2. FACETAS FORMAL E SUBSTANCIAL DO CONTRADITÓRIO
2.3. CONSEQUÊNCIAS DO CONTRADITÓRIO NO ESTADO CONSTITUCIONAL
2.3.2 Da Colaboração Processual
2.3.3.2 Existe um princípio da cooperação processual?
A filtragem do contraditório pelo Estado Constitucional ressalta o caráter participativo do processo, ambiente em que os sujeitos processuais dialogam paritariamente e, mediante mútuas influências, buscam a construção conjunta da decisão. Neste ambiente, remodelam-se as posições, direitos e deveres do juiz e das partes para formar uma verdadeira “comunidade de trabalho” cujo escopo é alcançar a solução adequada em um prazo razoável.
A democratização do processo busca o constante equilíbrio entre os sujeitos processuais, sem espaço para protagonismos isolados. Reconhece-se a necessidade de reforçar o papel do juiz e também das partes, a fim de evitar a atuação solitária do órgão julgador ou a condução do processo regida preponderantemente pelos interesses privados dos litigantes. O processo não deve se alicerçar em uma atividade monológica; pelo contrário, para alcançar-se o contraditório substancial, assegura-se o diálogo efetivo e a consequente ampliação do leque de elementos para a elaboração da decisão.
Assim, a concepção dinâmica do contraditório tem por consequência a formação de uma “comunidade de trabalho” entre os sujeitos processuais, tanto na fase preparatória do
procedimento, quanto na problematização, permitindo-se a “comparticipação” e o “policentrismo na estrutura procedimental” (NUNES, 2012, p. 215; 239-247)79.
Mostra-se importante frisar a pertinência da expressão “policentrismo” para retratar a democratização do processo, por ela remeter à ideia de descentralização do poder. Os atos de poder não são proferidos de maneira isolada pelo Estado e impostos verticalmente aos indivíduos. As decisões não devem “cair no colo” dos destinatários sem antes lhes ser oportunizada a colaboração na formação do provimento; afinal, no Estado Constitucional, os indivíduos deixam de ser súditos para ocupar o papel de agentes colaboradores em paritárias condições de interferência nos desfechos das decisões estatais.
Para Hermes Zaneti Junior (2007, p. 55-61), a democracia participativa exige uma desangularização das relações de poder: propõe-se um modelo normativo de democracia através da institucionalização de procedimentos democráticos, assegurando-se “condições de comunicação”. Nesse contexto, adota-se um discurso democrático entre autor, juiz e réu, todos em sinergia de colaboração para obter uma solução construída em conjunto, passível de justificação racional e de aceitação dessa racionalidade pelos atores do diálogo. Conclui o autor que, no direito processual, tal modelo normativo expressa-se por meio da “máxima da cooperação” e impõe a visão cooperativa do processo pelos seus participantes.
A democratização processual passa pela necessária valorização do contraditório e das consequências dele decorrentes. Primeiramente, assiste-se a uma desangularização do poder e a adoção de um debate democrático, sem protagonismos; para tanto, o julgador se insere no diálogo em condição de igualdade com os demais sujeitos processuais, em um ambiente de recíprocas influências. Em consequência, justifica-se racionalmente a decisão por ela representar o produto do debate processual. Em busca de superar o paradigma de um processo protagonizado exclusivamente pelo magistrado ou pelas partes, fortalecem-se a participação, poderes e deveres das partes e do órgão julgador, em busca de um uma convivência equilibrada entre todos os sujeitos processuais80.
79 No mesmo sentido, conferir também: THEODORO JUNIOR; NUNES, 2011, p. 287-294.
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Apesar de adotar a perspectiva de socialização do processo em busca da igualdade material, importante salientar a antiga advertência de José Carlos Barbosa Moreira (1989, p. 48-51) de que o incremento dos poderes do juiz impõe a fiel observância da garantia do contraditório e do dever de motivação das decisões, pois o fortalecimento dos poderes
Enfim, busca-se a democratização do processo mediante a redefinição dos poderes e responsabilidades do juiz e das partes, cujo escopo reside em alcançar um ponto de equilíbrio e garantir mútuas influências através do constante diálogo, em um ambiente regado pela colaboração.
Diante dessas premissas, reconhece-se no processo civil a existência do princípio da cooperação, espécie normativa que impõe um estado de coisas a ser alcançado, qual seja, a organização do processo como uma “comunidade de trabalho e comunicação” com equilibradas posições entre os sujeitos processuais para construção comparticipada da decisão adequada em tempo razoável. A ausência de texto expresso no sistema jurídico brasileiro com previsão do princípio da cooperação processual não impede seu reconhecimento, uma vez que se extrai tal espécie normativa do sobreprincípio constitucional do contraditório – expressão da democracia no processo (artigo 1º, caput, c/c artigo 5º LV, CF88).
A releitura do princípio do contraditório, a feição democrática do processo e a adoção do modelo constitucional do processo civil tem levado parte da doutrina a reconhecer a existência de um verdadeiro princípio da cooperação ou colaboração no sistema brasileiro, extraído do princípio do contraditório81.
