos, já que cada um veio de um núcleo familiar de valores distintos, seja ele
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Art 1.636 do CC/02: O pai ou a mãe que contrai novas núpcias, ou estabelece união estável, não perde, quanto aos filhos do relacionamento anterior, os direitos ao poder familiar, exercendo-os sem qualquer interferência do novo cônjuge ou companheiro.