3. EXPLICAÇÕES USUAIS, MITOS E REALIDADE SOBRE O TROTE TRADICIONAL
3.1. Diversas explicações sobre o trote
3.1.4. Outras visões deturpadas acerca do trote
3.1.4.1. Existe trote considerado brincadeira e trote violento não existe brincadeira, todo o
Um dos mitos existentes a respeito do trote é o de que alguns trotes são meramente brincadeiras, enquanto outros são realmente violentos.
Depois de todas as explanações vistas até aqui, não se pode aceitar que alguns trotes sejam considerados simplesmente brincadeiras, enquanto outros sejam considerados muito violentos. Qual seria o critério do que é violento e do que não o é na cultura trotista, diante do exposto? Acredita-se que todo trote, sem exceção, é violento.
Huizinga (2007), ao discutir a questão do jogo sob a ótica cultural, mostra que a característica básica deste é a liberdade. O jogo submetido a ordens não é mais jogo, quando muito torna-se uma imitação.
O mesmo autor aponta outras características do jogo como ser desinteressado constituir uma evasão da vida real. Mas este aspecto de ser livre é o que mais aproxima o jogo da presente discussão sobre o trote. Percebe-se que, nas universidades e em outras instituições educacionais, os trotes não são caracterizados pela livre escolha dos indivíduos que ingressam na vida acadêmica, mesmo quando é dito que o estudante só “toma trote” porque ou quando quer.
Para Almeida Júnior (2011) brincar pressupõe igualdade entre os indivíduos, as regras são iguais para todos, ingressantes e trotistas. Contudo, no trote não existe esta situação igualitária, uma vez que as instruções, a direção e a obediência são fundamentais para que o trote ocorra.
Fonseca (2002, p. 2) considera que
A afirmação de que o trote é uma brincadeira, uma coisa divertida, também mostra-se perfeitamente falsa. Uma brincadeira presume conivência explícita entre os participantes. Se um não aceita, não é mais diversão: é coerção, opressão, ou, na linguagem popular, uma “brincadeira besta”. A atual geração de ingressantes está se mostrando mais resistente ao trote. Percebe-se que brincadeirinhas estúpidas estão gerando antipatias mais ou menos profundas. Existe, porém, o caso do jogo, onde um dos adversários ganha e o outro necessariamente perde. Entretanto, o pressuposto é que ambos concordam com as regras. Um jogo onde as normas são elaboradas para o desfrute exclusivo do mais forte- ou mais graduado- não é legítimo, e o mais fraco- ou o menos graduado- deve protestar com veemência. Sartre dizia ser detestável a vítima que respeita seu carrasco. Evidentemente, há ingressantes que se sujeitam aos constrangimentos do trote.
Almeida Júnior (2011) demonstra que os diversos meios de comunicação, em vez de darem tom pejorativo ao trote, dão voz aos trotistas. Assim, os trotistas entrevistados pelo autor veiculam a ideia de que o corte de cabelo, as pinturas, etc. são normais, símbolos de status para o aluno que ingressou na faculdade e não passam de brincadeiras, mesmo que resultem em atos violentos contra os ingressantes.
Em sua dissertação de mestrado, Colloca (2003) também identificou que ingressantes e trotistas não perceberam que trotes tradicionais (pedágio, pintura no rosto, corte de cabelo, etc.) sejam violentos, devido à visibilidade que estes dão ao sucesso atingido pelo novo aluno.
Almeida Júnior e Queda (2003, 2006), Almeida Júnior (2011) e Mattoso (1985) exibiram farta documentação sobre trotes que resultaram em mortes e mutilações, apesar
disso o pretexto de que o trote é uma brincadeira permanece nos veículos de informação e nas instituições de ensino.
Acrescenta-se a esta investigação teórica, a experiência empírica desta autora que entende que a ideia de que trote como sinônimo de brincadeira é, muitas vezes, justificada pelo argumento de ser consensual. Entretanto, já “calejados” com a relação de dominação de trotistas sobre ingressantes, acredita-se que esta é mais uma alegação autoritária para justificar a manutenção dos interesses de trotistas.
Por mais estranho que possa parecer, encontra-se dentre notícias sobre trotes reportagens contraditórias sobre o assunto, como a reportagem exibida no site G1 Globo.com, em 25 de fevereiro de 2010: “Universitários passam por trotes divertidos em Piracicaba. Muitas reportagens têm mostrado trotes violentos em diversos locais do país, mas existem celebrações divertidas e bem humoradas que integram e acolhem os alunos de 1º ano”.
Entretanto, uma vez lida na íntegra a reportagem, verifica-se que a brincadeira referida trata do recebimento do “Chapéu”. Este, como já exposto anteriormente, refere- se ao trote que remete a preconceitos de classe social e étnicos. Lamentável tais aspectos não serem reconhecidos pelos profissionais da comunicação e pelos estudantes, uma vez que se dizem comprometidos com a cidadania.
O mais intrigante é que nessa mesma reportagem, faz-se menção a um trote de outra instituição, este chamado de violento, por ter resultado em ferimentos graves em alguns ingressantes. Será que o fato de o trote acima denominado de “brincadeira”, que remeta a preconceitos contra afrodescendentes, por não conter violência física, deve ser considerado menos violento?
