O exercício financeiro é o período em que as Administrações Públicas, em quaisquer das esferas de governo (União, Estados, Distrito Federal e Municípios) e também suas respectivas autarquias e fundações, realizam as transações próprias em decorrência das funções que lhe são inerentes.
No transcorrer do exercício financeiro, são lançadas, cobradas, arrecadadas e recebidas as receitas de natureza orçamentária, assim como as de natureza extra-orçamentária. Também, são executados os programas de trabalho, autorizados no orçamento anual ou em créditos adicionais, especiais ou extraordinários, formulados para solucionar problemas nas áreas de atuação da administração (empenho e realização das despesas).
O Exercício Financeiro das entidades públicas no Brasil, em razão de ordem legal (art. nº 34, da Lei Federal nº4320/64) coincide com o ano civil, ou seja, vigora de 1º de janeiro a 31 de dezembro, data em que é levantado o Balanço Geral com todos os anexos da lei, a fim de se apurar o resultado da gestão.
2.5.1 Regime Financeiro
O regime financeiro é a metodologia relacionada com os procedimentos de controle escritural-contábil, adaptada às peculiaridades da entidade, adotada para a imputação das receitas e despesas oriundas das transações praticadas em período financeiro, no sentido de determinar o resultado da gestão patrimonial.
Pode-se distinguir dois regimes em que se apóiam os procedimentos contábeis:
2.5.1.1 Regime de caixa
Entende-se como regime de caixa, a metodologia adotada para evidenciar a entrada efetiva do dinheiro no exercício, oriundo de: arrecadação de tributos lançados e cobrados; arrecadação das receitas patrimoniais, industriais, agropecuária e outras de natureza própria; o recebimento efetivo de operações de créditos, realizadas no exercício, com destinação específica; recebimento de transferências efetivas de outras entidades governamentais; recebimento do produto de alienação de bens patrimoniais, amortizações de empréstimos concedidos.
2.5.1.2 Regime de competência
O Regime de Competência, também conhecido como Regime de Exercício ou Regime de Gestão Anual, é a metodologia adotada para a imputação da despesa orçamentária.
Por esse regime, as receitas e as despesas são atribuídas aos exercícios de acordo com a real incidência, isto é, de acordo com a data do fato gerador.
Portanto, com relação às entidades públicas, todas as despesas legalmente empenhadas pertencem ao exercício financeiro do qual se originaram, independente de seu pagamento. Necessário se faz observar que somente são apropriadas no exercício as despesas legalmente empenhadas, entendidas quando:
a) As autorizações para empenho emanem de autoridade legalmente constituída, seja originária, seja derivada;
b) se originarem em leis, contratos, acordos, convênios e outros instrumentos legais;
c) tenham sido previamente autorizadas em lei orçamentária originária ou em créditos adicionais Especiais e Extraordinários;
d) obedecerem ao processo de licitação ou tenham sido dispensadas dessa obrigação;
Assim, todos os empenhos, processados e não processados, contabilizados durante o exercício financeiro, são imputados ao conjunto patrimonial-financeiro como obrigações assumidas pelo Poder Público, resultantes da aquisição de bens e serviços, no período em que é executado o orçamento.
2.5.1.3 Regime financeiro adotado no Brasil
Conforme preceitua o art. nº 35, da Lei Federal nº 4320/64, atualmente, na administração pública nacional, é adotado o regime financeiro misto, tanto para a apropriação das receitas como das despesas orçamentárias.
Da conjugação desses regimes, isto é, do regime de caixa e também do regime de competência, resulta o regime misto, ou seja, para as receitas
efetivamente arrecadadas ou recebidas, adota-se o regime financeiro de caixa e para as despesas legalmente empenhadas no exercício, adota-se o regime financeiro de competência (LEI FEDERAL Nº 4320, 1964)
Cabe ressaltar que para o artigo da Lei acima abordado esclarecimentos adicionais fazem-se necessários, pois desde o ano de sua sanção até a presente data, mais de quarenta anos já se passaram e ocorreram alterações que a presente lei não contempla.
As administrações públicas, Estaduais e Municipais dependem sobremaneira de recursos repassados pela União, esses valores são chamados de transferências correntes.
Destacando nesse contexto apenas os Municípios, estes recebem transferências tanto da União, como é o caso do Fundo de Participação dos Municípios – FPM, recebem também transferências financeiras dos Estados, como é o caso do Imposto sobre Circulação de Mercadorias – ICMS, imposto sobre propriedade de veículos automotores - IPVA, entre outros, tudo conforme define o artigo n° 158, da Constituição Federal.
