PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO
2. A PRIMEIRA EXPERIÊNCIA CLÍNICA: APRESENTAÇÃO DE
2.1. Expectativas, dificuldades e experiências
Por expectativas entendem-se todas as situações que os estudantes esperavam vivenciar durante o Ensino Clínico e relativamente às quais inquirimos os entrevistados, no 2º momento, sobre o seu grau de concretização.
Antes de iniciarem o seu Ensino Clínico as expectativas dos estudantes estavam voltadas, sobretudo, para as Intervenções de Enfermagem que iriam desenvolver ao longo do mesmo “(…) Avaliar a tensão arterial, realizar punções, talvez dar banho ao bebé (…) fazer vários ensinamentos à puérpera (…)” (EA1); “Eu gostava de ver aqueles casos mais graves, graves e menos graves, mas além disso, eu gostava era de poder intervir” (EA4) e “Espero desenvolver as aptidões necessárias: técnicas, cognitivas e afectivas” (EA6).
Este facto pode dever-se à circunstância em que o Ensino Clínico acontece, pois, é o primeiro de carácter interventivo destes estudantes. De referir que, até então, os estudantes apenas tiveram a oportunidade de direccionar as suas intervenções para manequins, em sala de aula.
Em segundo lugar, aparece simultaneamente a preocupação expressa em atingir os objectivos pré-definidos para o Ensino Clínico e a preocupação com as relações que iriam estabelecer, conforme se ilustra a partir da seguinte transcrição “(…) estabelecer uma boa relação com as pessoas (…)” (EA1).
Quanto às expectativas relativas à integração do Ensino Clínico no Curso, existem apenas duas referências. Os estudantes esperavam no final do Ensino Clínico ficar com
“(…) Uma noção mais exacta daquilo que iremos fazer quando acabarmos o curso (…)”. (EA1). Antes do início do Ensino Clínico há um estudante que esperava “(…) Ultrapassar algumas dificuldades (…)” (EA6) e dois que pretendiam vivenciar novas experiências, nomeadamente “(…) ver coisas que nunca vi” (EA4), de forma a gerar um enriquecimento pessoal e profissional.
Após o Ensino Clínico, todos os estudantes são peremptórios em afirmar que o Ensino Clínico “(…) correspondeu às (…) expectativas” (ED5).
Além disso, os estudantes confirmam, após o Ensino Clínico as suas expectativas, relacionadas com a relação, atingir objectivos e o Curso.
Em anexo, apresentam-se algumas das expressões verbais utilizadas pelos estudantes e o modo como as mesmas foram incluídas nas diferentes sub-dimensões (Ver Anexo 5). Em síntese, as expectativas iniciais maioritariamente referidas pelos estudantes antes do seu Primeiro Ensino Clínico recaem sobre a realização das Intervenções de Enfermagem, seguindo-se aspectos do âmbito das relações a estabelecer e o cumprimento dos objectivos definidos para esta etapa da sua formação. De realçar que os estudantes são unânimes em afirmarem, após terem terminado o seu Ensino Clínico, que as suas expectativas foram concretizadas.
Dificuldades
As dificuldades constituem receios que os estudantes admitem poderem existir face à nova realidade, o Ensino Clínico.
Antes do Ensino Clínico, os estudantes apontavam como potenciais dificuldades, a relação a estabelecer com os vários actores do ambiente hospitalar, a realização das Intervenções de Enfermagem “(…) Dificuldades em termos de procedimentos e técnicas a efectuar às pessoas. Há sempre aquela sensação: será que vou fazer bem? Como é que é? Como é que a pessoa está a receber o tratamento, se aceita, não aceita, o que é que acontece? É sempre aquela dúvida que fica” (EA1) e a dificuldade em responder às possíveis questões
que lhe poderiam ser colocadas “(…) Se for colocada alguma questão (…) não conseguirmos resolvê-la (…)” (EA5).
Embora menos vezes referidas, os estudantes incluem dentro das dificuldades esperadas, a realização do relatório de estágio “O relatório de estágio (…) aí toda a gente está um bocado preocupada (…) (EA5) A dificuldade estava em saber o que falar. É tão pouco espaço para escrever, que temos de dizer muita coisa em poucas linhas” (ED5), agir em situações de emergência “(…) No caso de acontecer alguma eventualidade, surgir algum problema e eu ter de reagir logo de seguida (…)” (EA2), a avaliação “(…) Vai ser difícil estarmos a pensar que estamos a ser avaliados e a realizar as tarefas” (EA3), o desconhecimento da formação académica por parte do tutor “(…) Pode haver algum tipo de dificuldade (…) não é por falta de conhecimentos, nem por falta de compreensão dos tutores, mais por eles poderem não conhecer muito bem as nossas limitações, porque não estão diariamente aqui connosco na Escola e os coordenadores de cada grupo de estágio poderem não entender bem quais as nossas limitações lá, ou seja, vai haver dois tipos de avaliações, mas a pessoa que me vai avaliar não sabe, uma não sabe o que estava antes e a outra não sabe o que estava depois” (EA4) e a potencial falta de oportunidade para demonstrar os conhecimentos “(…) Às vezes podemos não conseguir mostrar aquilo que sabemos, ou porque não houve oportunidade para fazer determinado procedimento, ou porque no momento em que tivemos essa oportunidade não a aproveitámos como devíamos aproveitar” (EA4) .
