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Existência de duas tensões dilemáticas na narrativa de Chuva Braba

2. Análise diegética de Chuva Braba

2.5. Existência de duas tensões dilemáticas na narrativa de Chuva Braba

Percebe-se que a proposta de nhô Joquinha ao afilhado apenas é o fator desencadeador do conflito instalado no ânimo da personagem de Mané Quim, despertando o querer bipartido (ou dilema partir-ficar) no jovem, tensão dilemática progressiva que aparentemente se dissolverá no instante da decisão inesperada do protagonista em partir para Porto Novo. Observa-se que, em nosso entendimento, a destruição do Ribeirãozinho do jovem, arquitetada por nhô Joquinha e realizada por Zé Viola, vem a ser a motivação da inesperada e abrupta decisão de Mané Quim em aceitar a proposta de nhô Joquinha, indo de encontro ao seu real desejo e apego telúrico e, por outro lado, satisfazendo a vontade de seu padrinho.

Após um longo diálogo entre nhô Joquinha e nha Joja, onde ambos, antigos amigos, rememoram o passado, o padrinho de Mané Quim procura convencê-la de que o jovem deve partir para o Brasil. Neste momento, o rapaz chega à casa, comentando os estragos feitos no Ribeirãozinho e, já impaciente com a presença de nhô Joquinha, decide inesperadamente aceitar a proposta de seu padrinho:

Quando Joquinha tomou a palavra, preparando-se, para um longo discurso – começara por dizer: “Ora sim ...” – Mané Quim interrompeu-o:

- Não é preciso mais histórias – disse, com impaciência e entonação decisiva. Eu vou com padrim. – Repetiu: Vou com o padrim; não é preciso mais histórias (LOPES, 1965, p. 174).

Entretanto, na segunda parte do romance, o ciclo conflituoso se inicia novamente para o herói, pois se sentindo completamente deslocado no novo ambiente litorâneo, sua aflição e dilema interior recomeçam. Soma-se a esta sensação de estranhamento do protagonista quanto ao novo local em que se encontra, a confissão que seu padrinho lhe faz sobre a destruição do Ribeirãozinho, provocando no jovem uma profunda decepção e tristeza. Instala-se um novo clímax na narrativa com a decisão definitiva de Mané Quim em retornar

para sua terra natal, tendo, dessa vez, como elemento desencadeador a chuva forte que cai em Porto Novo.

Assim como na primeira parte da narrativa de Chuva Braba, onde o clímax da narrativa ocorre após a tensão diegética presente no longo e denso diálogo entre as personagens de nha Joja e de nhô Joquinha, esta segunda parte também tem seu ponto culminante no momento posterior a um intenso diálogo entre nhô Joquinha e Mané Quim. Com a forte chuva que cai em Porto Novo, Mané Quim toma coragem para manifestar sua decisão final a seu padrinho, contrariando-o e deixando-o inconformado com a sua atitude:

- Vou voltar pra minha Ribeira.

- Bem. Ouve o meu conselho, não vás nada. É tolice crassa. Não sabes o que estás a pensar. Não deixes te enganar por um aguaceiro passageiro. E deixa dizer mais: são estas demonstrações, estes fingimentos de água, que têm trazido mais desgraça ao povo. Vocês acreditam muito depressa no que os olhos vêem. Não vais voltar para trás nada.

- Eu vou sim, vou voltar pra minha Ribeira.

- Que valor tem uma chuvinha destas para a vida dum homem, rapazinho? Que valor tem, me dize? A vida não é só isso, não é só um aguaceiro que passa. Sim, que valor tem um aguaceiro para a vida dum homem?

Que valor tinha a água que estava caindo sobre a ilha?! Não compreendia o padrinho. Então ... Mas a chuva não significava tudo? Eram as nascentes a transbordar como mamas de vaca parida de fresco, era o milho a despontar na ourela das casas e nos imensos sequeiros do Norte, era a erva nova nos campos ... (LOPES, 1965, p. 249).

