1 CRIMINALIDADE E SELETIVIDADE PENAL A PARTIR DE UMA
2.3 Existem políticas públicas no Brasil voltadas para a vida no cárcere das mulheres?
Conforme visto nos tópicos anteriores, a situação do cárcere brasileiro encontra-se em uma situação alarmante. E, com relação ao universo feminino, não é diferente, ao contrário, as vicissitudes e as mazelas do encarceramento feminino em muito contribuem para o agravamento da situação do sistema penitenciário no Brasil. Nesse contexto, é preciso que sejam implantadas políticas públicas que possam, em curto, médio e longo prazo, ao menos amenizar os problemas existentes, prevenindo o agravamento da crise e também contribuir para uma melhoria na condição de vida de todos os cidadãos e cidadãs, que vivem intramuros ou mesmo livres, no convívio social.
Em uma pesquisa realizada na cidade de Cascavel no estado do Paraná sobre as políticas públicas do Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, realizado para enfrentar a violência contra as mulheres, inclusive as presas, constatou-se num primeiro momento, de forma geral e abrangente, que (SIMÕES, 2014, p. 05):
(...) as ações previstas às presas estão ligadas a ampliação do acesso à justiça, promovendo assistência jurídica gratuita, contribuindo para a humanização das prisões, garantindo espaços físicos adequados, capacitando para o trabalho, garantindo o exercício da sexualidade, garantindo os direitos reprodutivos, implantando o serviço de saúde integral, implantandoum (sic) sistema educacional, auxiliando na investigação dos casos de omissão institucional diante dos casos de violência contra as mulheres, garantindo a proteção à maternidade, garantindo atendimento adequado aos filhos das presas, garantindo a cultura e o lazer e promovendo mutirões de revisão penal.
Já adentrando especificadamente na pesquisa que refere-se a cadeia pública de Cascavel/PR, foram ouvidas diversas presas que nunca tiveram tratamento médico, expostas a doenças contagiosas e outras que já encontravam-se muito doentes. No caso de Rita (nome fictício utilizado pela pesquisa para melhor preservação dos informantes), o caso era grave, e infelizmente é apenas um em um milhão da realidade das prisões no brasil (SIMÕES, 2014, p. 06):
(...) presa por tráfico de drogas e condenada a 5 anos e 3 meses de prisão, mencionou sobre o caso em que uma presa dizia estar com tuberculose e necessitava de acompanhamento médico, porém nenhuma assistência foi concedida, então foram obrigadas a levara mulher até a grade e mostrar a terrível condição da presa. Só assim, os carcereiros juntamente com a Polícia Militar levaram-na para o hospital público e no outro dia as presas ficaram sabendo que aquela mulher era portadora do vírus HIV.
Quanto ao direito de visitas íntimas “dificilmente as visitas íntimas são efetivadas, pois segundo as depoentes, há muita resistência da administração em conceder liberdade para que as presas satisfaçam suas vontades sexuais.” A pesquisa informa que as visitas que acontecem esporadicamente são realizadas na própria cela, com a possibilidade da presença das outras apenadas durante o ato sexual (SIMÕES, 2014, p. 07).
Em um relato comovente, Carla (nome fictício utilizado pela pesquisa para melhor preservação dos informantes) fala sobre seu vínculo materno interrompido com seu filho de apenas 19 dias de nascimento quando foi detida (SIMÕES, 2014, p. 08):
Nesse caso pode-se citar o exemplo da detenta Carla, que aguarda condenação por tráfico de drogas, e que ao ser detida tinha um filho com apenas 19 dias de vida. Depois de presa Carla não pode amamentar e não teve mais nenhum contato com o seu filho. Infelizmente esse relato é muito comum entre as presas, que em grande parte perderam contato com seus filhos depois que foram detidas. Essa situação é degradante não apenas para as encarceradas, mas também para seus respectivos filhos, pois a criança acaba sofrendo o enclausuramento com a sua genitora, isto é, a criança cumpre a pena que era destinada unicamente para sua mãe.
