4 EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA DA CFR DE SANTA MARIA DAS
4.2 EXPECTATIVAS DOS ATORES (ASSESSORIA, MPA E PAIS) EM
Entre os sujeitos que compunham a equipe da CFR percebemos consensos e dissensos
quanto às expectativas sobre a educação ali ofertada. Em especial, distinguem-se as
expectativas das organizações (CPT, MPA) com relação às dos pais e jovens.
A CPT compreendia a formação dos jovens pela CFR como uma possibilidade de
ampliar o projeto de capacitação em práticas de produção diversificada de base agroecológica,
a qual já havia iniciado junto a um grupo de pais. Como os pais, os jovens também seriam
“disseminadores”, “multiplicadores” dessas práticas junto à família e à comunidade,
fortalecendo as condições para uma transição da agricultura patronal (sob a lógica do
agronegócio) à agricultura camponesa. Constituir-se-iam, portanto, em
“agricultores-técnicos”. Essa estratégia se encontrava articulada com uma dimensão em longo prazo,
favorecendo a “permanência na terra”.
O termo agricultor-técnico
60está ligado à possibilidade de agricultores prestarem
assistência técnica a outros agricultores, a partir da organização de um grupo com um
acúmulo de experiências teórico-práticas. Dentre as atividades da CPT, destacavam-se a
promoção de encontros e intercâmbios em outras localidades, favorecendo o contato dos pais
agricultores com diferentes organizações de trabalhadores rurais. Com incentivo de um dos
59 Como já especificado no capitulo 3 sobre o perfil dos jovens da CFR.
agentes da assessoria, os agricultores passaram a aprofundar o conhecimento sobre essas
outras formas de organização e acabaram se identificando com o MPA e sua disposição em
grupos de base, reunindo famílias. No período de 2001 a 2003, algumas lideranças passaram
a se articular diretamente com o movimento nacional do MPA.
Na perspectiva do MPA a formação dos jovens pela CFR, além das expectativas
sintetizadas pela CPT, deveria ainda estimular a formação de jovens militantes. Esta era a
principal expectativa desse grupo. Vale ressaltar que o MPA vinha orientando seu trabalho a
partir de três linhas: organização da produção; organização política e formação de quadros de
militantes. Neste sentido, a CFR mostrava-se um meio adequado para executar essas três
linhas, com ênfase na última.
No perfil do jovem almejado pelas lideranças do MPA ter-se-ia, ao fim dos três anos
de estudo, um jovem com conhecimentos e capacidades para desenvolver atividades
produtivas e gerar renda a partir da produção no próprio lote, e ainda, com habilidade para
participar de espaços públicos sem medo de se apresentar (ênfase na oratória)
61, o que
exprime a ênfase na formação de quadros militantes. Este perfil almejado para os jovens
articulava o âmbito familiar e local, dando continuidade a um projeto de desenvolvimento dos
agricultores na região.
De forma geral, podemos dizer que as expectativas dos pais ligados aos grupos de base
mostravam-se ao encontro com as expectativas da CPT como também do MPA.
Destacava-se ainda, a preocupação em que os jovens aprendessem técnicas ligadas ao
trabalho agrícola e as desenvolvessem no lote (agricultor-técnico). Isso deveria viabilizar
condições para geração de renda e sua conseqüente permanência no lote, sem depender de
trabalho extra-lote. As lideranças dos agricultores pautavam-se na idéia de “produzir para o
consumo e o que sobrar, vende”. Este é um lema do MPA que se constituiu em um dos
princípios da CFR, fato que marca a influência do MPA desde o início do processo de
constituição da CFR de Santa Maria das Barreiras.
Os pais se colocaram numa posição de construtores da CFR. Queriam que a escola
fosse referência. Recordam o acordo em que os pais ajudariam a manter a CFR no primeiro
61
Esta idéia está bem explícita em relatos como de Dona Alzira, que diz: Aí [fui me interessando pela CFR] nem só pelo financeiro, mas pelo conhecimento também, ele (Ex-agente da CPT, Paulinho) falou: um jovem que estuda três ano lá... o jovem acanhadim tem medo de pegar no microfone, tem medo de falar alguma coisa no público, não sabe nem chegar na cidade [grande]. [Mas,] o jovem que sai da CFR daqui há três anos ele vai pra qualquer lugar do Brasil, ele não tem medo de nada, ele não tem medo de desafiar com o presidente da República”. Paulinho falou isso lá. Vai ser um jovem sem medo, vai aprender muita coisa boa que a escola pública não vai ensinar (Dona Alzira. Entrevista concedida aos 01.08.2008).
ano e depois esta se auto-sustentaria com as atividades agrícolas a serem desenvolvidas em
sua sede.