Coutinho (2005) entende a adolescência como um conceito historicamente construído na Modernidade. Para Calligaris (2000), a adolescência acaba por tornar-se um ideal cultural que todos desejam atingir e nele permanecer infinitamente, o que leva questionar se a adolescência está realmente relacionada a uma faixa etária específica.
Consoante com estas ideias, pode-se pensar nos possíveis impactos relativos à constituição dos laços sociais de nossa cultura, tornando-a mais individualista, consumista e com maior liberdade individual (COUTINHO, 2005). Desta forma, se os indivíduos adolescentes estiverem mais sintonizados com este individualismo, haverá provavelmente impacto nas formas de relações sociais com outros indivíduos e grupos.
Devido ao declínio da figura paterna, como pulverização dos ideais sociais, torna-se difícil o processo de adolescência, ao mesmo tempo em que esta inicia-se cada
vez mais precocemente. Sem lugar para a castração, além da lógica do consumo e do prazer individual que vigora, o clima fica propício para as condutas delinquentes, as toxicomanias e as condutas de risco em geral (COUTINHO, 2005).
Coutinho (2005) acredita que, nos grupos contemporâneos, os adolescentes buscam suprir a ausência dos laços sociais ao buscarem novos traços de identificação também em campos exogâmicos. Nesses grupos, denominados de formações fraternas, destaca-se a lei que é reguladora das relações de autoridade, encarnada por um pai biológico.
Coutinho (2005, p.23) afirma também que
Assim, podemos supor que os adolescentes, em suas fatrias, podem assumir diversas posições frente ao sintoma social, ou seja, tanto podem perpetuar o encobrimento da castração propagado pela cultura através de laços totalitários, quanto podem buscar parceiros para reafirmar referências simbólicas mais satisfatórias. Nesse caso, talvez possamos arriscar dizer que, para além do sintoma social, o ideal cultural da adolescência pode ter um destino menos degradante.
Infere-se que justamente na dinâmica descrita pode estar a chave para compreender o comportamento de grupos de alunos trotistas. Ancorados neste ideal cultural de adolescência, no qual a liberdade e individualismo são vigentes, a instituição trotista torna-se referência para atitudes de dominação frente aos colegas.
De acordo com Coutinho (2005), é interessante esperar que nos grupos ou fatrias possam surgir não somente os sintomas dessa sociedade, mas também a busca de parceiros mais satisfatórios, como alternativa aos sintomas. Acredita-se que, para tal, a comunidade acadêmica das instituições educacionais tem papel relevante, no sentido de aprovar atitudes de recepção mais adequadas, além de coibirem as ações hostis.
Birman (2008), em uma linha teórica bastante próxima, mostra que muitas modificações econômicas e culturais nos últimos anos influenciaram a adolescência na contemporaneidade. Com a globalização da economia, as altas taxas de desemprego passaram a afetar os adolescentes e adultos jovens de todas as classes sociais. Devido a essas dificuldades financeiras, a adolescência passou a ser prolongada. Como consequência, ocorreram maiores níveis de criminalidade praticados pelos adolescentes. Muitos acontecimentos de agressão contra índios, travestis, prostitutas, empregadas domésticas, veiculados pela imprensa escrita e televisiva nos anos recentes ilustraram os comportamentos totalitários de jovens com formação universitária.
Como já visto em outros momentos deste estudo, muitos crimes contra os grupos acima podem estar presentes nos trotes nas universidades e em outras instituições de ensino, o que levanta a hipótese de preconceitos em relação às minorias etnorraciais, de gênero, econômico-sociais, etc..
Birman (2008) adverte que não são somente os pais desses adolescentes que devem ser responsabilizados pela questão da criminalidade, embora seja observado nos depoimentos o comportamento superprotetor e permissivo de muitos pais em relação aos filhos. Entretanto, deve-se procurar as causas em âmbito mais amplo, como no da produção social da adolescência na Modernidade.
Portanto, se atualmente impera uma sociedade que preconiza o ideal de adolescência, em que a lógica do prazer é a que vigora, é compreensível o fato de essa sociedade não estabelecer limites entre trote-brincadeira e trote-violento. Se a imprensa, como porta-voz dessa sociedade, divulga esta noção equivocada, resta aos intelectuais e demais membros da sociedade científica, apresentar o senso crítico necessário ao discernimento.
Como Almeida Júnior e Queda (2003) afirmam, é principalmente a mudança da postura institucional o elemento central para eliminar o trote. Para o início desta mudança, cabe a todos os indivíduos envolvidos (pais, alunos, gestores, professores) modificarem a linguagem usual empregada no tocante à recepção dos ingressantes. Segundo Almeida Júnior17, a utilização de terminologias como trote, bicho, veterano, deveriam ser abolidas no contexto desta temática. Este poderia ser um marco inicial para outras mudanças atitudinais urgentes.
Almeida Júnior e Queda (2003) perceberam também que muitos pais de alunos que haviam entrado para a universidade consideraram os trotes como brincadeiras inofensivas.
Em comentário sobre a afirmação de que trote nunca deixa de ser tortura, Mattoso (1985), Almeida Júnior e Queda (2003) afirmam com veemência que não existe trote que seja considerado brincadeira.
17 Ideias apresentadas no Simpósio Anatomia do Trote, na PUC de Piracicaba, SP, em 22 de agosto de 2013.