Após o Ensino Clínico, os estudantes confirmam as dificuldades referidas anteriormente, e acrescentam dificuldades relacionadas com o serviço “Cumprir os horários uma forma mais rígida. Aqui na Escola temos sempre aqueles 15 minutos de tolerância e se não nos apetecer ir à aula podemos faltar, mas lá é para trabalhar é para trabalhar. Além disso, o nosso trabalho na Escola é só estar a ouvir e a escrever, lá é fazer, é diferente.” (EA3), a linguagem científica utilizada pelos profissionais de saúde “Há sempre aqueles termos científicos (…) há quem utilize mais uns do que outros, e aí é necessário conhecer uma globalidade de termos. Mas, também não aprendemos na Escola certos termos. Estamos no 2º ano e haviam alguns termos referidos pelos Enfermeiros, que nós não conhecíamos esses casos e tínhamos de lhes perguntar o que eram, porque não faziam parte do nosso currículo até aqui. Mesmo relativamente à terapêutica, havia muita e com nomes genéricos, os quais não conhecíamos.” (ED5), e negam a dificuldade que tinham expectado sobre a falta de oportunidade que poderia existir, para demonstrarem os seus conhecimentos “Considero que as oportunidades que me ofereceram foram suficientes para eu demonstrar os meus conhecimentos” (ED4). Além disso, após a realização do Ensino Clínico os estudantes referem um maior número de vezes as dificuldades de relação, não só a estabelecida com os tutores “Não foi muito bem percebido que, para mim era difícil estar a viver longe de casa” (ED4); “Há sempre aquelas pessoas que
pensam que são superiores aos outros. Nota-se que o relacionamento não era tão fácil com umas pessoas, do que com outras (…) Bastava chegar perto dessa pessoa, dizer bom-dia, e às vezes não havia resposta, ou então havia um bom dia esquisito (…) notava-se que não havia aquela empatia, receptividade (…) Lembro-me, por exemplo, que houve uma situação em que a Enfermeira me disse para ir ao Simpósio, eu fui buscá-lo, e este estava perto da Enfermeira que há pouco falei (…) Eu cheguei lá e disse: “Posso tirar?”, porque ela estava a trabalhar, mas eu só queria que ela me aproximasse o Simpósio, e ela disse: Vá, vá (…) Vamos, rápido, que eu tenho que fazer”. (ED1), mas também com as utentes “Haviam sempre aquelas pessoas que não eram tão simpáticas, não recebiam tão bem os nossos cuidados” (ED5), relacionadas com as Intervenções de Enfermagem, agir em situações de emergência e a avaliação.
Em síntese, as expectativas inicias dos estudantes recaem sobre os aspectos relacionais, as Intervenções de Enfermagem e o questionamento. Após o Ensino Clínico, os estudantes confirmam e enfatizam as dificuldades de relação, as Intervenções de Enfermagem e o questionamento, acrescentando as relacionadas com aspectos do serviço e da linguagem científica, agir em situações de emergência, a avaliação e negam a falta de oportunidade para demonstrarem os seus conhecimentos.
Experiências
Quando falamos em experiências referimo-nos a todas as Intervenções de Enfermagem, quer técnicas, quer relacionais, que os estudantes pretendiam desenvolver ao longo do Ensino Clínico.
Os estudantes manifestam interesse em desenvolver várias experiências durante o Ensino Clínico, as quais, coincidem com as várias Intervenções de Enfermagem aprendidas durante as aulas teóricas e teórico-práticas, que acabam por concretizar. O desejo de assistir a um parto acaba por ser a expectativa mais vezes referida pelos estudantes “Acho que o que toda a gente espera mesmo é assistir a um parto (…)” (EA5). No final do estágio, esse anseio é satisfeito.
Existem alguns estudantes que referem não ter realizado algumas das Intervenções de Enfermagem aprendidas na Escola, como é o caso da algaliação “Eu tive a oportunidade, de fazer a uma mulher, mas houve alguns colegas que não tiveram oportunidade (…)” (ED5), outros referem não ter realizado a Intervenção de Enfermagem o número de vezes que estavam à espera, chegando mesmo a sugerir que “(…) Há outros serviços, em que há mas procedimentos para fazer, a diversidade também é maior, se calhar, era mais adequado para o primeiro estágio (…)” (ED1).
De salientar que, os estudantes incluem dentro das Intervenções de Enfermagem expectadas e efectivamente realizadas durante o Ensino Clínico, não só as técnicas
“Tudo o que aprendi: algaliação (…) punção, cuidados perineais (…)” (EA6), como também as relacionais “(…) contactar com as outras pessoas, com os bebés.” (EA3).
Em síntese, os estudantes esperavam realizar um maior número de Intervenções de Enfermagem durante o Ensino Clínico, relativamente àquelas que efectuaram.