referenciais e os valores que suportam essa espiritualidade contribuem para a geração d o que Jacques Généreux chama de dissociedade. Essa segunda parte divide-se em dois capítulos:
3. Existe uma espiritualidade na sociedade supercapitalista? 4 Referenciais espirituais do supercapitalismo e da dissociedade.
CAPÍTULO III: EXISTE UMA ESPIRITUALIDADE NA
SOCIEDADE SUPERCAPITALISTA?
A resposta é, sem dúvida, sim! Uma das dimensões da definição proposta no início do primeiro capítulo descreve a espiritualidade como:
... a própria dinâmica que impulsiona o ser humano consciente em seus conhecimentos e escolhas vitais – essa conceituação nasce de uma ênfase ao espírito vivificante, pelo qual os seres não apenas têm vida, mas também vitalidade criativa.114
Depois de ter analisado os aspectos econômicos e políticos do mundo supercapitalista no qual vivemos, precisamos observar agora qual é a dinâmica que impulsiona as escolhas e gera comportamentos dominantes que levam as pessoas a desenvolverem características que modificam seu modo de ser. Dois comportamentos parecem dominantes:
- um superdimensionamento do consumo;
114 Márcio FABRI DOS ANJOS, Para compreender a espiritualidade em bioética, O Mundo da Saúde,
- uma adesão ao culto da performance.
Isso pode levar a um modo de ser que, além dos conflitos, favorece a depressão ou um comportamento esquizóide, segundo a expressão de Gilles Deleuze assim analisada por Dany-Robert Dufour:
É notável que, nas premissas da vaga neoliberal, Deleuze tenha podido acreditar ultrapassar o capitalismo (...) jogando-lhe entre as pernas essa figura do esquizofrênico que podia desregular e enlouquecer os fluxos normatizados. (...) O que Deleuze não tinha visto, que vemos porém hoje, é que seu programa, longe de permitir a superação do capitalismo, somente antecipava seu curso.(...) É preciso, de fato, que os fluxos de mercadorias circulem cada vez mais rapidamente e largamente, e eles poderão fazer isso melhor desde que o velho sujeito crítico kantiano e o velho sujeito freudiano com suas fixações neuróticas sejam substituídos por um ser aberto a todas as conexões. Penso que Deleuze foi alcançado pelo novo capitalismo quando esse se deu conta de que as instituições de controle, que ele tinha estabelecidas (...) produziam sujeitos proprietários de si mesmo além da conta. Ele entendeu então que devia quebrar essas instituições (aconteceu então a desregulação e a desinstitucionalização) para produzir um sujeito esquizóide.115
Analisaremos primeiro os fenômenos do consumo e do consumismo e constataremos que a sociedade consumista acaba levando a uma tirania do ego mesclada com uma conduta gregária e ao esquecimento da dimensão cidadã. Num segundo momento, indagaremos por que as pessoas aderem cada vez mais ao culto da performance e por que a competição esportiva inspira cada vez mais o modo de vida das pessoas. Num terceiro momento, analisaremos as conseqüências das pressões exercidas por esse culto da performance, principalmente na vida profissional. Num quarto momento, nos deteremos numa análise do processo que faz da depressão a doença típica da sociedade supercapitalista. Constataremos, enfim, que a própria sociedade corre o risco de tornar-se uma sociedade depressiva.
3.1 - CONSUMO E CONSUMISMO
Segundo Robert Rochefort:
Até o meio do século XX, estávamos numa sociedade de produção. Depois veio a sociedade de consumo, de natureza híbrida: produção e consumo, até os anos 70. Estamos agora numa sociedade cuja organização econômica e social assim como o imaginário estão tão centrados no consumo que podemos falar de sociedade consumista. Nas empresas, uma única obsessão: estar na escuta do cliente. (...) Tem-se, às vezes, a impressão de que os responsáveis pelo marketing, pela comercialização e pela publicidade reinam sobre quem cuida da produção. É a mesma coisa nas administrações, embora seja mais contestável. O administrado seria assimilado a um cliente. (...) Ser beneficiário de todos os direitos torna-se uma exigência tal que os deveres acabam sendo esquecidos.116
Tornando-se um ótimo consumidor, o indivíduo pode tornar-se um cidadão displicente.