Na primeira parte da narrativa, o querer bipartido que aflige a personagem principal é aparentemente solucionado com a ideia de partir para o Brasil com seu padrinho, propósito este que, por não expressar o verdadeiro desejo de Mané Quim, não elimina a sua inquietação já anteriormente presente em seu íntimo:

Mas Mané Quim não levava a paz consigo. Acompanhava-o o desassossego e uma indizível ansiedade, uma sensação de culpa como se tivesse sido forçado a contribuir para um acto criminoso, acto esse que o privasse, ao mesmo tempo, dum bem indispensável. Ia apatetado, desorientado, o padrinho enchera-lhe a cabeça de tribulações (LOPES, 1965, p. 23).

Na segunda parte da narrativa, a chuva assume um papel fundamental na decisão do protagonista, reforçando o seu vínculo telúrico e suprimindo sua angústia, seu querer bipartido. Assim, a chuva renova a esperança em tempos de fartura, sendo a “água o grito natural insubmisso da consagração do telurismo, factor primeiro da congregação dos homens, da sua ascensão plural à dignidade da cidadania” (BAPTISTA, 2007, p. 191).

Importante observar o valor da chuva para o cabo-verdiano. Deve-se ressaltar que a vinda salvadora da chuva na narrativa representa a importância que esta possui para o povo das ilhas, o qual se convence de que “havendo chuva regular todos os anos não precisa de

mais nada: nem do Governo, nem da ajuda externa, pois estarão asseguradas as colheitas, o alimento e a água durante todo o ano, não só para a população, como também para os animais” (SPÍNOLA, 1998, p. 50-51).

Logo, a chuva para o homem cabo-verdiano possui um inestimável valor, em torno da qual residem todas as esperanças e anseios de um povo marcado pelas secas e pela fome, sendo que “a chuva nada mais é para o cabo-verdiano senão a seiva da vida, o âmago da razão do seu estar no mundo. É o meio supremo pelo qual consegue chegar à felicidade, almejada por todos, daí constituir-se no depositário de todo o seu sonho e esperança” (SPÍNOLA, 1998, p. 51).

Ainda no tocante ao papel essencial da chuva no cotidiano do arquipélago, Amilcar Cabral registra entusiasmadamente que, em setembro de 1949, finalmente as chuvas chegaram ao arquipélago após longos quatro anos de ausência:

Sim. As chuvas, depois de longa ausência, regressaram, abundantes e prometedoras. Êste facto, para Cabo Verde, tem um significado transcendente, isto é, que ultrapassa o mero significado meteorológico que poderá ter numa ou noutra terra, onde a sua ausência não implica a perda de vidas humanas (CABRAL, 1949, p. 7).

Por último, a título de conhecimento, convém mencionar que, neste mesmo periódico em que houve a publicação do artigo de Cabral (Boletim de Propaganda e Informação), a vinda das chuvas nas ilhas foi registrada como acontecimento de grande repercussão em Cabo Verde. Sob o título “Chuvas abundantes em todas as ilhas”, a nota exemplifica a surpresa de todos com as chuvas fortes, noticiando que “após cinco anos seguidos de secas, de que resultaram gravíssimos prejuízos para a economia da Colónia, chegam, finalmente, notícias de todas as ilhas informando de chuvas abundantes” (BOLETIM DE PROPAGANDA E INFORMAÇÃO, ano I, n. 1, out. 1949).

Conclui-se, portanto, que a tensão dilemática da narrativa de Chuva Braba gira em torno de um único conflito, o querer bipartido, que, especificamente, no caso da personagem principal, é traduzido em “querer ficar e ter de partir”, provocado pela proposta inicial de nhô Joquinha. Este conflito possui duas facetas: tem por oponente imediato o padrinho “brasileiro” do jovem, como exteriorização do dilema partir-ficar, e tem como oponente mediato a própria indecisão do protagonista. As duas decisões completamente antagônicas de Mané Quim – primeiramente resolvendo partir com nhô Joquinha e depois tomando a resolução de voltar para Ribeira das Patas – são a exteriorização deste dilema que acompanha a personagem principal por toda a narrativa.