3.9 Princípio do Contraditório Mitigado e Exercício do Direito de Defesa
3.9.4 Existência de dialética por vias oblíquas
A existência mitigada do exercício de defesa no instrumento que materializa a investigação preliminar policial foi demonstrada, entretanto, neste tópico será analisada a ocorrência de uma dialética que nasce das atividades de investigação documentadas no inquérito e que se realiza paralelamente ao procedimento administrativo, na esfera judicial, porém, influindo decisivamente no rumo das diligências e no futuro da investigação, podendo interrompê-la ou definitivamente encerrá-la.
É de nosso entendimento que esse fato ocorre quando da interposição da ação de mandado de segurança41 ou da ação de habeas corpus42.
Inicialmente é verdade que na ação de mandado de segurança o autor pleiteia a concessão de segurança a fim de realizar o direito que acredita ter e que lhe seja líquido e certo e de que foi impedido de exercer. Todavia, como o ordenamento jurídico prevê, a autoridade tida como co-autora será intimada a prestar no prazo de 10 dias, as informações acerca do ato que praticou e é contestado pelo impetrante. Geralmente no caso da investigação preliminar via inquérito, tal ocorre na não restituição de coisas apreendidas ou arrecadadas, relacionadas à infração penal seja como instrumento de sua prática (instrumenta sceleris43) ou produto ou provento auferido em razão do crime (producta sceleris44).
Por conta da ação de mandado de segurança, a autoridade policial que preside o feito deverá informar ao juízo, quais as razões que a levaram a praticar o ato e a negativa de atendimento à reivindicação do interessado pela devolução dos objetos que alega ser de sua propriedade.
Não se pode deixar de constatar, ainda que por via oblíqua ou paralela à investigação preliminar no inquérito policial, uma espécie de lide, posto que, a autoridade (fundamentadamente ou não) retém a coisa e o investigado insiste em
41 Lei Federal 12016 de 7 de agosto de 2009;
42 Código de Processo Penal, art. 647 a 667;
43 Instrumento do crime;
44 Produto do crime;
reavê-la se socorrendo da esfera judicial diretamente ou depois de ter indeferida essa pretensão pela via administrativa nos autos da investigação.
Em caso de deferimento da pretensão, por meio de concessão de liminar ou não, a autoridade judiciária determinará a liberação dos objetos mediante recibo, contudo, negada a segurança ao impetrante e ratificada a legalidade do ato praticado, o feito da investigação segue seu trâmite até a conclusão.
Outro exemplo, data máxima vênia, trata-se da ação de habeas corpus, tanto na sua modalidade preventiva quanto suspensiva.
No primeiro caso, no curso da investigação via inquérito policial, antevendo a iminência de ser formalmente indiciado nos autos, até então o investigado que era apenas suspeito, utiliza o citado remédio constitucional para obter o trancamento do feito, obstando seu curso e se livrando daquilo que considerava um constrangimento ilegal.
De outra parte, o cidadão já indiciado, crendo que houve indevida privação de sua liberdade, lança mão desse meio para suspender a coação que reputa ilegal e mesmo subsidiariamente, caso não consiga o trancamento do inquérito policial, uma vez em liberdade, obtenha salvo conduto até o desfecho final do caso.
A autoridade policial em qualquer dos casos de impetração de habeas corpus em sendo a ação aceita pelo Estado-Juiz, figurando como autoridade coatora ou impetrado (a), prestará as informações necessárias, no prazo de 48 horas, esclarecendo os fatos e fundamentando a prática do ato atacado e a justa causa que o reveste.
Em ambos os casos, o presidente da investigação preliminar policial prestará informações sobre seus atos à justiça, em razão do questionamento, inconformismo, exercício de direito de defesa e das prerrogativas que o investigado/indiciado entende violadas.
Caso a autoridade judiciária competente entenda pela procedência dos pedidos do investigado nas ações impetradas, os efeitos podem ser desde a mera
interrupção do curso da investigação ou sua extinção, com o trancamento do inquérito e a soltura do cidadão preso.
Dessa análise se extrai que o inquérito policial, mesmo quando sofre influência direta de decisões judiciais exaradas em processos autônomos, porém, versando sobre temas que lhe são conexos, cumpre seu papel de instrumento de justiça criminal.
Obliquamente a autoridade policial, em razão da provocação do investigado em pleno exercício do seu direito de defesa, age como magistrado, não como parte e assim, instrui os autos e expõe os fatos ao juízo.
4 O PAPEL ATUAL DO INQUÉRITO POLICIAL NA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL
Atualmente em plena vigência do Estado Democrático de Direito, onde as instituições políticas desempenham cada qual sua missão reservada pela Carta Magna, não se pode olvidar que cada vez mais o sistema processual penal se conforma na atenção e no cumprimento das diretrizes expostas nos documentos internacionais de direitos humanos, aos quais aderiu o soberano Estado brasileiro.
Nesse quadro, o inquérito policial, diferentemente do que era em seus primórdios, teve significativamente atenuadas suas características inquisitivas, quando o cidadão que nele outrora figurava apenas como alvo ou mero objeto de investigação, passa a ser tratado como um sujeito de direitos e o presidente do feito, ou seja, a autoridade policial desponta como o primeiro garantidor dos direitos fundamentais do investigado.
Obviamente, o inquérito policial mantém sua finalidade na colheita dos indícios e provas da infração penal e na identificação do autor, que se imputável, poderá ser responsabilizado na esfera competente, na medida de sua culpabilidade.
Daí que a investigação criminal via inquérito policial, desempenha importante papel de filtro evitando açodamento em temerárias acusações e, por conseguinte, violações de direitos constitucionais, as quais maculam por completo a busca por um processo criminal justo.
Atualmente cumpre ele esse papel e se ajusta às mudanças ocorridas no cenário constitucional e o exemplo vem da Polícia Civil do Estado de São Paulo com a edição da Portaria DGP- 18 de 25 de novembro de 199845, por sua Delegacia Geral de Polícia, cujo diploma administrativo “dispõe sobre as medidas e cautelas a serem adotadas na elaboração de inquéritos policiais e para a garantia dos direitos da pessoa humana”.
45 Publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo de 27 de novembro de 1998;
4.1 Críticas à Manutenção do Inquérito Policial: Análise dos Principais