Esse grupo de pais acreditava na possibilidade da CFR funcionar. Ela se constituía
num projeto deles, visto que poderia ao mesmo tempo garantir a continuidade dos estudos aos
filhos, envolvê-los na dinâmica do lote e tê-los morando junto com a família.
Por outro lado, identificamos que metade dos pais (50%) não estava diretamente
ligada aos grupos da CPT e MPA em sua trajetória de organização e formação
62. Quanto às
expectativas desse grupo, destacamos: a) garantir a continuidade do estudo aos filhos; b) ter
os filhos morando junto com eles. Duas expectativas que por vezes se tencionam: uma ligada
à reintegração familiar, outra na perspectiva do futuro profissional do filho. Nesta última, os
pais reconhecem a relevância do estudo. O fato de estimularem os filhos a assumirem outras
profissões tem forte ligação com as precárias condições de vida a que são submetidos, com
destaque no acesso a serviços sociais básicos: saúde, educação, comunicação, dentre outros.
Esses pais aderiram à proposta apresentada pela assessoria (CPT), no entanto,
apresentaram algumas resistências no que concerne às expectativas do MPA (mais
precisamente no que tratava da formação de militantes). Dois aspectos se manifestaram na
fala dos entrevistados: uma visão negativa sobre a atuação dos movimentos, visão esta
amplamente difundida pela mídia; e a comparação feita entre a CFR e escola agrotécnica
63,
como se fossem só que organizadas em períodos diferentes.
Quanto às expectativas dos jovens com relação à CFR identificamos quatro grupos de
respostas, conforme se demonstra na tabela 10:
62 Para facilitar a compreensão usaremos o termo “pais do grupo de base” para distingui-los dos pais que não estavam inseridos nos grupos assessorados pela CPT em parceria com o STR.
63
Citam como exemplo a escola agrotécnica de Araguatins-TO, local de onde se origina parcela significativa dos técnicos que atuam nas prestadoras de assistência técnica da região. No município de Redenção há uma escola agrotécnica em funcionamento, mas é pouco conhecida pelos pais.
Tabela 10 - Expectativa dos jovens com relação ao ensino na CFR
EXPECTATIVA ELAS % ELES % TOTAL %
Formação técnica
(igual à escola agrotécnica), ter um diploma com
vistas a conseguir emprego
3 23 2 15 5 38
Ensino básico e específico em técnicas de
trabalho no meio rural 1 8 3 23 4 31
Continuidade dos estudos (Achava que ensino
seria como nas demais escolas.) 2 15 1 8 3 23
Não expôs, pois estava fazendo a vontade da
mãe (morar perto e estudar) 0 1 8 1 8
Fonte: Pesquisa de Campo, 2008.
TOTAL 6 46 7 54 13 100
No primeiro grupo, temos 38% de jovens com expectativas de que o ensino na CFR
seria como o das escolas agrotécnicas, portanto, objetivavam uma formação técnica ou de
caráter profissionalizante com vistas a conseguir um emprego. Este grupo é constituído por
60% de mulheres e 40% de homens. A maioria pertence ao percentual de pais não ligados aos
grupos de base. Apenas uma jovem é filha de pai ligado ao grupo de base. Em geral, o estudo
está associado a uma estratégia de saída da agricultura. Como demonstram os dados, as
mulheres aparecem como maioria nesse grupo.
No segundo grupo de respostas, composto por 31% dos estudantes, é mencionada a
expectativa do ensino básico articulado com um ensino específico para qualificar a realização
do trabalho no lote, diferente da perspectiva de emprego na cidade, mencionada pelo primeiro
grupo. Essa expectativa pode ser compreendida como influência da participação destes jovens
nas discussões sobre a implantação da CFR. Do conjunto deste grupo, temos uma mulher
(25%) e três homens (75%). Destes, apenas um não tinha o pai inserido em grupo de base.
O terceiro grupo, composto por 23% dos estudantes, revela que não tinha nenhuma
expectativa especial. Os jovens pensavam que o ensino na CFR seria igual ao ensino das
demais escolas, assim, almejavam a continuidade dos estudos. O que nos leva a entender que
a inserção destes na CFR tem muito a ver com as expectativas dos pais. Compõem este grupo
duas mulheres (15%) e um homem (8%). Todos são filhos de pais ligados ao grupo de base
acompanhado pela CPT/MPA.