Recentemente, na pretensão de promover e incentivar a aplicação de norma pelos poderes Judiciário e Executivo, o Conselho Nacional de Justiça deu publicidade oficial às Regras de Bankok – Regras das Nações Unidas para o Tratamento de Mulheres Presas e Medidas não Privativas de Liberdade para Mulheres Infratoras (2016), elaboradas e aprovadas
na Assembleia Geral das Nações Unidas. Trata-se de um tratado internacional publicado na Série de Tratados Internacionais de Direitos Humanos, do qual o Brasil é signatário, que estipula regras do cárcere feminino, juntamente com as Regras de Mandela - Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Presos (2016), sendo que ambos versam sobre uma série de tratados internacionais de Direitos Humanos.
A normal acima aborda um dos principais temas que devem ser tratados com prioridade pelas políticas públicas: a alternativa do encarceramento, da prisão em regime fechado e como deve isso servir apenas para casos extremos. Nesse sentido (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016, p. 10):
Embora se reconheça a necessidade de impulsionar a criação de políticas públicas de alternativas à aplicação de penas de prisão às mulheres, é estratégico abordar o problema primeiramente sob o viés da redução do encarceramento feminino provisório. De acordo com as Regras de Bangkok, deve ser priorizada solução judicial que facilite a utilização de alternativas penais ao encarceramento, principalmente para as hipóteses em que ainda não haja decisão condenatória transitada em julgado.
As Regras de Bankok salientam as ideias de discriminação de gênero e importância da observação de medidas cautelares diversas da prisão (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016, p. 13):
(...) alternativas ao encarceramento, levando em consideração as especificidades de gênero das mulheres e a consequente necessidade de priorizar a aplicação de medidas não privativas de liberdade àquelas que entraram em contato com o sistema de justiça criminal.
Reforçam ainda, a ideia de que “uma parcela das mulheres infratoras não representa risco à sociedade e, tal como ocorre com todos os infratores, seu encarceramento pode dificultar sua reinserção social” (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016, p. 14). Ainda, enfatizam que “ao sentenciar ou aplicar medidas cautelares a uma mulher gestante ou a pessoa que seja fonte principal ou única de cuidado de uma criança, medidas não privativas de liberdade devem ser preferidas sempre que possível e apropriado” (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016, p. 16).
Além disso, ao longo de sua estrutura, as Regras de Bankok expressam sobre princípios básicos de Direitos Humanos, sobre o ingresso das mulheres e crianças e suas
vulnerabilidades, acesso à justiça de que possuem direito, sobre alocação próxima à sua família, e também a respeito de materiais para satisfazer as necessidades de higiene específicas destas mulheres (absorventes higiênicos e água disponível principalmente às mulheres que realizam tarefa na cozinha, mulheres gestantes, lactantes ou durante o período de menstruação).
Outrossim, referem a inclusão de ampla avaliação médica voltada especificamente para mulheres para determinar a necessidade de cuidados de saúde básicos como (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016, p. 22):
(a) A presença de doenças sexualmente transmissíveis ou de transmissão sanguínea; e, dependendo dos fatores de risco, mulheres presas poderão optar por realizar testes de HIV, com orientação antes e depois do teste; (b) Necessidades de cuidados com a saúde mental, incluindo transtorno de estresse pós-traumático e risco de suicídio e de lesões auto infligidas; (c) O histórico de saúde reprodutiva da mulher presa, incluindo gravidez atual ou recente, partos e qualquer questão relacionada à saúde reprodutiva; (d) A existência de dependência de drogas; (e) Abuso sexual ou outras formas de violência que possa ter sofrido anteriormente ao ingresso.
Quanto às revistas, “deverão ser tomadas para assegurar a dignidade e o respeito às mulheres presas durante as revistas pessoais, as quais deverão ser conduzidas apenas por funcionárias que tenham sido devidamente treinadas em métodos adequados e em conformidade com procedimentos estabelecidos.” (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016, p. 25). No que tange ao contato com o mundo externo, o Tratado Internacional em comento assevera ser “incentivado e facilitado por todos os meios razoáveis o contato das mulheres presas com seus familiares, incluindo seus filhos/as, quem detêm a guarda de seus filhos/as e seus representantes legais.” (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016, p. 26), sem falar sobre a importância da capacidade dos funcionários para atender está população, devendo ser consideradas suas necessidades especiais, focando sempre na reinserção social da presa.
