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No subcapítulo anterior foram apresentadas as disposições do acordo de livre comércio negociado entre Mercosul e União Europeia. Em relação ao presente tópico serão expostos nas próximas linhas os possíveis impactos que esse acordo terá para ambos os blocos.

Primeiramente, como um importante ponto é interessante sinalizar as prováveis consequências econômicas. Logo, na imagem a seguir, apresentam-se alguns dados sobre o futuro benefício do acordo para um dos países mercosulinos, neste caso o Brasil.

Figura 2 – Expectativas sobre o benefício do acordo de livre comércio para o Brasil.

Fonte: BRASIL (2019b)

Ainda, em relação ao Brasil e demais países mercosulinos, pode-se afirmar que suas economias são principalmente baseadas na agricultura. No que diz respeito à União Europeia, o bloco, no ano passado, comprou 182 bilhões de dólares em produtos do mesmo setor (BRASIL, 2019i).

Finalmente, nos parágrafos que seguem, informações sobre o potencial impacto do acordo para a área da agricultura de ambos os blocos serão expostas (BRASIL, 2019i).

Primeiramente, ao falar das consequências para o Mercosul, para Vieira (2019), o bloco ganhará ao usufruir das condições facilitadas para exportar para o grande mercado consumidor da União Europeia. Dessa forma, existem estudos prevendo o aumento das vendas dos produtos agrícolas destinados ao mercado europeu.

Entretanto, para Vieira (2019), alguns especialistas enfatizam a necessidade do aprimoramento de questões operacionais bem como a diminuição de dispêndios do Brasil, e dos demais Estados integrantes do Mercosul. Consequentemente, se isso for feito, os mesmos poderão usufruir da melhor forma o acesso comercial sobre a União Europeia.

Ainda, sobre o impacto ao setor agrícola mercosulino, um enfoque especial deve ser atribuído a dois produtos em específico perante o acordo: o vinho e o leite.

Com relação ao primeiro e suas disposições foi obtida uma resposta muito positiva pelo mercado argentino, porém a mesma reação não aconteceu com o brasileiro.

Segundo o posicionamento divulgado pela Bodegas de Argentina, órgão responsável pelas discussões envolvendo o setor de vinhos na Argentina, será muito propício estreitar relações com a União Europeia, já que é esperado que com o acordo o volume de produto enviado aos Estados europeus cresça (LA INDÚSTRIA..., 2019).

De acordo com a mesma instituição, existe a expectativa que a exportação de vinhos seja ampliada especialmente perante os seguintes Estados integrantes da União Europeia: Reino Unido, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Bélgica e Suécia (LA INDÚSTRIA..., 2019).

No que diz respeito ao Brasil, outro Estado-Membro do Mercosul, o Instituto Brasileiro do Vinho (IBRAVIN) publicou o seu posicionamento sobre as consequências do acordo com a União Europeia. Segundo essa instituição, os impactos não serão benéficos para o setor vitivinícola brasileiro como poderá ser para outras áreas econômicas na qual o tratado abrange (NOTA..., 2019).

Portanto, de acordo com o IBRAVIN, existe o receio de que o mercado nacional fique ameaçado com a chegada dos vinhos europeus por serem economicamente mais acessíveis, já que possuem uma série de auxílios governamentais que os demais países da América do Sul não têm (NOTA..., 2019).

Para solucionar tal impasse, o governo brasileiro auxiliará os produtores com verba para promover a atualização do setor vitivinícola nacional de modo que possam permanecer atraentes após a legalização do acordo com o bloco europeu (BRASIL, 2019d).

Por fim, ainda falta mencionar o possível impacto do acordo para os produtos lácteos do bloco sul-americano. Entretanto, primeiramente, deve-se explicar que os países europeus recebem uma série de auxílios do bloco, inclusive monetário, direcionados para área agrícola, mecanismo o qual se chama Política Agrícola Comum (PAC) (EUROPEAN COMISSION, [2019]f).

A PAC, previamente mencionada, apoia os produtores de leite europeus, e por isso, na visão de Origlia (2018), a crítica do Mercosul é que o seu setor não será influente o suficiente para disputar espaço e negociar perante o uso de tais subsídios pelos europeus.

Por mais que o leite, perante o acordo, esteja incluso no sistema de cotas por uma década, os países do Mercosul precisam de atualizações e inovações para tornarem-se atraentes, principalmente depois que essa fase de adaptação e transição do acordo passar. Portanto, nesse viés, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento sugere que ocorra a eliminação do imposto de importação sobre equipamentos usados no setor de lácteos (ACORDO..., 2019; BRASIL, 2019d; EUROPEAN COMISSION, 2019d).

Até o presente momento foi exposta a visão do Mercosul sobre o impacto do acordo para seu setor agrícola. A seguir, disserta-se sobre a visão europeia sobre o assunto.

