1 ENSAIOS SOBRE A CONSTRUÇÃO DO TERCEIRO SETOR
1.1 O PÊNDULO DO PAPEL DO ESTADO NAS FUNÇÕES SOCIAIS SOB A SOCIEDADE
1.1.2 Expandir mercados e refrear conflitos: o Estado de Bem-Estar Social
O modelo do capital, até então conduzido por uma política liberal fundante, tinha como cerne a liberdade de mercado. Por princípio, “o mercado disporia [...] de mecanismos estabilizadores automáticos, por meio da concorrência, capazes de corrigir seus desequilíbrios e garantir eficiência se não sofresse interferências externas” (OLIVEIRA, 2009, p. 31), leia-se externas como estatais. Por este modelo, o Estado trataria estritamente da segurança, da manutenção da ordem, da lei e do direito à propriedade. O pêndulo estava posto no extremo da diminuição do papel do Estado, porém, ele movimenta-se, conforme segue.
Este modelo do capital e de um Estado arvorado pelos reflexos de uma sociedade de classes, concretizado por políticas ortodoxas de acúmulo de capital, migrou por variados contextos socioeconômicos e culturais, independente das diferenças entre eles, sistematicamente mirando o ganho econômico e gerando conflitos e estragos sociais como “consequências naturais”.
Estes estragos sociais, que para Soares (2010) foram e são mais significativos nos países em que estas políticas econômicas foram implementadas sem a existência de uma rede de proteção social fortalecida, tornaram-se inicialmente capítulo secundário para classes conservadoras dominantes, as quais davam a estas assimetrias sociais o rótulo de fatos intrínsecos de uma ordem social que se pauta pela igualdade jurídica e liberdade individual, portanto atreladas às escolhas individuais, afastando possibilidades factíveis destas escolhas.
Entretanto, das iniciais desigualdades aprofundados problemas sociais paulatinamente foram tomando corpo, exigindo algum tipo de intervenção para a própria manutenção do modelo pressionado pelos desequilíbrios sociais. Para Manãs e Medeiros (2012), as primeiras ações compensatórias para minoração destes danos partiram de forma independente do Estado burguês, principalmente por intervenções da igreja católica e pelo surgimento de instituições assistencialistas a partir do final do século XIX, copiando modelos ainda absolutistas.
Não obstante a existência de ações compensatórias, estas não se mostraram suficientes para superarem uma das contradições centrais do modelo do capital: a que contrapõe de um lado a necessidade de manter um ativo a ser explorado e de outro lado a destruição deste ativo por suas próprias ações. Neste sentido, esta superação é vista como possível por meio de dois caminhos: o da expansão de novos mercados e o da ampliação das ações que mantém os atuais ativos em condição de contínua exploração, ambos com objetivos de lucratividade e de exploração de força de trabalho, princípio este para a nutrição da mais valia caracterizada por Marx. Ressalta-se que este segundo caminho aplica-se aos velhos e aos novos mercados.
Com isto, estrutura-se como solução a este cenário conflituoso a política do Estado de Bem-Estar Social. Esta, submissa ao modelo do capital, nasce no seio de uma concepção socialdemocrata pautada por ideias do britânico John Maynard Keynes, economista do século XX, que propunha abrandar a crise econômica provocada pelo liberalismo com a intervenção estatal, porém sem abandonar o capitalismo e sem abarcar o socialismo.
Keynes propôs ampliar o papel do Estado para salvar o próprio modelo do capital, com inserção de funções distributivas estabilizadoras e funções desenvolvimentistas. Assim, a
política do Estado de Bem-Estar Social contempla uma política de desenvolvimento para expansão de novos mercados e uma concomitante política distributiva para abrandamento de distorções sociais como forma de manter um mercado consumidor. O pêndulo da participação do Estado caminha para um lado oposto ao anterior.
Para a expansão de mercados funda-se a Teoria do Desenvolvimento ditada pelo Banco Mundial. Por esta teoria desenvolvimentista, os países são classificados em estágios de desenvolvimento e, como ideal, passam do subdesenvolvido para o desenvolvido pelo alcance de metas de crescimento industrial e de infraestrutura, o que provoca aumento de trabalho e consumo, mirando-se um teórico bem-estar-social pela produção e ganhos de todos. Para isto, países centrais financiaram o desenvolvimento de países periféricos subdesenvolvidos e em desenvolvimento, impuseram um modelo próprio de desenvolvimento econômico e social e, naturalmente, uma conta a ser paga e uma dependência útil (MONTAÑO, 2014).
Segundo Sader (2009), este modelo conduziu países periféricos, entre os quais o Brasil, a uma industrialização endividada e atrasada em relação aos países desenvolvidos. Em relação a dívida brasileira relata Behring (2003):
A maior parte da dívida externa foi contraída pelo setor privado, por pressões do FMI o feitor da dívida, e houve na sequência uma crescente e impressionante socialização da mesma. No Brasil, 70% da dívida tornou-se estatal. O fenômeno da estatização de 2/3 da dívida é muito importante para compreender a crise do Estado no Brasil. (BEHRING, 2003, p.44).
