1 ORDENAMENTO JURÍDICO E AS FORMAS ALTERNATIVAS DE
1.4 FORMAS ALTERNATIVAS DE TRABALHO NA LEGISLAÇÃO
1.4.3 Legislação Infraconstitucional no Tratamento do Empreendedorismo
1.4.3.2 Exercício individual da atividade empresarial
Como visto, é possível que um único indivíduo exerça a atividade de empresa. Este indivíduo poderá optar por três regimes jurídicos distintos: empresário individual propriamente dito; da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI); e da Microempresa (ME), o que também abrange a subespécie de Microempreendedor Individual (MEI).
Muito do empresário individual propriamente dito já foi analisado, pelo estudo dos artigos 966 a 980 do Código Civil. Como já dito, a ME (Microempresa) e MEI (Microempreendedor Individual) serão abordados no capítulo 3, de sorte que neste subitem, apenas é necessário compreender que pessoas físicas podem exercer a atividade de empresa e gozarem de facilidades para a abertura e pagamento diferenciado de tributos. Apenas para que o cenário se complete quanto à compreensão do empreendedor individual, aborda-se alguns aspectos relativos à EIRELI (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada).
A EIRELI36 foi incluída no artigo 980-A do Código Civil, por meio da Lei nº 12.441/2011, que tinha por objeto formalizar microempreendedores individuais informais e evitar a criação de sociedades fictícias, em que um dos sócios é detentor de 99% das cotas e outro de 1%, apenas para limitar a responsabilidade em caso de dívidas. Para tanto, inseriu-se no Código Civil uma espécie de nova pessoa jurídica, a qual se difere tanto das sociedades, já que possui apenas um indivíduo como sócio -apenas uma pessoa é detentora da totalidade do capital registrado -, como do empresário individual, já que a pessoa jurídica e pessoa física possuem patrimônio distinto (MAMEDE, 2018, p. 231).
Se o propósito era facilitar a inclusão dos empreendedores informais e limitar a responsabilização, tal intento desvirtuou-se. Isso porque há, entre a apresentação do Projeto de Lei e sua aprovação, a inserção do requisito de um capital social não inferior a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo vigente no país, o qual deveria
responderá primeiramente com os bens vinculados à exploração de sua atividade econômica, nos termos do art. 1.024 do Código Civil”.
36 É importante ressalvar que na doutrina prevalece o entendimento de que a EIRELI não se trataria do exercício individual da empresa, ao mesmo tempo que não corresponderia ao exercício da sociedade, tratando de uma pessoa distinta de ambos. Aliás, tal perspectiva está sedimentada nos Enunciados 469, V da Jornada de Direito Civil e Enunciado 3 da I Jornada de Direito Comercial, bem como pode ser ratificada ao ter sido incluída entre as espécies de pessoas jurídicas no Código Civil (TOMAZETTE, 2017, p. 95)
estar totalmente integralizado antes do início da atividade (art. 980-A do CC) – realizado por meio de bens ou dinheiro-.
Esse requisito impede que muitos dos pequenos empreendedores possam se formalizar. Por isso, ajuizou-se a ADI 4637, no bojo da qual se questiona a validade da vinculação do capital social a um montante de salários mínimos. Tal ação ainda se encontra em tramitação no STF37, de forma que o referido artigo continua vigente e, não fosse isso, reforçado pelo Enunciado nº 4, da I Jornada de Direito Comercial, do Conselho de Justiça Federal38.
Ainda, é importante notar que a EIRELI se rege, subsidiariamente, pelas regras relativas às sociedades limitadas, de sorte que a responsabilidade da EIRELI limita-se ao capital social de no mínimo 100 (cem) vezes o maior salário mínimo, o que advém da percepção de que a limitação da responsabilidade é essencial para a boa gestão da atividade de empresa.
Contudo, é consenso na doutrina39 a possibilidade de desconsiderar a personalidade jurídica da EIRELI, o que não ocorre apenas nos casos do artigo 50, caput, do Código Civil - teoria maior, já que pautada em atos como desvio de finalidade e confusão patrimonial-, mas também de forma objetiva, sempre que a personalidade for empecilho para o adimplemento do crédito, conforme previsto no Código de Defesa do Consumidor - teoria menor (TOMAZATTE, 2017, p. 102).