3.1.1 - SIGNIFICADO DA PALAVRA “CONSUMO”
Na visão de Jeremy Rifkin:
... o termo “consumo” tem raízes tanto inglesas quanto francesas. Em sua forma original, consumir significava destruir, saquear, subjugar, exaurir. É uma palavra impregnada de violência e, até o presente século, tinha apenas conotações negativas. (...) A metamorfose do consumo de vício a virtude é um dos fenômenos mais importantes e, no entanto, o menos analisado do século XX.117
Para Nestor Canclini, na linguagem corriqueira, consumir costuma ser associado a gastos inúteis e compulsões irracionais118. Essa desqualificação moral e intelectual se apóia em outros lugares comuns sobre a onipotência dos meios de comunicação, que incitariam as massas a se lançarem irrefletidamente sobre os bens. Hoje, segundo ele, vemos os processos de consumo como algo mais complexo do que a relação entre meios manipuladores e dóceis audiências. Sabe-se que um bom número de estudos sobre comunicação de massa tem mostrado que a hegemonia cultural não se realiza mediante ações verticais, onde os dominadores
116 Robert ROCHEFORT, Le bon consommateur et le mauvais citoyen, p.7. Robert ROCHEFORT é
diretor geral do CREDOC, Centre de Recherche pour l’Étude et l’Observation des conditions de vie (Centro de pesquisa para o estudo e a observação das condições de vida) e autor de numerosas obras.
117 Jeremy RIFKIN, O fim dos empregos, p. 19.
capturariam os receptores: existem mediadores como a família, o bairro e o grupo de trabalho. E a comunicação não é eficaz sem interações de colaboração e transação entre uns e outros. Então, o que significa consumir?
O consumo é o conjunto de processos socioculturais em que se realizam a apropriação e os usos dos produtos. Esta caracterização ajuda a enxergar os atos pelos quais consumimos como algo mais do que simples exercícios de gostos, caprichos e compras irrefletidas, segundo os julgamentos moralistas, ou atitudes individuais, tal como costumam ser explorados pelas pesquisas de mercado.119
Na perspectiva dessa definição, o consumo é entendido principalmente na sua racionalidade econômica. Seria um momento do ciclo de produção e reprodução social. É o lugar em que se completa o processo iniciado com a geração de produtos, onde se realiza a expansão do capital e se reproduz a força de trabalho. Sob esse enfoque, não são as necessidades ou os gostos individuais que determinam o que, como e quem consome: a distribuição dos bens depende das grandes estruturas de administração do capital. Ao se organizar para prover alimento, habitação, transporte e diversão aos membros de uma sociedade, o sistema econômico “pensa” como reproduzir a força de trabalho e aumentar a lucratividade dos produtos. Assim, as ofertas e bens e a indução publicitária de sua compra não são atos arbitrários.
Essa racionalidade, contudo, não é a única que modela o consumo. Uma teoria mais complexa sobre a interação entre produtores e consumidores, entre emissores e receptores, tal como a desenvolvem algumas correntes da antropologia e da sociologia urbana, revela que no consumo se manifesta também racionalidade sócio-política interativa. Assim, podemos dizer que:
... consumir é participar de um cenário de disputas por aquilo que a sociedade produz e pelos modos de usá-lo. (...) é um espaço de interação, onde os produtores e emissores não só devem seduzir os destinatários, mas também justificar-se racionalmente. 120