A regra 24 das normas de Bankok prevê a garantia de não utilização de algema durante o parto e puerpério, pontos importantes que viabilizam a proteção da dignidade da pessoa humana e principalmente a ideia de que mulher nenhuma, por mais que tenha cometido o pior crime previsto na legislação brasileira, merece ser algemada enquanto dá à luz ao seu próprio filho. É necessária a reflexão de que mais do que uma presa, é um ser
humano em situação indefesa e vulnerável que não representa perigo à sociedade, tampouco necessidade de tratamento degradante num momento tão delicado (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016, p. 25).
O assunto ainda mais relevante sobre as agentes penitenciárias que trabalham no sistema prisional é a necessidade de abordar e florescer sua sensibilidade, porque, ainda que logicamente importante a qualificação profissional de saúde, é preciso uma qualificação humanitária, visando à reinserção das apenadas na sociedade, com o mínimo de preservação de seus valores ou até mesmo a construção deles dentro do cárcere. Se os servidores públicos deste meio puderem tornar a prisão um lugar menos doloroso, mais harmônico e mais familiar, mais chances possuem os encarcerados de prosperarem quando terminarem suas penas. Sobre isso, as Regras de Bankok declaram (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2016, p. 29) que:
Administradores de prisões deverão desenvolver e implementar métodos de classificação que contemplem as necessidades específicas de gênero e a situação das mulheres presas, com o intuito de assegurar o planejamento e a execução de programas apropriados e individualizados para a reabilitação, o tratamento e a reintegração das presas na sociedade.
Nesse sentido, é imprescindível um acompanhamento posterior à saída da apenada do sistema prisional, com psicólogos, assistentes sociais, assistência jurídica e principalmente investimentos em políticas públicas que flexibilizem as oportunidades de retorno à vida normal. Novas oportunidades de emprego, nova perspectiva de família à aquelas mulheres que sofreram violência doméstica, recuperação do vínculo amoroso e afetivo com os filhos, dentre outras tantas situações que podem ser utilizadas para que uma mulher, egressa do sistema prisional, não se sinta excluída ao retornar para o meio social.
Recentemente, foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal o Habeas Corpus Coletivo n.º 143.641 do Estado de São Paulo, e decidiu pela possibilidade de substituir a prisão preventiva pela prisão domiciliar às mulheres presas, gestantes ou mães de crianças de até 12 anos ou de pessoas com deficiência, sem prejuízo da aplicação das medidas alternativas previstas no artigo 319, do Código de Processo Penal. Os advogados do Coletivo de Advogados em Direitos Humanos responsáveis pela impetração do HC sustentaram que (SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. 2018, p. 04):
A prisão preventiva, ao confinar mulheres grávidas em estabelecimentos prisionais precários, subtraindo-lhes o acesso a programas de saúde pré-natal, assistência regular na gestação e no pósparto, e ainda privando as crianças de condições adequadas ao seu desenvolvimento, constitui tratamento desumano, cruel e degradante, que infringe os postulados constitucionais relacionados à individualização da pena, à vedação de penas cruéis e, ainda, ao respeito à integridade física e moral da presa. Asseveraram que a política criminal responsável pelo expressivo encarceramento feminino é discriminatória e seletiva, impactando de forma desproporcional as mulheres pobres e suas famílias. (...) Citaram casos graves de violações dos direitos das gestantes e de seus filhos, e realçaram que esses males poderiam ser evitados, porque muitas das pessoas presas preventivamente no Brasil são, ao final, absolvidas, ou têm a pena privativa de liberdade substituída por penas alternativas. Acrescentaram que, segundo dados oficiais, faltam berçários e centros materno-infantis e que, em razão disso, as crianças se ressentem da falta de condições propícias para seu desenvolvimento, o que não só afeta sua capacidade de aprendizagem e de socialização, como também vulnera gravemente seus direitos constitucionais, convencionais e legais.
Os argumentos utilizados para impetrar o remédio Constitucional acima referido são sustentados na preservação dos Direitos Humanos e na tentativa de não repreender as violações que as mulheres presas preventivas sofrem dentro da cadeia, sem sequer estarem cumprindo pena, sem sequer haverem sido condenadas por eventual delito que, conforme expressado, podem até mesmo ser absolvidas. Os danos causados pelo cárcere, ainda que as mulheres sejam absolvidas, são permanentes e difíceis de serem restaurados, principalmente psicológicos, devido às lacunas deixadas em aberto nas suas vidas.
