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Em 7 de agosto de 2006, como resultado de ação conjunta da sociedade civil e do Estado, foi promulgada a Lei 11.340, que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a

115 Destaque-se que cumprir com o disposto na Convenção de Belém do Pará signifi ca enfrentar elevados desafi os, pois requer dos Estados medidas legislativas, programas de ação, capacitação e reformas na esfera da administração de justiça, entre outras, acompanhadas de campanhas de largo alcance social, que contribuam para mudança de paradigma, com o reconhecimento e respeito aos direitos humanos das mulheres. Importa, também, operar com os conceitos apresentados pela Convenção, condutores de uma normatividade jurídica asseguradora dos direitos da mulher. Disponível em http://portal.oas.o- rg/Portal/Topic/ComisiónInterameric-anadeMujeres/ViolenciaconntralaMujerMESECVI/Reuniones/ ConferenciaEstadosParte/Reunión2/tabid/1385/language/es-Co/ Acesso em: 3 de março de 2009. 116 Disponível em http://www.ess.ufrj.br/prevencaoviolenciasexual/download/015datasenado.pdf. Acesso

em: 4 de abril de 2009.

117 Disponível em: http://copodeleite.rits.org.br/apcaapatriciagalvao/home/pesquisa_ibope_2006_versao_ site.pdf. Acesso em: 18.02.2009.

118 Disponível em http://www.pt.org.br/portalpt/index.php?option=com_content&task=view&id=10932&- Itemid=&Itemid=242 Acesso em: 4 de abril de 2009.

criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal e dá outras providências.

O Brasil reconstituído, consoante previsão na Carta Cidadã, passa a dis- por de mecanismo legal específi co para compensar perdas históricas de direitos por parte das mulheres, em especial na esfera dos direitos fundamentais, sub- vertendo a ordem estabelecida para ajustá-la substancialmente ao princípio da igualdade.

Vislumbra-se na Lei Maria da Penha a instrumentalidade necessária para prevenir e coibir o grave e complexo fenômeno social da violência doméstica e familiar contra a mulher. Trata-se de um mecanismo legal para gerar procedi- mentos judiciais, políticas e serviços no âmbito do sistema de Justiça, operando em rede, com a perspectiva interdisciplinar e o foco na mulher, usuária deste sistema, que demanda do Estado um papel mais ativo na condução de sua pro- blemática, em virtude de afetação aos direitos humanos.

A opção do Estado Brasileiro por uma legislação própria de política com- pensatória, constituinte de ação afi rmativa, encontra-se em conformidade com os instrumentos internacionais fi rmados pelo Brasil, como visto anteriormente, em consonância com ação política similar no cenário ibero-americano, mais nitidamente, junto ao Estado Espanhol.119

Cotejando os documentos produzidos pelo Consórcio de Mulheres120 e a exposição de motivos à Lei Maria da Penha121, verifi ca-se que, em síntese, as expectativas preponderantes no conjunto de forças políticas do movimento que impulsionou a criação da referida legislação especial reside em propiciar ao Poder Judiciário e órgãos afi ns instrumentos adequados a uma prestação juris- dicional certa à população feminina, voltada para assegurar os direitos humanos das mulheres. Ou seja, que a resposta estatal frente a casos concretos leve em conta o paradigma dos direitos humanos, fundamente-se por princípios 122, so- bretudo os da proporcionalidade e da razoabilidade, dentre outros, e repercuta junto à sociedade como meio dissuasório de condutas violadoras destes direitos.

119 A legislação espanhola, a partir de 29 de dezembro de 2004, passa a contar com a Ley Integral contra La

Violencia de Género, que contempla um conjunto de medidas para tentar erradicar o maltrato a mulheres

e à mentalidade social que o sustenta. LÓPEZ Aguilar, Juan Fernando. El Compromiso Político contra la Violencia de Género. La Administración de Justicia en la Ley Integral contra la Violencia de Género.

Ministerio de Justicia. Madrid, 2005, pag. 9.

120 Disponível em http://200.130.7.5/spmu/legislacao/projeto_lei/lei_violencia_domestica.htm. Acesso em: 10 de abril de 2009.

121 Disponível em http://200.130.7.5/spmu/legislacao/projeto_lei/expo_motivos.htm. Acesso em: 10 de abril de 2009.

122 SCHMITT, Ricardo Augusto. Princípios Penais Constitucionais. Direito e Processo Penal à Luz da Constituição Federal. Edições Podivm, 2007

LEI MARIA DA PENHA 199

Ao fi nal, que realce o principio da igualdade, primado da democracia, contri- buindo para operar mudanças signifi cativas nas relações sociais entre homens e mulheres.

Visa-se, também, estimular e fomentar o debate jurídico para além da vio- lência doméstica e familiar, criando ambiência, tanto no sistema judicial quan- to fora dele, favorável à consagração dos direitos da mulher, seja na concretude dos direitos postos, seja na conquista de novos direitos, objetivando a simetria de poder entre homem e mulher.