Lênio Streck e Francisco José Borges Motta (2012), entretanto, não reconhecem a cooperação como um princípio jurídico, entre outros fatores, pela ausência de densidade normativa (“minguada normatividade”). Para eles, o princípio da cooperação representaria mais um exemplo do chamado “panprinciologismo”, entendido como o emprego generalizado da palavra “princípio” para designar standards interpretativos. Além disso, criticam a explicação oferecida por Daniel Mitidiero (2011b) de que o princípio da cooperação impõe um estado de coisas a ser promovido, qual seja, elemento normativo para a organização do processo justo e
do órgão julgador não representa necessariamente o amesquinhamento do papel das partes. Isto porque a relação de poderes e direitos do juiz e das partes não consiste em uma “gangorra”, em que a subida de um corresponde à descida do outro: não se trata de contraposição ou opressão entre juiz e as partes, mas de “colaboração” entre eles. Não obstante o marco teórico diverso, não se pode negar que Moreira já propugnava o equilíbrio entre os sujeitos processuais na condução do processo, o que deve ser visto contemporaneamente sob as luzes da democracia e do direito de influência.
81 Para maior aprofundamento, consultar autores que extraem o princípio da cooperação do contraditório: CABRAL, 2009, p. 218; BUENO, 2007, p. 108-109; BUENO, 2012, p. 86; CUNHA, 2012b, p. 369; PEIXOTO, 2013, p. 93.
garantir posições jurídicas equilibradas ao longo do procedimento. Para Streck e Motta, tal formulação, por demasiadamente vaga, pode servir de válvula de escape a decisionismos.
Sobre o assunto, adere-se à doutrina de Daniel Mitidiero (2011b) quanto à existência do princípio da cooperação que assegura um estado de coisas a ser alcançado (na linha da classificação proposta por Humberto Ávila e adotada neste trabalho), bem como quanto à densidade normativa do referido princípio, extraído do contraditório e do caráter democrático do Estado Constitucional. Não se pode deixar de ressaltar, entretanto, a pertinência da crítica quanto à vagueza da definição de que “a colaboração determina a conformação do direito ao processo justo” e, mais ainda “o direito ao processo justo não pode ser entendido senão como um direito à prestação e, mais especificamente, como direito à organização de um processo justo.”
Ao que parece, o termo de “processo justo” consiste em um conceito jurídico fundamental (DIDIER JR., 2013, p. 42-44) na doutrina de Daniel Mitidiero, razão pela qual a delimitação do que ele significa mostra-se imprescindível para melhor compreensão da proposta formulada. De fato, a ausência de definição do que vem a ser “processo justo” impede identificar- se qual o estado ideal de coisas a ser alcançado pela cooperação, e consequentemente, prejudica a sua caracterização como princípio jurídico.
Em relação ao alicerce normativo do princípio da cooperação processual, não se pode deixar de ressaltar o entendimento de Fredie Didier Jr. (2010, p. 55; 86), para quem, não obstante a ausência de texto normativo para prever tal princípio no sistema brasileiro, ele deve ser extraído do princípio do devido processo legal ou da boa-fé processual:
O princípio da cooperação pode ser encarado como um subprincípio do princípio do
devido processo legal (nesta relação, um sobreprincípio): o processo para ser devido
(estado de coisas que se busca alcançar) precisa ser cooperativo ou legal. É possível, ainda, compreender o princípio da cooperação como um subprincípio do sobreprincípio da boa fé processual: a proteção da boa fé (estado de coisas a ser alcançado) passa pela efetivação de um processo cooperativo. Não é ocioso lembrar que os princípios não têm pretensão de exclusividade: um mesmo efeito jurídico (processo cooperativo) pode ser resultado de diversos princípios (devido processo legal ou boa fé). (DIDIER JR., 2010, p. 53-54)82
Por todo o exposto até o presente momento, apesar de concordar com a importância de os sujeitos processuais pautarem suas condutas pela boa fé objetiva no processo democrático,
compreende-se ser mais adequado extrair o princípio da cooperação do contraditório. Isto porque se considera imprescindível ressaltar dois vetores para se alcançar a organização do processo como uma “comunidade de trabalho e comunicação” com equilibradas posições entre os sujeitos processuais para construção comparticipada da decisão: diálogo e recíprocas influências. O princípio da cooperação consiste, portanto, em um subprincípio do sobreprincípio do contraditório.
Neste sentido, Antônio do Passo Cabral (2009, p. 215-217) defende estar o princípio da colaboração processual ligado à feição do “contraditório moderno”, que não limita a participação à tradicional locução “possibilidade de manifestação”, mas retrata a soma de esforços para a melhor solução do conflito. O contraditório apresenta plurais funções (multifuncionalidade): não se esgota no binômio informação-reação e direito de influência, mas inclui também a finalidade de colaboração com o exercício do poder jurisdicional. O processo transforma-se em um ambiente de coparticipação e a sentença, resultado de uma comunidade dialética de trabalho; uma verdadeira comunidade de trabalho e comunicação.
A democracia no Estado Constitucional brasileiro conduz a uma releitura dos direitos a participação e influência, com consequências diretas sobre a organização do exercício do poder estatal. A colaboração não conduz apenas a direitos, mas também impõe deveres, os chamados deveres de cooperação intersubjetiva. Todos os sujeitos processuais devem cooperar para o regular prosseguimento do feito e a construção comparticipada da decisão jurisdicional, podendo- se falar, na verdade, de um dever geral de cooperação na comunidade de trabalho e comunicação.