Em votação do HC Coletivo, o Ministro Relator Ricardo Lewandowsi referiu que a situação das mulheres “são especialmente inquietantes e levarmos em conta que o Brasil não tem sido capaz de garantir cuidados relativos à maternidade nem mesmo às mulheres que não estão em situação prisional.” (SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, 2018, p. 26). Ainda, em concessão do Habeas Corpus, o Relator referiu (SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, 2018, p. 34):
As narrativas acima evidenciam que há um descumprimento sistemático de regras constitucionais, convencionais e legais referentes aos direitos das presas e de seus filhos. Por isso, não restam dúvidas de que “cabe ao Tribunal exercer função típica de racionalizar a concretização da ordem jurídico-penal de modo a minimizar o quadro” de violações a direitos humanos que vem se evidenciando, na linha do
que já se decidiu na ADPF 347, bem assim em respeito aos compromissos assumidos pelo Brasil no plano global relativos à proteção dos direitos humanos (...).
A concessão desta medida evidencia um grande passo para o reconhecimento da situação das mulheres presas, gestantes, com filhos pequenos e que dependem mais do que do apoio financeiro de suas mães, que muitas vezes são as únicas fontes de renda da família, já que, conforme pesquisa anterior, quase 90% dos filhos de presos homens permanecem sob os cuidados da mãe, mas principalmente do apoio materno, do carinho, do amor, da figura de proteção e do vínculo mãe-filho que deve ser preservado. E assim como os filhos possuem a necessidade do amparo da mãe, as mães encarceradas também precisam do apoio afetivo dos filhos, o que parece ser um dos principais estímulos a não sucumbir às vicissitudes do cárcere.
Quanto às políticas públicas na saúde, em 2004, o Ministério da Saúde elaborou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher – Princípios e Diretrizes, que propõe diretrizes para a humanização e a qualidade do atendimento, questões ainda pendentes na atenção à saúde das mulheres. Toma como base os dados epidemiológicos e as reivindicações de diversos segmentos sociais (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004, p. 10). Revela a situação história de desigualdade e tratamento diferenciado entre os sexos que refletem na saúde dentro das cadeias (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2016, p. 12 – 16):
Levando em consideração que as históricas desigualdades de poder entre homens e mulheres implicam num forte impacto nas condições de saúde destas últimas (ARAÚJO, 1998), as questões de gênero devem ser consideradas como um dos determinantes da saúde na formulação das políticas públicas. (...) As mulheres organizadas argumentavam que as desigualdades nas relações sociais entre homens e mulheres se traduziam também em problemas de saúde que afetavam particularmente a população feminina. Por isso, fazia-se necessário criticá-los, buscando identificar e propor processos
políticos que promovessem mudanças na sociedade e
consequentemente na qualidade de vida da população.
A Política elenca diversas falhas do sistema no que tange à saúde de todas as mulheres, incluindo as que estão em situação de prisão: doenças sexualmente transmissíveis, gravidez - tanto de mulheres quanto de adolescentes -, violência, aborto, guarda dos filhos e visita íntima. Assim, observando os tópicos que precisam ser modificados, traz a tentativa de resolução para estas situações, principalmente sob uma ótica humanitária (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004, p. 69 – 72):
Ampliar e qualificar a atenção clínico-ginecológica, inclusive para as
portadoras da infecção pelo HIV e outras DST:
– fortalecer a atenção básica no cuidado com a mulher; – ampliar o acesso e qualificar a atenção clínico- ginecológica na rede SUS. Estimular a implantação e implementação da assistência em planejamento familiar, para homens e mulheres, adultos e adolescentes, no âmbito da atenção integral à saúde: (...) – garantir a oferta de métodos anticoncepcionais para a população em idade reprodutiva; – ampliar o acesso das mulheres às informações sobre as opções de métodos anticoncepcionais; (...) Promover a atenção obstétrica e neonatal, qualificada e humanizada, incluindo a assistência ao abortamento em condições inseguras, para mulheres e adolescentes: organizar rede de serviços de atenção obstétrica e neonatal, garantindo atendimento à gestante de alto risco e em situações de urgência/emergência, incluindo mecanismos de referência e contra-referência. (...) Promover, conjuntamente com o PN- DST/AIDS, a prevenção e o controle das doenças sexualmente transmissíveis e da infecção pelo HIV/aids na população feminina: – prevenir as DST e a infecção pelo HIV/aids entre mulheres; – ampliar e qualificar a atenção à saúde das mulheres vivendo com HIV e aids. Reduzir a morbimortalidade por câncer na população feminina: – organizar em municípios pólos de microrregiões redes de referência e contra-referência para o diagnóstico e o tratamento de câncer de colo uterino e de mama;
Verifica-se, portanto, que apesar das implementações de certas políticas públicas para as mulheres apenadas, o sistema ainda encontra grandes dificuldades e grandes lacunas a serem preenchidas. Logicamente que toda e qualquer tentativa de colocar em prática alguma medida que amenize as cicatrizes que deixam o cárcere, são bem vindas, mas precisam estas serem concretas e capazes de superar, ainda que minimamente, as tantas imperfeições do Estado nesse setor.