Alguns europeus, como os franceses e o diretor da Associação Agrária de Jovens Agricultores da Espanha, consideram o acordo negativo para os seus setores agrícolas, pois afirmam que as condições de produção no bloco são muito mais rígidas que as apresentadas pelo Mercosul. Dessa forma, os seus gastos são mais expressivos, o que atrapalha na competição comercial com os demais Estados da América do Sul (NA FRANÇA..., 2019; VALDIVIA, 2019).

Ainda, em relação à visão espanhola acima exposta, existe a preocupação em específico com a entrada da laranja proveniente da Argentina, e do suco do Brasil. Isso se deve, segundo Ara (2019), pela posição espanhola em ser desfavorável à entrada de tais produtos para o desenvolvimento do seu município de Valência. Tal cidade, na Espanha, é referência por frutificar grandes volumes do produto e consequentemente mobilizar grandes valores em euros.

Pode-se acrescentar, como expõe Valdivia (2019), que a Associação Agrária de Jovens Agricultores da Espanha defende que, se for preciso, serão utilizadas as medidas de salvaguarda para dar suporte para o mercado local. Ao mesmo tempo, entretanto, sua visão também é otimista, pois haverá um período de adaptação entre a finalização das negociações e a entrada em vigor do acordo, dando ao bloco europeu a oportunidade em ajustar-se perante a nova realidade.

Ao finalizar esse tópico, deve-se deixar claro que a França chegou a ameaçar não ratificar o acordo de livre comércio com o Mercosul. Muito se deve por questões ambientais, que será abordado posteriormente, mas também, por questões de agricultura, já que esse setor francês possui grande importância na região e poderá sofrer impactos com a chegada de produtos provenientes do Mercosul (FRANÇA..., 2019).

Depois de ter mencionado os prováveis impactos do acordo para o setor agrícola, deve-se fazer o mesmo com o setor industrial, partindo da visão disseminada pelos Estados integrantes do Mercosul.

Segundo estudos feitos e expostos por Andrade (2019), o crescimento de vendas do Mercosul na área da agricultura, se o acordo vier a vigorar, também refletirá positivamente no setor industrial. Por exemplo, no mercado brasileiro quando um bilhão de reais em produtos agrícolas forem vendidos para a Europa, consequentemente 300 milhões de reais em artigos industriais, como metais e químicos, serão utilizados.

De acordo com Cabral (2019), o Centro Internacional de Negócios do Ceará também compartilha um posicionamento positivo sobre o assunto em questão. A visão exposta é que será benéfico para o futuro do bloco sul-americano, desfrutar da eliminação de tarifas de importação sobre bens industriais europeus. Dessa forma, diversas áreas do bloco sul americano se favorecerão pela simplificação na entrada aparelhos e maquinários europeus que são referência mundial, proporcionando a inovação dos Estados para a sua melhor presença e influência no mercado.

Agora, em relação à perspectiva europeia sobre o acordo e suas disposições para o setor industrial, o resultado também é considerado positivo, principalmente para a área automobilística. Conforme informações divulgadas pela Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis, espera-se que o volume de veículos importados pelos países do Mercosul aumente com a vigência do acordo, uma vez que o bloco sul-americano possui dados expressivos em número de habitantes e também sobre seu PIB (AUTO..., 2019).

No que diz respeito aos pontos não tão favoráveis para a indústria, um deles é o posicionamento da Associação Europeia de Etanol Renovável (EPURE), já que essa se opôs fortemente às disposições do acordo. Segundo a organização, a cota do produto estabelecida nas negociações entre o Mercosul e a União Europeia representa em torno de 12% do volume de etanol presente no bloco europeu, sendo prejudicial para os mesmos. (EPURE, 2019)

Dessa forma, a associação afirma que os integrantes da União Europeia possivelmente sentirão as consequências negativas da entrada do produto proveniente do Mercosul, no momento em que o acordo entrar em vigência. Isso se deve, pois o seu mercado não é forte o suficiente para lidar com a concorrência mercosulina (EPURE, 2019).

Além disso, também é necessário apresentar os pontos negativos, segundo a visão do Mercosul, sobre as questões industriais no âmbito do acordo de livre comércio. Primeiramente, em relação à Argentina, como expressa Costa (2019), a União Industrial do país posicionou-se afirmando que o seu setor não é robusto o bastante para estar no mesmo mercado com os produtos europeus.

Por outro lado, tratando sobre o Brasil, Vieira (2019) expõe o posicionamento da Comissão de Assuntos Econômicos que compartilha da mesma opinião argentina exposta acima. A Comissão declara que no período de uma década, menos da metade dos fabricantes de veículos presentes atualmente no Brasil permanecerá atuando. Isso se deve, pois o setor nacional brasileiro não conseguirá disputar mercado com a indústria europeia, já que a essa é muito mais moderna e especializada.

Para finalizar as disposições sobre os impactos para o setor industrial brasileiro, o Instituto Aço Brasil também visualiza negativamente os pontos pactuados no acordo de livre comércio. Segundo a instituição, após o acordo entrar em vigor, o setor terá prejuízos com a entrada de bens siderúrgicos europeus (SETOR..., 2019).