Por fim, temos um caso (8%) de jovem que não expôs sua expectativa, visto que
estava fazendo a vontade da mãe. Sua família faz parte dos não ligados aos grupos de base.
Vemos que as expectativas dos jovens no momento da entrada na CFR estão bem
relacionadas com a expectativa dos pais. Ao buscarmos entender as expectativas dos jovens,
na maioria dos casos, é a expectativa dos pais que se vê. Isso pode ser entendido como
atitudes de proteção ou ainda como atitudes que visam uma reintegração da família, frente à
possibilidade de trazer o filho novamente para o lote. Igualmente, vemos os filhos desejarem
ficar próximos dos pais.
Essas constatações nos levaram a pensar até que ponto os jovens haviam almejado
entrar na CFR. Especialmente, ao identificarmos que (23%) desses jovens afirmam que não
tinham expectativa especial, queriam apenas dar continuidade aos estudos. Por outro lado, o
fato de o jovem corresponder às expectativas dos pais, ingressando na CFR, pode significar
que ele compartilhe dessas idéias em certo nível. Por isso, a partir desse momento usaremos o
termo expectativas da família para tratar das expectativas de pais e jovens ligados aos grupos
de base da CPT/MPA e pais e jovens não ligados a esses grupos. Procuraremos agora destacar
as expectativas de divergência e convergência que se apresentam entre eles.
Inicialmente, a principal divergência nas expectativas dos dois grupos de famílias (pais
e jovens), ligados e não ligados aos grupos de base da CPT/MPA, centra-se na compreensão
sobre a CFR. Para a maioria das famílias (pais e jovens) ligadas aos grupos de base o objetivo
era a formação de agricultores-técnicos e a possibilidade de os jovens atuarem de forma mais
qualificada no lote. Já para a maior parte das famílias (pais e jovens) não ligadas ao grupo de
base, a ênfase estava na formação de técnicos na perspectiva do emprego na cidade.
Outras divergências, que serão discutidas mais adiante, emergiram no decorrer do
processo. No que se refere às expectativas convergentes das famílias não ligadas aos grupos
de base quanto à formação de jovens pela CFR, estas estão ligadas a estratégias familiares que
se complementam como veremos agora.
A maioria dos jovens que ingressaram na CFR teve incentivo dos pais, sendo este um
aspecto preponderante. Assim identificamos algumas expectativas ou estratégias presentes na
família para possibilitarem a inserção dos filhos na CFR, como expectativas de recomposição
familiar, reprodução e fortalecimento da unidade familiar, proteção e expectativas de
viabilizar o acesso/permanência no estudo.
Identificamos casos em que jovens estavam morando na área urbana para fins de
estudo. Isto corresponde a 38% dos jovens, sendo 03 mulheres e 02 homens. Temos 02 jovens
de famílias ligadas ao grupo de base da CPT/MPA e 03 não ligados. Dois desses jovens
estudavam e trabalhavam, mas acabaram desistindo do estudo e passaram a se dedicar
somente ao trabalho.
A possibilidade de estudar na CFR surge também como uma oportunidade de reunir a
família, tanto na perspectiva dos filhos como para os pais. O relato abaixo, de uma jovem,
apresenta elementos para expressar a situação em que os pais tentam trazer os filhos de volta
ao lote sem abandonar a estratégia de conseguir um maior grau de escolaridade para eles:
E eu morava lá [em Redenção]. E a mãe mais o pai morava aqui [PA Inajá II, em Santa Maria das Barreiras]. Era bem nesse tempo que eu morava só mesmo. E a mãe foi lá e me disse que o pai da Amanda [vizinho] tinha ido numa reunião lá e tinha essa escola e que ia ser muito bom. Aí a primeira reação minha é que não, não queria de jeito nenhum. A mãe ficou zangada comigo. Aí conversou mais comigo, aí ela veio pra cá e me deixou lá só, aí eu fui pensar. Aí eu falei: “É, dá pra iniciar”. Eu peguei e vim pra cá. Ela chegou lá um dia, eu peguei e falei assim: “ - Eu vou mais a senhora. Vou ver lá como é. Se eu gostar eu vou estudar”. Aí eu vim. Fui pra uma reunião lá. Aí eu gostei e comecei a estudar lá (Jovem Lúcia. Entrevista concedida aos 03.08.2008).