1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: PRODUÇÃO DO ESPAÇO,
1.1 Espaço e produção do espaço
1.1.3 Expansão urbana e segregação socioespacial
³FRQGLomRHILFD]HDWLYDGDUHDOL]DomRFRQFUHWDGRVPRGRVGHSURGXomRHGHVHXVPRPHQWRV´
como aponta Santos (1986, p. 139).
Entende-se que, para apreender o espaço urbano e suas contradições, é necessário descobrir qual a lógica que rege a sua formação. A análise do conteúdo e dos processos imbricados na construção de seus elementos e formas (paisagem) pode dizer muito a respeito da lógica que rege a reprodução do modelo de sociedade num dado momento histórico. Sobre a relação entre os vários espaços do espaço urbano, e dos vários espaços urbanos entre si e com o todo, o espaço geográfico, Silva (1991) afirma,
Haveria no mundo uma porção de espaços geográficos. Seriam os espaços resultados ± estes são espacializados ± os lugares, o chão construído. Para nós, mais importante do que eles é a materialidade das relações que estão nesses resultados e ao mesmo tempo vêm e estão em vários lugares. O que significa dizer que tudo o que se passa no lugar, não morre nele, não se esgota nele (SILVA, 1991, p. 8).
Torna-se necessário, então considerar que a estruturação do espaço urbano, de modo geral, e de suas formas, de modo específico, não se explica coerentemente no nível imediato. Sua materialidade envolve como explicitada por Campos (1988, p. 112- ³R movimento dialético entre a razão estrutural e a conjuntural, representado pela prática dos DJHQWHVVRFLDLVGLUHWDPHQWHHQYROYLGRVFRPDIRUPDomRGRHVSDoRXUEDQR´QXPSURFHVVRGH SHUPDQHQWH³YLU-a-VHU´
Entende-se então, que o espaço produzido, como exemplo, uma área residencial, se concretiza trazendo em seu cerne contradições sociais que se explicam pela natureza do trabalho sob injunções do capitalismo. Como resultado dessa lógica contraditória, o espaço socialmente é apropriado enquanto mercadoria, acessível de forma restrita e diferenciada a parcelas da sociedade. Para isso, é necessário não apenas explicá-la, mas entender a segregação, as suas articulações e seus processos, bem como os processos sociais e espaciais.
meio de acumulação, o que leva ao acirramento das contradições entre valor de uso e valor de troca, entre capital e trabalho, entre riqueza e pobreza.
Com vistas à reprodução do capital e da vida humana dá-se o constante processo de reorganização espacial, através da incorporação de novas áreas ao espaço urbano, do adensamento do uso do solo, da deterioração de algumas áreas, da renovação de outras ou da diferente distribuição de infraestrutura e equipamentos urbanos.
Nesse processo de sua produção a cidade torna-se mercadoria e promovem a exclusão social, ligada à divisão do trabalho e à segregação socioespacial decorrente, os assentamentos subnormais. Considera-se a cidade como uma projeção da sociedade, compreendendo que o quadro de extrema desigualdade social dificulta, cada vez mais, sua construção de forma harmoniosa e, por extensão, a de uma sociedade mais justa.
De acordo com o pensamento de Souza (2007), o fenômeno da segregação residencial é, sem dúvida, universal ao longo da história da urbanização e tão antiga quanto às cidades. Sempre existiram grupos que, devido à sua natureza, à sua etnia ou a qualquer outro fator, são forçados a viver em áreas que, na prática ou até formalmente, ficam separados, excluídos de certos espaços reservados para as classes e grupos dominantes da sociedade.
Todavia, o moderno capitalismo, inicialmente na Europa e depois em outras partes do mundo, aumentar a gravidade da segregação residencial urbana, intrínseca às cidades.
Principalmente, nas cidades de países subdesenvolvidos e nos que estão em desenvolvimento, ou de desenvolvimento tardio, o capitalismo trouxe consigo uma distância crescente entre o local de trabalho e o de moradia, tanto para as classes pobres como também para a classe média.
