A morte está longe de ser um tema de fácil abordagem, ainda mais nos dias atuais. A morte é entendida com a cessação da vida, tanto mental como física. Podendo ser ela total e permanente de todas suas funções vitais.
“A expressão „direito de morrer‟ é, todavia, usada numa variada gama de condições incluindo o direito do paciente de não ser submetido a terapias inapropriadas ou inoportunas e
o de receber medicamentos para aliviar a dor, mesmo sob o risco de abreviação da vida. (HORTA, [s.d], p. 4)
“É notável que a Constituição Federal do Brasil proteja o direito à vida, mas não no sentido de compelir o ser humano a existir até os seus últimos limites, inclusive submetendo-o a condições de degradação, humilhação, dor e sofrimento físico e emocional”. (FRÓES, apud GONÇALVES, [s.d], p. 7).
Muitos são os que se posicionam a favor da eutanásia, sendo que seguem principalmente a linha de pensamento de que ninguém deve sentir dor ou sofrimento. E um dos pilares que envolvem a eutanásia é a discussão sobre o direito de uma pessoa por fim à própria vida, valendo-se de outra pessoa.
Usa-se como principal argumentação o princípio da autonomia da vontade, pois o paciente deve ter o direito e liberdade de escolha, defendendo, pois, que nenhuma pessoa deve viver em condições desumanas, passando por sofrimento insuportável, sabendo que a situação em que se encontra não há mais cura.
Assim, em relação ao princípio da autonomia da vontade quanto o ponto de vista da eutanásia, Batista e Schramm (2004, p. 8, grifo do autor), explicam que “não se trata mais de interrogar sobre a morte como fato – quiçá sobre o processo de morrer (ao menos com pretensões “objetivas”) –, mas, sim, pela autonomia do homem para decidir por sua liberdade de escolher o próprio fim, ou não”.
Nesse mesmo sentido, seguem explicando que:
a liberdade de escolha do homem que padece – e que decide, como agente competente e autônomo, pôr fim aos seus dias –, além de argumentar que a eutanásia se reveste de um genuíno estofo humanitário, propiciando que se livre o enfermo de um sofrimento insuportável, encurtando uma vida considerada sem qualidade – pelo próprio paciente –, não albergando mais nenhum sentido para ser vivida. (BATISTA E SCHRAMM, 2004, p. 5, grifo do autor)
Segundo Singer (1997, p. 70) “Por „autonomia‟ entende-se a capacidade para efectuar [sic] escolhas, tomar decisões e agir nessa base”. Referindo-se a tal questão segue o autor afirmando que:
o princípio do respeito pela autonomia defende que os agentes racionais devem poder viver a sua existência de harmonia com as suas próprias decisões autónomas,
livres de coerção ou de interferência; mas, se os agentes racionais escolherem autonomamente morrer, o respeito pela autonomia levar-nos-á a ajudá-los a fazer aquilo que escolheram. (SINGER, 1997, pág. 132)
Destarte, tal princípio deve ser respeitado, permitindo que cada indivíduo disponha da sua vida da maneira que melhor lhe convir, mesmo em se tratando da morte, já que este princípio tem como base essencial a liberdade e a igualdade.
Desta maneira, se respeitada a autonomia do paciente quanto sua perspectiva de vida, logicamente sua dignidade será preservada.
Pois bem, a dignidade da pessoa humana significa que toda pessoa é merecedora de respeito e de direitos fundamentais pelo simples fato de ser pessoa. Tais garantias devem ser respeitadas e promovidas pelo Estado Democrático de Direito, devendo ser acessível a todos, independentemente de sua condição social ou cultural.
No caso da eutanásia, existem dois posicionamentos: os favoráveis e os desfavoráveis. No entanto, no caso da dignidade da pessoa humana os argumentos são favoráveis, pois não há como viver dignamente em estado vegetativo e degradante.
Quem defende a prática, entende que a eutanásia nada mais é do que uma forma de amenizar o sofrimento das pessoas, propiciando a elas uma morte digna e sem dor, já que não possuem mais condições de viver no estado em que se encontram, seja por doenças incuráveis, seja em estados terminais, não havendo, dessa forma, perspectiva de vida.
