O SACRIFÍCIO DA CARNE PELA PUREZA DIGITAL¹
6. Existência insípida e vertigem dos corpos dopados
No momento em que triunfam os corpos dopados e os humores administrados artificialmente vivemos sob o signo de um outro tipo de excesso: o de milhares de pessoas contentemente anestesiadas diante das dificuldades da vida. Talvez esta seja a principal consequência da dominante medicalização da sociedade contemporânea. A dopagem, ao invés de oferecer novas possibilidades, parece aniquilar as perspectivas para as existências.
Nasce, assim, toda uma cultura psicológica baseada na realização imediata e artificial dos desejos, onde cada um é incitado a colocar no pedestal o paraíso, jamais ameaçado, do seu bem-estar pessoal, garantido pela tutela farmacológica.
O eufórico consumo de medicamentos objetiva uma vida menos frívola, estressante, apreensiva. É preciso passar pelas dificuldades, inseguranças e desgraças sem ser minimamente afetado por elas. As dores, agonias e insatisfações não nos pertencem mais, afinal vivemos sob os efeitos milagrosos da ciência farmacêutica que nos adormece diante de tudo aquilo que pode promover dissabores cotidianos. No contexto da felicidade total cada um é estrategicamente convocado ininterruptamente à responsabilidade de gestar quimicamente o seu contentamento pessoal. Quanto maiores são os apelos para a dopagem dos sujeitos menores e escassas são as políticas públicas e os processos educacionais para a promoção social do bem-estar coletivo.
Nada mais contemporâneo do que a completa intolerância às asperezas existenciais, por menores e insignificantes que sejam. Entretanto, não é fácil se livrar delas. As decepções nos cercam por todos os lados. As incertezas e precariedades na vida pessoal e profissional se multiplicam. A existência se torna cada vez mais insípida, especialmente nas metrópoles, e sobram motivos sociais, políticos e econômicos para desesperanças. Em contextos assim não é difícil pessoas fazerem avaliações negativas da vida e de si mesmas e, muitos menos, se sentirem amargas. Quanto mais os problemas existenciais se aprofundam a dopagem aparece com solução inquestionável e continuada. Mas justamente ai, onde os problemas parecem desaparecer no paraíso da medicalização progressiva, as vertigens dos sujeitos dopados também se aceleram.
Dentre os muitos esvaziamentos da vida atual está a descrença acentuada na política, na capacidade de organização social e na educação para reivindicar melhorias e soluções de problemas que dificultam, atrapalham e infernizam a vida das pessoas. Cada vez mais destituídas do poder de organização coletiva sobra a sensação de fracasso individual.
Cada indivíduo e somente ele passa a ser responsabilizado pelos seus tormentos. E quanto maior é a sensação de impotência, coletiva e individual, mais a depressão, o estresse e a ansiedade devoram os sujeitos, principalmente num mundo onde a competição acirrada não poupa ninguém. A vulnerabilidade da existência é inseparável da degradação da auto-estima.
Quando os desapontamentos, desorientações e aflições se multiplicam a dopagem é sedutoramente oferecida não como solução das dificuldades, reais ou imaginárias, enfrentadas diariamente, mas como desvio e fuga diante das decepções. Como cada um individualmente já não pode “dar conta” de si, o anestesiamento passa a ser praticamente a
E d v a ld o S o u z a C o u to
única maneira de ser docilmente feliz.
Tradicionalmente as pessoas experimentavam a felicidade ao reagir às dificuldades impostas pela vida. Na cibercultura, parece, as pessoas estão exaustas e a urgência em vivenciar novas e intensas emoções não lhes dão condições de reagir ao que quer que seja. Ao invés de extraírem a felicidade de suas atividades diárias elas extraem de seus armários cheios de medicamentos. Agora, já não é preciso lutar para vencer os problemas. Nada precisa de fato ser mudado na vida derrotada. Basta que a dopagem deixe as pessoas artificialmente felizes.