119 Nestor García CANCLINI, Consumidores e cidadãos, p. 53. 120 Ibid., p. 54-55.
Existe uma terceira linha de reflexão:
Uma terceira linha de trabalhos, os que estudam o consumo como lugar de diferenciação e distinção entre as classes e os grupos, têm chamado a atenção para os aspectos simbólicos e estéticos da racionalidade
consumidora. Existe uma lógica na construção dos signos de status e nas
maneiras de comunicá-los.(...) Boa parte da racionalidade das relações sociais se constrói, mais do que na luta pelos meios de produção, da disputa pela apropriação dos meios de distinção simbólica. Há uma coerência entre os lugares onde os membros de uma classe e até de uma fração de classe se alimentam, estudam, habitam, passam as férias, naquilo que lêem e desfrutam, em como se informam e no que transmitem aos outros.(...) A lógica que rege a apropriação dos bens enquanto objetos de distinção não é a da satisfação de necessidades, mas sim a da escassez desses bens e da impossibilidade de que outros os possuam.121
Consumo está muitas vezes ligado à dissipação e ao desperdício. Como diferenciar as formas de gasto que contribuem para a reprodução de uma sociedade daquelas que a dissipam e desagregam? Escreve Canclini:
O desperdício do dinheiro no consumo popular é uma auto-sabotagem dos pobres, simples mostra de sua incapacidade de se organizar para progredir? Encontro uma chave para responder a estas perguntas na freqüência com que esses gastos suntuosos, “dispendiosos” se associam a rituais e celebrações.122
Por meio dos rituais, Mary Douglas e Baron Isherwood afirmam que os grupos selecionam e fixam, graças a acordos coletivos, os significados que regulam suas vidas. Os rituais servem para “conter o curso dos significados” e tornar explícitas as definições públicas do que o consenso geral julga valioso.
Rituais mais eficazes usam coisas materiais, e podemos supor que, quanto mais custosa a pompa ritual, tanto mais forte a intenção de fixar os significados. Os bens, nessa perspectiva, são acessórios rituais; o consumo é um processo ritual cuja função primária é dar sentido ao fluxo incompleto dos acontecimentos. Daqui é um passo curto para a identificação do objetivo global que – supõe-se – os seres racionais, por definição, consideram. (...) O
121 Nestor García CANCLINI, Consumidores e cidadãos, p. 55-56. 122 Ibid., p. 58.
objetivo mais geral do consumidor só pode ser construir um universo inteligível com os bens que escolhe.123
Consumir é tornar mais inteligível um mundo onde o sólido se evapora. É neste jogo entre desejos e estruturas que as mercadorias e o consumo servem também para ordenar politicamente cada sociedade. O consumo é um processo em que os desejos se transformam em demandas e em atos socialmente regulados. Em situações plenamente modernas, o consumo não é algo privado, atomizado e passivo, é também eminentemente social, correlativo e ativo.
3.1.2 - “A SOCIEDADE CONSUMISTA E A TIRANIA DO EGO”
A fórmula é de Robert Rochefort:
Nas sociedades que dão uma grande importância para a produção, a confiança coletiva no futuro é indispensável porque se produz para os outros e é preciso antecipar seus comportamentos. Na sociedade consumista cuja emergência é indissociável do estágio avançado do individualismo no qual nos encontramos, o horizonte é “egocentrado”. Para gastar, o que é importante é que a coisa não esteja tão ruim para si próprio e para seu círculo próximo. Pouco importa o que será do destino coletivo, principalmente se for distante. (...) Vamos mais longe ainda: aos poucos, a sociedade consumista penetra nossa intimidade.(...) Daqui para frente, é a realização do projeto pessoal e o cuidado consigo mesmo que se tornam primordiais. (...) Todo empreendedor nos mercados de consumo tem uma única fórmula a aplicar: demonstrar que o que ele vende pode ser posto ao serviço do projeto tirânico e obsessivo de ter uma vida de sucesso, de ter uma vida de sucesso sempre e de ser bem sucedido na vida.124
Quando se fala de sucesso ou de vida bem sucedida, referimo-nos a uma dimensão pessoal e, ao mesmo tempo, a uma dimensão social. Vale a pena aprofundar mais o assunto. Seria esse o individualismo tão acusado de todos os males nos nossos dias?
123 Mary DOUGLAS; Baron ISHERWOOD, O mundo dos bens, para uma antropologia do consumo,
p.112-113.
3.1.2.1 - INDIVIDUALISMO OU “EGOÍSMO GREGÁRIO”?