Essa segregação, de acordo com Corrêa (2005), significa não apenas diferença de residências, mas também de renda real, ausência ou má qualidade de serviços públicos, como educação, saúde, transporte, esgoto, e de outras formas de infraestrutura urbana. Assim, os custos da cidade, como o crime e a violência, os impactos ambientais, a miséria e a pobreza ficam distantes das classes dominantes, sendo mais difícil atingi-las.
&RQILUPD9LOODoDSTXH³XPDGDVFDUDFWHUtVWLFDVPDLVPDUFDQWHVGD metrópole brasileira é a segregação espacial dos bairros residenciais das distintas classes sociais, criando-VH VtWLRV VRFLDLV PXLWR SDUWLFXODUHV´ 'HVVD PDQHLUD FRPR DILUPD &DUORV (1992), a desigualdade espacial é fruto da desigualdade social. De acordo com Corrêa (2005), a segregação se dá especialmente quanto à localização das residências, que está associada à reprodução da força de trabalho. Assim, a sociedade urbana transforma seletivamente os lugares, adaptando-os à suas necessidades de funcionamento.
De acordo com Ribeiro (2006), o novo milênio começa com crescentes evidências de que novos mecanismos de espoliação urbana estão emergindo nas cidades, relacionados com o fato de que a segregação e a exclusão habitacional produzem espaços nos quais se verifica a acumulação de desvantagens sociais; lugares que possuem uma característica comum entre eles; segmentos sociais decorrentes da precarização do emprego, do desemprego, resultando na desestruturação familiar, no isolamento social na guetificação.
Todas as características deste mundo encontram-se no conteúdo da cidade, de suas atividades e da vida urbana, e sobra como produto espacial a imensa periferia proletária, que pode ser considerada como atraso ou resultado da exploração por parte de outros. A globalização impõe a lógica do mercado e, ao mesmo tempo, cria a massa marginal, enquanto a modernização, enquanto promove, quebra os laços de integração social.
As políticas municipais, que tem como resultado concreto as interferências no espaço, implicam a instituição de um tempo. Pintaudi (2001) afirma que, muitas vezes, as implicações futuras dessa conduta acontecem sem nenhuma priorização das atividades, o que resulta em inúmeras intervenções desconexas e sem possibilidades duráveis já que muitas são lançadas para solucionar problemas imediatos. Suas intervenções interferem na valorização e na significação dos vários espaços que compõem a cidade, pela atividade da infraestrutura realizada, inicialmente e, posteriormente, através da imagem urbana.
Explica-se que o termo valorização se deriva do conceito de valor,
Neste sentido a valorização do espaço (objetiva e material) deve ser entendida como aquela que exprime em uma forma mais geral o longo processo histórico de produção do espaço pela sociedade, que pressupõe uma evolução contraditória em sua relação com os objetos da natureza, sucessivaapropriações de parcelas cada vez mais amplas do espaço terrestre, seguidas de povoamento, fixação e definição de certa espacialidade nos diferentes usos que faz desses espaços. (COSTA, 1983, p. 93).
Desta forma, compreendem que a valorização do espaço acontece por uma articulação entre o valor do espaço e o valor no espaço (produção social). A sociedade se organiza e estrutura o espaço urbano conforme o seu modo de produção, portanto, no modo de produção capitalista a cidade se organiza a partir da oposição de classes.
A configuração espacial das cidades se caracteriza por obedecer a um padrão dentrítico em que o centro é a área polarizadora a partir da qual a cidade difunde-se, ramifica-se rumo à periferia, mas acompanhando eixos estruturantes. E essa expansão urbana é conduzida de acordo com os interesses do modo de produção.
A segregação socioespacial urbana vem se agravando muito ultimamente conforme comprovam os indicadores sociais registrados nas cidades. Espaços urbanos tornam-se território exclusivo de certos grupos sociais como se a cidade não fosse um todo. O isolamento leva à exacerbação, os custos sociais tornam-se cada vez mais altos e os conflitos tendem a aumentar, em número e em intensidade.
Por isso, é necessário levar em consideração a importância, na gestão urbana, dos problemas de ocupação e uso do solo, para evitar os conflitos sociais e ambientais gerados pelo capitalismo, principalmente a exclusão social.