É no sentido de identificação das condições ideais de participação das universidades, que se busca compreender as especificidades que as regiões apresentam para o desenvolvimento. No caso aqui analisado, o esforço de implantação do Centro de Desenvolvimento do Semiárido possui uma vinculação direta com a trajetória dos movimentos sociais no cariri paraibano e com as condições de vida dos moradores das áreas
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rurais, sendo estes fatores que determinaram os processos de definição das linhas de concepção e de implementação do novo campus da UFCG enquanto elemento desencadeador do desenvolvimento local.
A partir da revisão dos estudos nacionais e internacionais, pensamos que uma crítica possível aos enfoques numéricos/estatísticos pode ser encaminhada considerando os embates situados no campo das relações políticas e sociais, por que não dizer culturais e específicos das relações de poder da regionalidade, os quais subjazem aos números que são apresentados, são recorrentemente sub focalizados, quando podem estar diretamente ligados às condições de subdesenvolvimento e do desempenho das economias locais e regionais.
O projeto de expansão das universidades federais no Estado da Paraíba se deu a partir de dois movimentos diferentes: um que compreende o próprio surgimento de instituições nascidas dentro do contexto de atuação regional, como é o caso da Universidade Estadual da Paraíba e da Universidade Federal de Campina Grande e outro movimento que se apresenta “puxado” pelas políticas públicas que fomentaram a expansão e reestruturação das universidades em escala nacional, com metas bastante evidentes, como a de possibilitar o acesso dos jovens na faixa etária adequada para o ingresso no ensino superior e que se encontravam fora dele.
De maneira geral, o contexto desses movimentos de expansão, não difere daquele apresentado por outras instituições no país, sendo que, na literatura especializada, o movimento de expansão do ensino universitário é focalizado a partir do “substancial crescimento que se deu a partir dos anos de 1960, em torno das instituições de ensino superior pelo mundo, particularmente nos Estados Unidos, na Alemanha, França, Itália e Japão”, conforme aponta WINDOLF (1997, p. 1).
Nesses estudos e em muitos outros discursos sobre o desenvolvimento, a educação superior tem sido apontada como um dos principais pilares que sustentam o desenvolvimento desses países nos seus aspectos econômicos, sociais e culturais. O aumento do número de instituições tem, nesses países, uma relação direta com os ganhos graduais nas taxas de acesso e de efetivação dos processos sociais ligados à educação, inclusive no que diz respeito ao ensino superior, sendo focalizados os esforços endógenos e exógenos, realizados para a transformação na direção do aperfeiçoamento, do desenvolvimento, nas esferas econômicas, políticas e culturais de cada país.
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This sort of growth can be seen as endogenous, as it derives from forces set in motion by the educational expansion itself. (…) The expansion in university enrollment is not maintained solely by endogenous forces, but is influenced by economic and political circumstances which, in terms of the educational system, can be termed exogenous. (WINDOLF, 1997, p.3)6
No caso do modelo brasileiro de expansão do ensino universitário pela via das políticas públicas, há alguns aspectos que precisam ser considerados. Os resultados apontam um crescimento da taxa de matrículas no ensino superior, que as lideranças locais tendem a destacar como positivas, bem como a ampliação da presença das instituições nas regiões. No entanto, a existência de condições propícias para o desenvolvimento ser alavancado depende de mudanças estruturais, sobre as quais algumas teorias vão se debruçar.
Segundo Rolim & Serra (2009, p. 407), analisando o percurso do desenvolvimento propiciado na região norte do Estado do Paraná, “o desenvolvimento só ocorrerá se houver uma mobilização ou uma ativação das forças, das energias socioeconômicas regionais e locais”. Destacam ainda esses autores que o capital físico é importante, mas o social (humano, institucional) é indispensável para a produção de um eixo de desenvolvimento regional em um projeto efetivo” e para isso ocorrer é apenas mediante uma construção política e social.
Cada vez mais o capital humano tem sido destacado pelos órgãos de cooperação multilateral, tais como a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, Banco Mundial e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE. Há nesses organismos internacionais uma ideia consensual de que a valorização do capital humano se reflete em bem estar direto para as sociedades, na sua capacidade de absorção das transformações e dos avanços tecnológicos, principalmente pela via do crescimento e do fortalecimento dos processos de globalização.