A pergunta é de Dany-Robert Dufour que recusa a acusação tão repetida ao individualismo:
Mais do que individualistas, estamos então numa época de promoção do egoísmo, de produção do ego tanto mais cegos ou cegados que as pessoas não percebem o quanto eles podem ser arrebanhados em conjuntos massificados. Dizendo de um modo diferente, vemos egos, pessoas que se acham iguais e que, na realidade, passaram debaixo do controle do que é preciso chamar de “o rebanho”. (...) Mas onde está a necessidade dessa mentira? Por que deve cada um levar a si próprio a acreditar que é livre quando vive em rebanho? Por que levar os outros a acreditar que são livres quando serão organizados em rebanho? A resposta é simples. É preciso que cada um se dirija livremente para as mercadorias que o bom sistema de produção capitalista fabrica para ele. Digo bem “livremente” porque, forçado, ele resistiria.(...) A pressão permanente para consumir deve ser redobrada por um discurso incessante de liberdade, de uma falsa liberdade evidentemente entendida como permissão de fazer “tudo o que se quer”. Esse duplo discurso é exatamente o das democracias liberais, sejam elas de direita ou de esquerda. É pelo egoísmo que se deve apanhar os indivíduos para colocá-los em rebanho, porque é o meio mais econômico e mais racional de alargar sempre mais as bases de consumo de um conjunto de pessoas, em permanência conduzidas por necessidades reais ou, na maioria das vezes, supostas. Nossa sociedade está, portanto, inventando um novo tipo de agregado social colocando em jogo uma estranha combinação de egoísmo e de gregarismo. Eu designaria essa nova realidade com o oximoro de
formação “ego-gregária”.125
Essa denominação se origina do fato de que os indivíduos vivem separados uns dos outros, o que favorece seu egoísmo, embora ligados uns aos outros num modo virtual notadamente graças, por exemplo, a televisão, Internet e mensagens hoje veiculadas pelos celulares.
A televisão, nota o autor, muda os contornos do espaço doméstico, enfraquecendo o papel, já reduzido, da família real e criando uma espécie de família virtual que se adiciona à precedente. Seria uma espécie de “terceiro parente”, escreve Dufour citando vários estudos norte-americanos126. Ela converte também os que a assistem numa grande família onde as pessoas aprendem a se conhecer, no duplo entido de conhecer uns aos outros e de conhecer a si mesmo. Assim, muitos
125 Dany-Robert DUFOUR, Le divin marché, la revolution culturelle libérale, p. 26-27. 126 Ibid., p. 30.
estão dispostos a se expor publicamente na busca de uma hipotética melhoria do “autoconhecimento” proporcionada pela ajuda fervorosa do apresentador-guru de plantão. Essa família do Big Brother pode ser recomposta à vontade pelo uso criterioso do paredão!
Tudo isso porém,
... não passa de um ardil atrás do qual se esconde a única realidade consistente, a audiência (uma audiência fidelizada pelo simulacro), medida, retalhada em partes para poder ser vendida e comprada no Mercado das industrias culturais.
Tudo isso foi expresso muito claramente por Patrick Le Lay, presidente do canal TF1:
Nossos programas têm por vocação tornar [o cérebro do telespectador] disponível: quer dizer diverti-lo, relaxá-lo para prepará-lo entre duas mensagens. O que vendemos para Coca Cola é o tempo de cérebro humano disponível. Nada mais difícil do que obter essa disponibilidade.127
Nessa altura da análise, Dufour propõe uma distinção entre individuação e individualização:
... faço questão de distinguir a individuação da individualização – concedo que os termos são arbitrários, mantenho, porém, que a diferença é bem real. Defino a individuação como o que permite de contar-se como um no “rebanho”. E a individualização, quer dizer o verdadeiro individualismo, como o que implica a saída do “rebanho” e o desabrochar de um sujeito autônomo, ousando falar e pensar no seu próprio nome.128
Uma das modalidades de individuação seria, segundo o autor, a necessidade de tornar-se famoso. Essa necessidade está ligada a uma grande preocupação com a conformidade: só posso tornar-me famoso e conseguir os votos, por exemplo, para
127 Patrick LE LAY apud Dany-Robert DUFOUR, Le divin marché, la revolution culturelle libérale, p.
38, esse trecho de um comentário feito pelo executivo pode ser encontrado em Les dirigeants face au
changement, p. 92.
manter-me na “casa mais vigiada do país”, apresentando o maior número possível de traços de identificação com o público. Torno-me famoso na medida em que respondo mais rapidamente ao que os outros querem de mim e posso escapar do vazio deixando o rebanho dos que assistem para a “família” dos que são assistidos.