Já quando se considera o princípio da inviolabilidade a vida humana, o direito à morte tem sido visto como algo inaceitável. Uma vez que este diz respeito à própria existência do indivíduo. Aqueles que defendem tal posicionamento entendem que o direito à vida é consagrado como o mais fundamental dos direitos, pois é dele que derivam todos os demais. E caso desrespeitado, em qualquer situação deve se produzir responsabilidade criminal, como também tal direito é irrenunciável, não permite que o indivíduo renuncie à vida e tampouco deseje a morte.
Não há como deixar de relacionar o princípio da dignidade da pessoa humana e o direito à vida, os quais estão consagrados como valores fundamentais ao Estado Democrático de Direito, na Constituição Brasileira de 1988.
É, portanto, de relevante valor que os princípios acima citados envolvem a tão polêmica questão da eutanásia, pois o direito à vida pressupõe dignidade existencial, permitindo assim, que o ser humano tenha direito a vida digna, como também a morte, e a partir disso, que a Constituição Brasileira autorizaria a legalização da eutanásia, conforme proposto pelo projeto de reforma do novo Código Penal, a qual trata, da então eutanásia passiva.
CONCLUSÃO
O presente estudo abordou sobre o tema da eutanásia, considerando os valores fundamentais do Estado Democrático de Direito que envolvem esta discussão, de modo que tratou sobre o direito à vida, a dignidade da pessoa humana, o direito à liberdade e a autonomia da vontade.
Desta forma, entende-se que o Estado Democrático de Direito busca assegurar a todos os brasileiros o exercício de seus direitos, os quais são tidos como valores supremos quanto a sua liberdade, segurança, igualdade e bem-estar. É, portanto, a consolidação normativa dos direitos individuais, sociais e coletivos.
O direito à vida é o bem maior, é consagrada na lei e defendida por muitos como sagrada, esta não pode ser desrespeitada, violada ou retirada, devendo ser assegurada pelo Estado. É, ainda, regida pelos princípios constitucionais da irrenunciabilidade e da inviolabilidade. E quanto à dignidade da pessoa humana, é reconhecida como valor supremo da ordem jurídica, e apresentada como um dos mais importantes princípios consagrados pelo Estado Democrático de Direito. Destarte, é valor próprio, inerente ao ser humano, devendo ser respeitado enquanto sua existência, e que independentemente de situação cultural social ou de sua condição, são merecedoras tanto de uma vida, como de uma morte digna.
A discussão sobre a eutanásia é bastante divergente, pois há posicionamentos tanto favoráveis que defendem que a pessoa deve ter autonomia e liberdade de escolha quanto ao direito de viver ou morrer com dignidade.
Já por outro lado, tem-se o posicionamento desfavorável, sendo este defendido no sentido de que a vida humana é o bem maior, que este não pode ser inviolável e nem mesmo irrenunciável.
Assim, ao tratar da prática da eutanásia, é importante referir que a o direito à liberdade e a autonomia da vontade deve ser respeitada. Pois, desta forma, a dignidade da pessoa humana estará sendo preservada. Ainda, nesse sentido, deverá o paciente em estado vegetativo ou em grave sofrimento optar se deseja continuar vivo ou morrer.
Desta forma, diante dos aspectos polêmicos e divergentes existentes, a eutanásia é uma prática criminalizada pelo nosso ordenamento jurídico, uma vez que ainda prevalece entre doutrinadores que o direito à vida não pode ser violado.
Por fim, importante destacar a importância que os princípios do direito à vida e da dignidade da pessoa humana possuem, uma vez que o tema sobre a eutanásia está longe de ter entendimento pacífico. Sabe-se que o direito à vida é o bem maior e que deve ser respeitado e não violado, enquanto que a dignidade da pessoa humana busca permitir a todos uma vida digna, baseada na sua liberdade e autonomia da vontade, permitindo que o ser humano decida sobre o que é melhor durante sua existência. E é desse ponto de vista, que o ordenamento jurídico brasileiro busca a regulamentação da eutanásia.
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