Esta migração provocou uma saturação da capacidade de pagamento estatal, haja vista o alto custo do absorvido financiamento público junto ao mercado externo para a composição de infraestrutura e de uma indústria não existente (SADER, 2009).
Esta sucessão de fatos, construtores de um cenário crítico ao final dos anos 80 do século XX, comprovava a Teoria da Dependência, antevista por Florestan Fernandes (1975) e exposta por Montaño (2014), pela qual o modelo de desenvolvimento imposto criava colônias comerciais e financeiras em substituição às anteriores colônias territoriais. Fincava-se uma dependência financeira, tecnológica e comercial.
O lucro é maximizado a partir de regiões menos desenvolvidas pela fabricação de bens de consumo, processo este intermediado pela instalação de filiais de indústrias dos centros autodenominados desenvolvidos e dos empréstimos internacionais para incremento da infraestrutura e formação de mão-de-obra. Tem-se, assim, a expansão de mercados, pela qual o similar além-mar britânico da revolução industrial ganha contornos globais, e cria-se uma
nova modalidade de dependência, porém de mesma razão entre colônia e colonizador. O modelo desenvolvimentista dependente, direta ou indiretamente, construiu um cenário de crise fiscal do Estado em países latino-americanos (MONTAÑO, 2014) (FIORI, 2003).
A este cenário, entretanto, condicionantes foram incorporados, principalmente os resultantes dos avanços das ideias socialistas e marxistas no seio da classe operária no mesmo período histórico. O contexto para sustentar o capital tornou-se, assim, mais complexo, e o quadro de conflitos sociais, coetâneo à expansão de mercados e desenvolvimentismo, tornou- se o espaço propício para o segundo caminho da política de Bem-Estar Social, o do abrandamento das distorções sociais como forma de manter um mercado consumidor.
Assim, a proposta pautou-se pela mitigação das desigualdades sociais por meio de políticas sociais e serviços públicos de interesse à população. De natureza estatal, seu propósito era o uso do Estado para superação das crises de contradições do capital. (BEHRING; BOSCHETTI, 2007).
Antes de dar sequência à narrativa do Estado de Bem-Estar social, cabe abrir parêntese para delimitar o escopo do termo serviço público, embora já utilizado no capítulo introdutório. Para Mello (2009), serviço público é toda atividade de utilidade direta para os administrados, prestada pelo Estado ou quem lhe faça as vezes, e instituída sob um regime de direito público. Complementarmente Di Pietro (2011) insere nos serviços públicos os considerados serviços públicos sociais, definidos por ela como aqueles que atendem a necessidades coletivas e objetivam alcançar direitos sociais e fundamentais do homem. Por estas referências guiamos, neste trabalho, o uso da expressão serviço público, utilizando outras especificações quando necessário detalhar tipo de serviço público sob reflexão. Fechado o parêntese, retornamos à narrativa.
A política distributiva do estado de Bem-Estar social implantou providências estatais nas áreas da saúde, educação, habitação, renda e previdência social, designando um Estado assistencial que garantia padrões mínimos para os cidadãos através de serviços públicos. Houve maior intervenção estatal no sentido de assegurar geração de riquezas materiais com a diminuição de desigualdades sociais.
Para Soares (2009), por este conceito implantou-se, principalmente na Europa, uma rede de proteção social mínima e consistente, todavia sem atacar as suas causas, apenas as consequências. Neste mesmo sentido, Paulo Netto (1995) julga a conjuntura social- econômica-política do “Estado de Bem-Estar Social” como um ordenamento que visou
compatibilizar a dinâmica da acumulação e da valorização capitalista com a garantia de direitos sociais mínimos, sem, entretanto, descaracterizar a sua finalidade de sustentação de um modelo de desenvolvimento econômico pautado pelo capital.
Segundo Behring e Boschetti (2007), nas Américas a política foi predominada pela assistência aos pobres, reduzidas transferências universais e modestos planos de previdência social. Em países centrais da Europa a ênfase foi na utilização dos seguros sociais, e, nos países da Escandinávia, a política foi mais universal e de não mercantilização dos direitos sociais, com promoção de qualidade dos serviços públicos. Embora originadas da mesma concepção, estas diferenças marcaram estratégias de atuação que tiveram reflexos nas políticas sociais no Brasil, o qual adotou mais enfaticamente a linha americana.
O Estado do Bem-Estar Social vingou como política da socialdemocracia dentro do modelo capitalista entre os anos de 50 e meados dos anos 70 do século XX, com algumas diferenças de atuação e de anos entre os países, como citam Behring e Boschetti (2007).
Contudo, o crescente endividamento dos países periféricos, implicando incapacidade de pagamento de dívidas externas contraídas e incapacidade de atendimento de políticas públicas sociais, aliado aos princípios de um novo liberalismo já em experimento em alguns países, conduziram mudanças. Com isto, o pêndulo novamente movimentou-se no sentido do modelo superar mais uma de suas crises. De ideias já brotadas e experimentadas perifericamente, cresce a política de um novo liberalismo, ou neoliberal, trazendo o pêndulo novamente para um lado menos intervencionista do Estado.