Não se deve desacreditar num sistema carcerário adequado, porquanto, o tema das mulheres encarceradas vem ganhando bastante visibilidade no mundo das discussões juristas, psicológicas e sociais. É muito difícil chegar-se ao ideal, para isso precisa de muitos anos de políticas públicas eficientes sendo aplicadas incansavelmente por pessoas capacitadas para encarar a situação de frente e de maneira produtiva. É necessário investimento do Estado em oportunidades de trabalho e estudo para que as ex-apenadas consigam seguir outro rumo de vida ao deixarem o cárcere e, em especial, ao não mais retornarem. É necessário empatia da sociedade como um todo para o combate ao preconceito e intolerância que move o Século XXI porque, afinal, todos merecem uma segunda chance!
2.4 Análise sobre as decisões dos Tribunais pátrios e a observação da concessão de prisão domiciliar em caráter preventivo às mulheres que se enquadram na aplicação do Habeas Corpus Coletivo.
Conforme referido no tópico anterior, recentemente o Supremo Tribunal Federal julgou o Habeas Corpus coletivo n.º 143.641 que trata sobre a prisão domiciliar como substituto da pena preventiva em regime fechado. Com isso, cabe observar se os Tribunais, em especial o do Estado do Rio Grande do Sul e além disso, se o próprio STF vem respeitando esta decisão e outras referentes as apenas mulheres e as suas necessidades especiais dentro do cárcere, tendo em vista buscar a melhor solução para suprir as lacunas e omissões, bem como, para minimizar as mazelas do atual sistema penitenciário brasileiro.
Em julgamento recente, em 24 de outubro de 2018, pela Terceira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, foi concedida a ordem ainda que parcialmente, a uma paciente primária e mãe de dois filhos menores, com direito à substituição da custódia preventiva pela prisão domiciliar, no Habeas Corpus n.º 70079216826, da Comarca de Uruguaiana, em consonância com a citada decisão do STF:
HABEAS CORPUS. TRÁFICO ILÍCITO DE DROGAS.
LIBERDADE CONCEDIDA. Paciente primária, presa em 10 de agosto de 2018, na posse, em tese, de 15g de maconha e porção de cocaína. Pequena quantidade de droga para fins de aferição de perigo de liberdade. Inexistência de apreensão de qualquer armamento. Paciente absolutamente primária, a qual nasceu no ano de 1993 e não registra envolvimento em qualquer outro expediente de natureza penal. Delito cometido sem violência contra a pessoa. Paciente que possui 2 filhos menores, pelo que faria, inclusive, jus à substituição da prisão preventiva pela domiciliar, nos termos do inciso V do artigo 318 do Código de Processo Penal, incluído pela Lei n.º 13.257, de 8 de março de 2016. Concessão de habeas corpus coletivo pelo Supremo Tribunal Federal para determinar a substituição da prisão preventiva pela domiciliar de todas as mulheres presas, gestantes, puérperas, ou mães de crianças e deficientes sob sua guarda. Prisão preventiva para garantia da ordem pública que se justifica apenas e exclusivamente diante das circunstâncias do caso concreto, sob pena de configurar a