Último ponto importante: quando assisto à televisão, estou expondo-me ao olhar do Outro:
O habitual “vou relaxar um momento assistindo televisão” é, portanto, falacioso. Porque, então, é o Outro que olha você, e não somente você, porque ele olha ao mesmo tempo cada membro do rebanho. Porque, evidentemente, todos esses olhos cegos da televisão, espetados nos membros do rebanho virtual, são interconectados entre si. O que compõe uma imensa rede onde cada um é constantemente exposto e observado por quem ele observa, para ser diretamente conduzido em direção das fontes onde esse Outro quer que ele vá alimentar-se e desalterar-se com seus congêneres do rebanho. (...) Cada um é, portanto, intensamente observado por quem ele observa.129
Assim, quem é assistido faz cada um olhar em determinadas direções muito precisas que prometem a felicidade pela satisfação generalizada e automática de determinadas necessidades, devidamente catalogadas e previsíveis. O preço a pagar, diz Dufour, pode ser a renúncia ao processo de individualização (tal como ele a definiu) e a generalização de uma relação de mentira consigo mesmo e com os outros.
Em toda essa análise não estamos falando de gregarismo, mas sim de egoísmo gregário: não se trata de uma fatalidade nem do resultado de uma conspiração, embora alguns possam conspirar para manter esse modelo! Tudo isso se mantém porque, no fundo, os membros do rebanho gostam e não demonstram interesse em procurar alternativas. Veremos a seguir como o exercício da cidadania se transforma nesse mundo consumista.
3.1.2.2 - CONSUMISMO E CIDADANIA
As mudanças nas maneiras de consumir alteram as possibilidades e as formas de exercer a cidadania, na análise de Canclini:
Junto com a degradação da política e a descrença em suas instituições, outros modos de participação se fortalecem. Homens e mulheres percebem que muitas das perguntas próprias dos cidadãos – a que lugar pertenço e que direitos isso me dá, como posso me informar, quem representa meus interesses – recebem sua resposta mais através do consumo privado de bens e dos meios de comunicação de massa do que nas regras abstratas da democracia ou pela participação coletiva em espaços públicos. Num tempo em que as campanhas eleitorais se mudam dos comícios para a televisão, das polêmicas doutrinárias para o confronto de imagens e da persuasão ideológica para as pesquisas de marketing, é coerente nos sentirmos convocados como consumidores ainda quando se nos interpela como cidadãos. Se a burocratização técnica das decisões e a uniformidade internacional imposta pelos mercados na economia reduzem o que está sujeito a debate na orientação das sociedades, pareceria que estas são planejadas desde instâncias globais inalcançáveis e que a única coisa acessível são os bens e as mensagens que chegam à nossa própria casa e que usamos “como achamos melhor.130
As lutas de gerações a respeito do necessário e do desejável mostram outro modo de estabelecer as identidades e construir a nossa diferença. Estamos nos afastando da época em que as identidades se definiam por essências a-históricas. Hoje, elas se configuram no consumo, dependem daquilo que se possui, ou daquilo que se pode chegar a possuir. Isso pode nos levar, segundo Rochefort, a uma dupla esquizofrenia:
A primeira diz respeito ao consumidor face ao trabalhador e a segunda diz respeito ao mesmo consumidor face ao cidadão. Comecemos pela primeira: (...) o consumidor, experto em otimização do seu poder de compra, derruba o assalariado seu vizinho, seu filho, seu amigo... ou ele mesmo! Porque querendo comprar mais barato, ele colabora com as transferências de fábricas ou os call centers. Pelo endividamento privado e público, os países ocidentais se abastecessem nos países emergentes sem contraparte produtiva, enquanto esses países acumulam reservas monetárias excessivas. É um desequilíbrio produtivo, inédito na História, que é preocupante.(...) O segundo dos nossos comportamentos esquizofrênicos opõe nossos comportamentos de consumidores e de cidadãos.(...) a deriva consumista influencia nossos relacionamentos com os eleitos políticos: prefeitos,
deputados. Todos vêm os administrados desfilarem, pedindo que resolvam problemas concretos, como se fossem prestadores de serviços. (...) O interesse geral deve ceder lugar ao interesse pessoal que passa antes de