Por outra via, há também a crença ou propósito de que a busca pela aproximação dos sistemas de educação a um padrão prescrito e orientado através desses organismos internacionais seja capaz de reduzir indicadores desfavoráveis, provocar impactos nas taxas de mortalidade e natalidade, bem como melhorar a distribuição de renda. Tais orientações despertam algumas indagações, no que diz respeito à produção dessas desigualdades e assimetrias e o real propósito das ações. Ou seja, se as próprias organizações multilaterais
6 Esse tipo de crescimento pode ser visto como endógeno, já que deriva de forças colocadas em movimento pela expansão universitária (…) A expansão nas matrículas das universidades não é mantida apenas por forças endógenas, mas também é influenciada pelas circunstâncias econômicas e políticas, as quais, em termos do sistema educacional, podem ser consideradas exógenas. (Tradução do orientador)
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como o Banco Mundial, recomendam os caminhos a serem seguidos nas suas políticas de fortalecimento do capital humano, como é possível ainda existirem tantas assimetrias e desigualdades? Ou ainda, onde está a causa dessas assimetrias que não seja no próprio modo de organização capitalista?
Na compreensão das questões pertinentes à expansão do ensino superior, são apontadas por Windolf (1997, p. 3 a 18) as Teorias Funcionalistas (Capital Humano), da Competição por Status Individuais e a Teoria do Conflito Coletivo. A teoria do capital humano liga diretamente os processos sociais aos ganhos ou perdas de espaços institucionais mediante as crises ou recuperações da capacidade dos mercados. Dessa forma, a expansão das universidades seria também reflexo dos avanços e dos investimentos possibilitados a partir de condições favoráveis no âmbito das transformações globais.
Ao contrário da teoria do capital humano, a da competição por lugares cada vez mais escassos situa a explicação na esfera do sujeito e no desenvolvimento de suas habilidades. As duas teorias de expansão educacional se apresentam contrastadas, sobretudo, pela relação de “integração/dissociação” (idem, p. 12). Ou seja, a teoria do capital humano propõe a integração do mercado com as universidades a fim de fortalecer os seus processos de sustentação, enquanto a da meritocracia defende a ocupação desses espaços por pessoas mais qualificadas, sedo que o mercado absorva apenas quem foi capaz de desenvolver as habilidades que lhe interessam. De fato, o mercado absorve apenas os profissionais que podem ser favoráveis ao seu crescimento e manutenção. No entanto, a perspectiva de afirmação do sujeito e dos processos de autonomia implicam o desenvolvimento das habilidades para além de um campo de necessidades prescritas fora desse sujeito.
A terceira teoria para explicar a expansão e o aumento da demanda pelas universidades, a do Conflito Coletivo, tem uma matriz na sociologia de Weber, quando trata dos grupos sociais em busca de afirmação e de disputas por espaços de influência social e política (cf. WINDOLF, 1997).
Para além das disputas por afirmações situadas no campo das subjetividades, há entre os grupos religiosos, políticos, empresariais, étnicos, acadêmicos e dos movimentos sociais uma demanda pela emancipação desses grupos e participação nos processos decisórios da sociedade. Isso parece ter assumido uma influência muito forte, sobretudo nas justificativas para a implantação de várias políticas governamentais que favorecem a grupos específicos,
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fruto de embates políticos e sociais travados pela ocupação de espaços nas universidades, como é o caso da lei das cotas (raciais, sociais, etc).
Essas teorias não são totalmente excludentes. Ponderamos aqui inclusive que os processos de expansão possam ser entendidos a partir da integração de todas elas. O processo de crescimento das universidades pode tanto ser reflexo da luta de grupos da sociedade por espaços simbólicos, bem como reflexo de uma demanda situada nos processos econômicos que se valem dos sujeitos que ofereçam oportunamente as melhores condições de preparação e adequação às leis do mercado. Este último inclusive cria demandas que são postas às instituições de ensino e de pesquisa como desafios para a preparação dos sujeitos adequados às suas necessidades, tais como um domínio intenso dos saberes necessários aos complexos processos de integração das economias locais e global.
Os desafios na prática, quando se analisa as experiências de desenvolvimento a partir da conjuntura internacional e regional, apontam que os obstáculos mais significativos na organização de um eixo de desenvolvimento regional estão situados na esfera social e não nas condições de que as instituições de ensino e pesquisa possam fornecer esses instrumentais técnicos e humanos necessários, com a “falta de confiança das lideranças da comunidade para a construção de um projeto de interesse comum e as poucas condições políticas de se criar um ambiente de cooperação” (ROLIM & SERRA, 2009, p. 408).
O próprio ambiente globalizado, contraditoriamente dificulta por parte das lideranças locais as iniciativas concebidas para serem sustentáveis e efetivamente vinculadas com um projeto de desenvolvimento local que fuja de uma linha de interesse capitalista, tais como o foco na participação dos fluxos de capitais mobilizados regionalmente em função dos investimentos, mais até mesmo do que as efetivas contribuições culturais e sociais que as instituições universitárias estão inclusive legitimadas a oferecerem.