Como consequência da existência da Lei Maria da Penha, prevê-se a ins- talação, no âmbito do sistema de Justiça, de polos irradiadores e receptores de política judicial com perspectiva de gênero, constituídos por órgãos judicantes, de atuação do Ministério Público e da Defensoria Pública, os serviços de apoio à prestação jurisdicional123, com competência, atribuição e fi nalidade específi - cas para tratar de questões relacionadas aos direitos humanos das mulheres, em especial, aplicar a Lei Maria da Penha.

3.2.3. A repercussão da lei

Dois anos da Lei Maria da Penha: o que pensa a sociedade? 124 Essa pergunta provocou a pesquisa realizada pelo IBOPE e a Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero — Th emis no segundo semestre de 2008, em parceria com o Instituto Patrícia Galvão. Os dados coletados e analisados por Fátima Pacheco Jordão demonstram a extraordinária repercussão que a Lei Maria da Penha alcançou na sociedade, ampliando o sentimento de rechaço à violência doméstica e familiar contra a mulher. A pesquisa revela que a maioria da população conhece a Lei Maria da Penha e sabe da sua efi cácia:

A sociedade tem consciência e percepção da magnitude do problema da violência contra a mulher

Do total de entrevistados, homens e mulheres, 68% declararam conhecer a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06), ainda que de ouvir falar, e têm opiniões formadas sobre o conteúdo e o impacto da Lei.

123 A Lei Maria da Penha prevê medidas integradas de prevenção (art. 8º) com a integração operacional do Poder Judiciário, do Ministério Público, da Defensoria Pública, com a segurança pública, assistência social, saúde, educação, trabalho e habitação. Estabelece, também, que poderão ser criadas Delegacias Policiais, núcleos da Defensoria Pública, serviços de saúde e centros de perícia médico-legal especializa- dos. Dispõe, ainda, da equipe de atendimento multidisciplinar (art. 29).

A Lei é mais conhecida nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde 83% dos entrevistados conhecem a Lei e seu conteúdo. No Nordeste e Sul as taxas de conhecimento são, respectivamente, de 77% e 79%.

No conjunto do país, a população com menor renda familiar (até 1 salário mínimo) ou escolaridade (até a 4ª série) está no patamar mais baixo de conhecimento, mas ainda assim a taxa é de 59%.

O maior conhecimento da Lei Maria da Penha nas regiões Norte/ Centro-Oeste e Nordeste pode ser atribuído ao ativismo dos movimentos sociais de mulheres, que com suas vigílias, apitaços, denúncias sobre a não-aplicação da Lei, contagem de homicídios de mulheres e intervenções junto à mídia criaram um ambiente de debate e difusão de informações. Em contraposição, no Sudeste a mobilização da sociedade foi mais dispersa e não teve a mesma repercussão na mídia. É no Su- deste, e sobretudo na periferia das grandes cidades, que a lei é menos conhecida; ainda assim, 55% dos entrevistados nessa região conhecem a Lei.

Do total de entrevistados, 33% acreditam que a Lei Maria da Penha pune a violência doméstica; 21% pensam que a Lei pode evitar ou diminuir a violência contra a mulher; e 13 % sentem que a Lei tem ajudado a resolver o problema da violência doméstica.

Existem também entre os entrevistados as percepções de que se trata de uma lei que coloca o agressor na cadeia (20%) ou prejudica os homens que agri- dem (4%). Por outro lado, 5% acham que a lei não tem resolvido o proble- ma da mulher que sofre violência e 6% acreditam que a lei não funciona porque não é muito conhecida.

Verifi ca-se, portanto, que a Lei Maria da Penha tornou-se conhecida, co- mentada, alcançando grande repercussão junto aos meios de comunicação, inclusive, lugar privilegiado de visibilidade, quando novela125 veiculada por conhecido canal de televisão exibiu, por meses, cenas de violência doméstica, popularizando a questão, sem, contudo, banalizá-la.

Atividades culturais desenvolvidas por organismos governamentais e não— governamentais encarregados de promover ações em favor da cidadania femini- na foram realizadas junto ao extrato mais jovem da população, principalmente aos que vivem em comunidades periféricas, com a fi nalidade de difundir infor- mações sobre a Lei Maria da Penha. O objetivo de tais atividades consiste em estimular produção artística e pedagógica com o referido tema, neste meio.

Sobressaem-se das diversas iniciativas culturais empreendidas dois impor- tantes trabalhos. Um deles se traduz em CD organizado com composições de

125 “A Favorita”, da TV Globo, apresentava como um dos temas recorrentes o machismo do personagem Leonardo, interpretado pelo ator Jackson Antunes, e as agressões físicas e verbais praticadas contra sua esposa Catarina, interpretada pela atriz Lilia Cabral. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Fa- vorita. Acesso em: 10 de abril de 2009.

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