Além disso, a EIRELI pode adotar como nome empresarial tanto a firma, obrigatória para empresários individuais; como a denominação, comumente usada em empresas de cotas (MAMEDE, 2018, p. 22)40.
37 STF, ADI 4637/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, consulta da tramitação disponível em:
http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp?numero=4637&classe=ADI&origem
=AP&recurso=0&tipoJulgamento=M.
38 Brasil. Enunciado nº 4 da I Jornada de Direito Comercial do CJF: “Uma vez subscrito e efetivamente integralizado, o capital da empresa individual de responsabilidade limitada não sofrerá nenhuma influência decorrente de ulteriores alterações no salário mínimo”.
39 Pode-se fazer tal afirmação, levando-se em consideração o contido no Enunciado nº 470, da V Jornada de Direito Civil: “o patrimônio da empresa individual de responsabilidade limitada responderá pelas dívidas da pessoa jurídica, não se confundindo com o patrimônio da pessoa natural que a constitui, sem prejuízo da desconsideração da personalidade jurídica”. Disponível em:
https://www.cjf.jus.br/enunciados/enunciado/456. Acesso em 15 de julho de 2018.
40 O nome empresarial serve para a identificação do empresário, podendo ter a modalidade de firma social ou individual; e denominação. A firma é a modalidade usada para designar os empresários com responsabilidade ilimitada, enquanto a denominação designa os empresários de responsabilidade limitada. Ao se adotar a firma individual, o nome seguirá a regra contida no artigo 1156 do Código Civil, isto é, terá o nome civil completo ou abreviado, que poderá ser seguido ou não do ramo de atividade. Assim, uma EIRELI poderia ser nomeada de Fulano da Silva EIRELI, ao adotar a firma. Já a denominação serve, em regra, para sociedades com sócio de responsabilidade limitada, sendo nomeado por meio de expressão linguística que designe o objeto social, sendo um exemplo de uso Soluções de Indústria Eletrônica EIRELI (JUNTA COMERCIAL DO PARANÁ, 2018).
Por seguir as regras das sociedades limitadas, a EIRELI pode atuar em qualquer setor da economia, ter como único sócio uma pessoa jurídica ou, até mesmo, constituir uma holding (MAMEDE, 2018, p. 23).
É importante notar que ainda que haja na doutrina quem afirme a inexistência de óbices para que a EIRELI opte pelo tratamento diferenciado do Simples Nacional, na qualidade de MEI, tal posição não é encampada no âmbito administrativo (PORTAL DO EMPREENDEDOR, 2018). Isso porque apenas se admite que o MEI seja requerido por uma pessoa física, na qualidade de empresário individual. Além disso, limites de receita brutas para fazer jus ao tratamento diferenciado do MEI demonstram não ser condizente com a adoção da EIRELI, ante ao montante de capital que terá de ser despendido para o início das atividades, em relação ao faturamento que pode ser obtido (CHAGAS, 2014, p. 70)
O presente capítulo demonstrou que, de fato, formas alternativas individuais e coletivas são reconhecidas no ordenamento jurídico, tanto em razão de normas internas, como na Constituição Federal; como de atos normativos de âmbito internacional, como Resoluções e Recomendações da OIT.
Do conteúdo abordado, não parece haver a indicação de primazia entre uma forma ou outra, sendo apenas tratadas como alternativas para o trabalho assalariado, para o desenvolvimento econômico e diminuição da desigualdade social, de modo que devem ser contempladas por meio de políticas públicas.
É claro, todavia, que a economia solidária goza de menor proteção legal, ao não possuir regras próprias, sendo-lhe indicadas regras que impõe um nível árduo de burocracia e custo, como as indicadas às cooperativas - incompatíveis para a maior parte dos empreendimentos solidários, já que geridos por pessoas marginalizadas e de baixo poder aquisitivo.
No capítulo que se segue, as formas alternativas ao trabalho assalariado serão abordadas sob a perspectiva da doutrina, a fim de se compreender de que forma o paradigma individual se difere do paradigma coletivo, em relação à história, objetivos, organização e princípios.
2 FORMAS ALTERNATIVAS INDIVIDUAIS E COLETIVAS AO TRABALHO