Essa obsessão em comprar e manter a sensação artificial da felicidade enobrece a eterna vida contente de pessoas quimicamente tranqüilizadas e acalmadas, o que segundo Le Breton (1999, p. 54) contribui para a manutenção da ordem das coisas por meio da comodidade e da eficácia, uma forma de melhor se adequar, em lugar de modificar, a realidade social. A pacífica adequação, a submissão feliz a realidades insustentáveis e que muitas vezes conspiram contra a vida, só a dopagem pode eficientemente realizar. Com ela as pessoas esquecem que enfrentar as dores pode ser uma fonte muito mais segura e saudável da vida feliz. Se muitos médicos e psicanalistas não perdem a primeira oportunidade para dopar seus pacientes, outros dizem que é melhor vivenciar as crises do que se entupir de remédios. Numa entrevista, Leopoldo Nozek, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise, diz que sofrer faz bem:
“Há depressões normais, pelas quais é preciso passar. É razoável que se tenham grandes crises durante a vida. Atravessá-las e sair delas nos engrandece. Tristeza e angústia fazem parte da vida. Temos de aumentar nossa capacidade de pensar, e não anestesiá-la ”.6
O estado de entorpecimento cotidiano de milhares de pessoas sufoca suas consciências para ter vidas mais felizes. Dworkin (2007, p. 24) destaca que, embora dolorosa, a infelicidade é indispensável para o desenvolvimento da consciência saudável. A infelicidade ensina a uma pessoa o que significa sentir-se insatisfeita ou envergonhada e pode apontar o caminho para uma vida digna. Em outro trecho (p. 15), o médico declara que fica alarmado com a dopagem dos corpos. Pois as pessoas que deliciosamente desfrutam da felicidade artificial não sentem a infelicidade de que precisam para tocar suas vidas para a frente. Dopadas, perdem o impulso necessário para a mudança de vida e “ficam em seus velhos trilhos estagnadas em um charco de falsa felicidade, e sacrificam qualquer possibilidade de cair na realidade.”
Lipovetsky (2007, p. 281) considera que o doping esportivo, que frequentemente vitima atletas nas mais horradas e populares competições, não representa mais que a ponta extrema de uma “sociedade dopada”, obsecadas pelo auto-aperfeiçoamento físico e mental, dedicada ao rendimento, às experiências sensoriais e à felicidade total. A dopagem é apenas uma manifestação da cultura hiperconsumidora que acha por bem medicalizar os hábitos da vida. A medicalização se tornou uma prótese da existência, a sagração da vida sem transtornos, ao mesmo tempo em que o superconsumo de psicotrópicos traduz a fragilidade do indivíduo e da própria felicidade que só se sustenta com mais uma dose.
Porém, não adianta preservar quimicamente a felicidade se essa sensação não for espetacularizada, vista e, sobretudo, admirada – às vezes fortemente invejada – pelos outros.
O que deve envergonhar é a infelicidade. Nada de pudores em exibir a vida feliz. Não por acaso a publicidade e os meios de comunicação, tradicionais e recentes, não cessam de promover a
6ATHAYDE, Phydia de. Sofrer faz bem. Em www.cartanaescola.com.br/edicoes/19/sofrer-faz-bem. Acesso em 16/01/2009.
superexposição de pessoas que são as mais felizes dentre as mais felizes, pois a felicidade artificial deve ser sempre fora do comum, excessivamente demais. O eu alegre não cessa de dizer e publicizar sua felicidade, mas também testemunha a felicidade artificial dos outros. E quando a felicidade do vizinho parecer superior a nossa nada de se consumir em desastrados sentimentos de inferioridade. Basta recorrer imediatamente a outros tutotes farmacológicos e sejamos todos infinitamente melhores, isto é, efusivamente mais felizes.
Assim, na dificil e irresistível construção de si mesmo, o pódio estético atual inclui o estatuto ontológico dos corpos dopados e a felicidade, na forma dessa letargia programada e administrada, não passa de êxtases sonambúlicos. Entretanto, talvez justamente ai, entre o pesadelo e o sonho mais genuino, estejam a nossa franca excentricidade e a alegria de bem viver, volúveis e mutáveis, em renovadas sideralidades.
Referências
COUTO, Edvaldo Souza e GOELLNER, Silvana Vilodre (orgs.) Corpos Mutantes. Ensaios sobre novas (d)eficiências corporais. Porto Alegre, Editora UFRGS, 2007.
DWORKIN, Ronald W. Felicidade artificial. O lado negro da nova classe feliz. Tradução de Paulo Anthero S. Barbosa. São Paulo, Editora Planeta, 2007.
GOELLNER, Silvana Vilodre e COUTO, Edvaldo Souza. La estética de los cuerpos mutantes em lãs obras de Sterlac, Orlan y Gunter von Hagens. Revista Opción, año 23, n. 54, 2007, p.
114-131.
JAQUEST, Chantal. Le corps. Paris, Presses Universitaire de Francês, 2001.
LE BRETON, David. L´Adieu au corps. Paris, Métailié, 1999.
LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal. Ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo.
Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo, Companhia das Letras, 20007.
MOULIN, Anne Marie. O corpo diante da medicina. CORBIN, Alain, COURTINE, Jean-Jacques e VIGARELO, Georges (orgs.) História do corpo. V. 3. Tradução de Ephraim Ferreira Alves.
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PINHO, Ângela e GUIMARÃES, Larissa. Em 4 anos, venda de antidepressivos cresce mais de 40%. São Paulo, Folha de São Paulo, 12 de novembro de 2008, p. C5.
SIBILIA, Paula. O show do eu. A intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2008.
ZARIFIAN, E. La société du bien-être. Paris, Jacob, 1997.