4 OBJETIVOS E EXERCÍCIO DA GUARDA COMPARTILHADA
4.3 Exercício da guarda compartilhada
A rigor, não existe na guarda compartilhada um arranjo padrão. A melhor forma de exercício da guarda compartilhada é aquela que possibilita o maior contato das crianças com seus pais. O exercício desse arranjo deve convergir para o atendimento dos interesses do bem- estar, educação, saúde e desenvolvimento saudável dos filhos. Apesar de livre, seu exercício deve ser organizado em favor da criança e calcado na responsabilidade de seus pais.
Antes de discorrer acerca das possíveis modalidades do exercício da guarda compartilhada, é importante evidenciar a distinção da guarda legal e da física, haja vista que nem sempre coexistem. A primeira diz respeito à responsabilidade dos pais de decidirem as questões pertinentes a seus filhos, educando-os, vigiando-os e deles cuidando. A guarda física, por outro lado, é a presença do menor na residência dos pais.
Neste particular, deve ser ressaltada a diferença entre lar e residência (casa), tendo o primeiro um significado que vai muito além da residência física. O sentido de lar está diretamente relacionado com a convivência que se estabelece com as pessoas que residem em um determinado espaço físico. A casa pode ser de praia, pode ser da cidade, pode ser de férias, e tem o sentido de transitoriedade. Por outro lado, os vínculos com o lar são
construídos com a convivência, sendo o porto seguro dos que nela ocupam espaço e têm laços afetivos.
4.3.1 Guarda compartilhada com alternância de lares
Apesar de ambos os pais assumirem em conjunto a tomada de decisões nas questões correspondentes aos filhos, há a possibilidade de alternância da guarda física. As crianças terão dois lares e dois núcleos familiares.
A maioria dos doutrinadores e a jurisprudência têm admitido que a constante troca de lares acarreta problemas psicológicos para as crianças, em prejuízo da necessária estabilidade para seu desenvolvimento, sob o fundamento da perda de referencial da criança. A necessidade de constantes adaptações a dois modos de vida diferentes refletiria, pois, negativamente na formação de personalidade dos menores. Esse é o entendimento de Eduardo de Oliveira Leite71, “a residência é única e não alternada, evitando assim o sentimento de insegurança e instabilidade que a guarda alternada instaura junto a crianças submetidas a este regime de guarda”.
Discordando deste posicionamento, o psicólogo Evandro Luiz Silva72, acompanhando crianças que vivem o modelo da guarda compartilhada com alternância de casas, constatou a facilidade e a boa adaptação das crianças para construírem vínculos com os dois lares. Na sua pesquisa, os pontos foram positivos, na medida em que a criança convive com ambos os pais e estes, por sua vez, dividem os cuidados e afetos com seus filhos, diminuindo a discórdia entre eles. O reencontro com cada cuidador daria à criança a segurança de que precisa e o bem-estar.
Nesta modalidade, a alternância é apenas de casas. Em rigor, não há a perda do referencial de lar. Pelo contrário, os vínculos com os dois lares seriam fortalecidos, haja vista a constância a ser estabelecida com seus habitantes.
Por outro lado, convém ressaltar que os vínculos que não podem ser perdidos, sob pena de se causar prejuízos emocionais para os filhos, não é com a casa, mas com os pais. Isto
71 LEITE, Eduardo de Oliveira. Famílias monoparentais: a situação jurídica de pais e mães separados e dos
filhos na ruptura da vida conjugal. 2. ed. rev,, atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003. p. 271.
72 SILVA, Evandro Luiz. Guarda de filhos: aspectos psicológicos. In: GUARDA compartilhada: aspectos
psicológicos e jurídicos. Organização Associação de Pais e Mães Separados. Porto Alegre: Equilíbrio, 2005. p. 23.
porque, como já dito, os vínculos com uma casa são passageiros e facilmente estabelecidos, porém os vínculos com o lar são construídos pouco a pouco com a convivência em família.
Com efeito, o mito de um único referencial de casa não pode ser impeditivo na relação dos pais com seus filhos. Se seus pais têm casas separadas, conseqüentemente, os filhos terão duas casas e isso nenhum prejuízo trará para eles. Prejuízo emocional terá a criança que não conviver com seus pais.
Neste particular, é imprescindível enfatizar que as crianças têm uma facilidade enorme de se adaptar às novas situações, aos novos ambientes. Tanto isso é verdade que, logo cedo, recomenda-se a inserção das crianças em novos ciclos sociais, a exemplo da escola, das creches, dos clubes esportivos. Para o bom desempenho nestes novos grupos, a criança precisa se sentir segura nas relações com seus pais, o que somente será possível se conviverem com eles. Sentindo-se seguras nas relações com seus pais, as crianças sentir-se-ão seguras nas casas deles e em qualquer outro ambiente.
Não obstante isso, a guarda compartilhada com alternância de lares apenas se concebe quando os pais moram na mesma cidade, a fim de que os vínculos com a escola, com a comunidade e com os costumes não sejam rompidos.
A guarda compartilhada com alternância de lares é uma prática crescente, apesar de desconhecida dos tribunais, como bem enfatiza Evandro Luiz da Silva:
São dados que ficam no âmbito do consultório de psicologia, ou que nem chegam a esse, sendo resolvidos pelos próprios pais, num arranjo que eles entendem funcionar bem, porém, sem abrir mão da convivência com os filhos. São casais que conseguiram ultrapassar as desavenças conjugais, separando-as dos filhos. Que optaram pela separação para terem uma melhor qualidade de vida, e não para entrarem num campo de batalha73.
4.3.2 Guarda compartilhada com residência fixa
Os doutrinadores e a jurisprudência pátria têm tendência para adotar com mais facilidade a guarda compartilhada com residência fixa para a criança, ou seja, admitir a guarda compartilhada legal. Um teria a guarda física e ambos, a guarda jurídica dos filhos. Mantêm-se as responsabilidades de ambos os pais na tomada de decisões das questões
73 SILVA, Evandro Luiz. Guarda de filhos: aspectos psicológicos. In: GUARDA compartilhada: aspectos
psicológicos e jurídicos. Organização Associação de Pais e Mães Separados. Porto Alegre: Equilíbrio, 2005. p. 23.
relativas à educação, saúde, lazer dos filhos, porém com residência única do filho com um dos pais.
Em conformidade com Maria Clara Sottomayor74, estatísticas em países com experiência na adoção da guarda conjunta revelam que o modelo predominante é o exercício conjunto do poder parental com residência fixa de um dos pais.
Para a fixação da residência do filho, é indispensável o entendimento do casal, a fim de que a discórdia entre eles não prejudique o desenvolvimento saudável da criança e o seu relacionamento com ambos os pais. O respeito mútuo dos genitores também é essencial para que a criança não desenvolva o sentimento de culpa em relação à separação do casal. A disposição ao diálogo, a flexibilidade, são condições para que qualquer arranjo seja bem- sucedido, especialmente quando apenas um deles detém a guarda física dos filhos.
A fim de que o melhor interesse do menor seja concretizado, o juiz, constatando que os pais não oferecem um ambiente sadio aos filhos, pode fixar o domicílio da criança na residência de um terceiro, a exemplo dos avós.
Esta modalidade exige seja estabelecida a visitação para o genitor não-residente. O ideal é que seja o mais flexível possível, com o mínimo de regras preestabelecidas, a fim de que não prejudique o convívio dos filhos com o pai não-residente. É preciso que a criança sinta que, apesar de não residir com um dos pais, é amada e cuidada por eles, impedindo, por outro lado, que se sinta abandonada.