Também, conforme determina a Legislação vigente, a União e os Estados são responsáveis pela arrecadação de determinados impostos os quais devem ser repassados em data oportuna para os municípios favorecidos, pois lhe são de direito.
Ainda conforme estabelece a legislação em vigor, as receitas arrecadadas pela União, do dia 01 ao dia 10 de cada mês, terão o prazo para remessa aos Municípios e Estados até o dia 20 do mês em curso. As arrecadações efetuadas, do dia 21 ao dia 30 ou 31, terão que ser repassadas até o dia 10 do mês seguinte e, assim sucessivamente.
Inquestionável é o que determina a Lei nº 4320/64 em seu artigo n° 35, quando afirma que: pertencem ao exercício financeiro as receitas nele legalmente arrecadas e as despesas nele legalmente empenhadas.
Se a União Federal arrecadou impostos que pertencerão ao Município e Estados entre os dias 21 a 30 de dezembro e somente repassa esses recursos no ano seguinte (dia 10), a contabilização desses valores encontra-se equivocada, sendo óbvio que o regime de caixa adotado nesse momento pela contabilidade pública não poderá ser usado, ou se usado, fere-se os princípios da prudência (CFC) e a convenção do conservadorismo (IBRACON).
É inquestionável o fato de que nem o Município e nem o Estado recebeu os recursos da União ainda, mas esta já os arrecadou, porém não os repassou, ou seja, não enviou os valores arrecadados nem para os Municípios e nem para os Estados.
A Portaria n 447/02 da Secretaria do Tesouro Nacional já considerava a necessidade de “compatibilização” do registro das receitas e despesas orçamentárias da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, por ocasião do encerramento de cada exercício financeiro, objetivando a consolidação das contas públicas exigidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal.
A solução editada pela Secretaria do Tesouro Nacional, deve ser adotada para que a contabilidade venha a refletir sobre a mais perfeita realidade.
No ano de 2005, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná, editou um procedimento específico e norteador para os Municípios pertencentes a sua jurisdição (Instrução Técnica n 38), sendo que todas as Prefeituras do Estado do Paraná deveriam adotar esses preceitos, para julgamento das contas dos entes públicos, conforme se observa no texto do documento emitido por aquela Egrégia Corte de Contas.
Artigo 1º - Considerada a determinação proveniente do inciso I, do artigo 35, da Lei nº4320/64, segundo a qual pertencem ao exercício financeiro as receitas nele arrecadadas, para o encerramento contábil do exercício de 2004, ficam estabelecidas as regras constantes desta Instrução, relativamente à escrituração de Restos a Receber e Restos a Receber de Interferências Financeiras.
Artigo 2º - Considerada sob a ótica macroorçamentária a arrecadação ocorrida e perfeitamente acabada, dentro do exercício de 2004, de receitas cuja titularidade pertence os Municípios, em que o Órgão arrecadador atua como agente centralizador e redistribuidor, os municípios contabilizarão como receitas do orçamento de 2004 as parcelas que venham a ser financeiramente entregues a estes no mês janeiro de 2005.
Parágrafo único – Citam-se, como casos exemplificativos de Restos a Receber, a arrecadação ocorrida no orçamento de 2004 dos seguintes fundos de participação, com cotas pertencentes aos municípios:
(a) do ICMS;
(b) FPM e
(c) Transferências de Recursos do FUNDEF.
Conforme essa instrução técnica, ao final de cada exercício financeiro, o procedimento deverá ser novamente adotado. As soluções para as contabilizações
dos recursos financeiros foram sanadas, pois tal medida impõe a contabilização desses valores como receita orçamentária (mesmo ainda não recebida efetivamente em caixa pelos Municípios tendo como contrapartida com as contas de compensação), porém o princípio da realização da receita que norteia a ciência contábil, foi ferido em sua essência.
Tomando-se esse exemplo para evidenciar o grau de complexidade da contabilidade direcionada à área pública, e para a contabilização das receitas orçamentárias, durante o exercício financeiro foi utilizado tanto o regime de caixa como também o regime de competência.
Com base nesse procedimento, é possível afirmar que os valores totais informados nos sítios oficiais dos órgãos repassadores de recursos aos Municípios, tais como o FPM, IMCS entre outros, não coincidirá com os valores constantes nas receitas contabilizadas pelos próprios Municípios. Nesses sítios eletrônicos, os valores estarão constando como valores repassados durante o exercício financeiro para o Município e não os valores efetivamente arrecadados durante o ano, ao passo que no Município recebedor desses recursos a situação será inversa, razão pela qual a diferença será evidente.