Em relação ao que foi previamente mencionado, hoje em dia, a situação nacional não é estável, pois há uma grande quantidade de siderúrgicos no mercado, em um contexto econômico com condições desfavoráveis. Dessa forma, se medidas não forem tomadas para aprimorar e modernizar a qualidade do setor o quanto antes, os danos poderão ser muito piores com a legalização do acordo (SETOR..., 2019).

Dentre todas as ramificações do acordo abordadas até o presente momento, a área de desenvolvimento sustentável com certeza foi a que mais ganhou repercussão na mídia. Portanto, nas linhas que seguem, discute-se um pouco mais sobre o assunto e a sua influência para os blocos econômicos.

Um dos tópicos sobre o meio ambiente que necessitam ser expostos é em relação à Floresta Amazônica, já que a região está diretamente ligada às pautas do acordo atualmente. Segundo Spring (2019), a floresta vem sofrendo queimadas, sendo que muito desses casos ocorrem devido ao clima seco, e possuem repercussões em menor escala na mídia. Entretanto, em outras situações de desflorestamento, como o acontecido em agosto deste ano, tomou proporções muito

maiores tanto em quesito de destruição, quanto pela atenção internacional dada por diversos Estados membros da União Europeia.

Primeiramente, ao falar da França, o país se opôs fortemente ao acordo, principalmente pela posição brasileira sobre o desenvolvimento sustentável. Segundo o ponto de vista francês, o Brasil não preserva o meio ambiente adequadamente, bem como não cumpre rigorosamente as disposições do Acordo de Paris (FRANÇA DIZ..., 2019).

Em relação ao que foi exposto, além da França, a Irlanda chegou a advertir que também não ratificará o acordo se o Brasil não estiver engajado e comprometido com os padrões de boa conduta internacional sobre a questão ambiental (IRLANDA..., 2019; STUENKEL, 2019).

A Áustria, por sua vez, compartilha do mesmo posicionamento irlandês. Além disso, a opinião desta é de que o Brasil estaria desflorestando a Amazônia para ter mais solo para poder exportar produtos agrícolas para o bloco europeu. Portanto, segundo eles, essa medida é inaceitável para o estabelecimento do acordo de livre comércio bem como para os princípios austríacos. Como consequência, em setembro foi assentida a proposta, na Áustria, em que é exigido do seu poder executivo o posicionamento não favorável ao acordo de livre comércio perante a votação no Conselho Europeu (GROENDAHL, 2019; PARLAMENTO..., 2019).

Por fim, deve-se expor o posicionamento alemão, já que o mesmo diverge dos anteriores europeus aqui apresentados. Segundo a visão de Angela Merkel, chefe de governo da Alemanha, a não legalização do acordo não solucionará o impasse do desflorestamento presente na Amazônia (MERKEL..., 2019).

Além disso, Pamplona (2019), apresenta a visão do vice-ministro alemão da Economia e da Energia que é similar ao da chanceler. O vice-ministro, por sua vez, defende que os problemas internos brasileiros, como é o caso da Amazônia, devem ser resolvidos pelo governo local e não através de interferência externa.

Para concluir os pontos da presente temática, deve-se mencionar o princípio da precaução, já abordado nesta pesquisa. Esse ponto também foi tratado no texto do acordo, na seção de desenvolvimento sustentável e, portanto, é necessário pontuar os seus benefícios para o Mercosul.

Segundo informações retiradas no documento oficial do Ministério das Relações Exteriores, o bloco europeu irá empenhar-se em utilizar corretamente o princípio da precaução. Portanto, será tomado o cuidado para que o presente

princípio não seja aplicado de forma equivocada, dificultando o acesso das mercadorias mercosulinas ao adentarem a União Europeia (BRASIL, 2019i).

Tendo finalizado a abordagem sobre desenvolvimento sustentável, a seguir será apresentado o potencial impacto das disposições do acordo sobre o setor de serviços e compras governamentais para os dois blocos.

Primeiramente, sobre o setor de serviços, o bloco europeu atualmente fornece duas vezes mais do que compra dos países do Mercosul, de acordo com informações da European Comission (2019c). Portanto, as consequências do acordo serão positivas para os Estados europeus, visto que terão facilidades para expandir ainda mais os seus serviços para os Estados sul-americanos.

Por outro lado, as perspectivas sobre o setor de serviços não são tão otimistas entre os Estados do Mercosul. Como pôde ser visto acima, os serviços são mais comprados do que enviados para a Europa. Portanto, para mudar essa perspectiva, os Estados mercosulinos, como é o caso do Brasil, deve priorizar o melhoramento do setor, bem como a sua atualização, para que possa ser atrativo e exportá-los com ainda mais qualidade para o bloco europeu (BRASIL, 2019g; EUROPEAN COMISSION, 2019c).

Em segundo posto, no que diz respeito às compras governamentais, com o acordo de livre comércio as firmas europeias poderão disputar espaço homogeneamente com as companhias nacionais do Mercosul (SALATI, 2019).

Em relação ao que foi previamente exposto, Salati (2019) menciona que, segundo a visão de Victor Lopes, profissional na área de legislação alfandegária e negócios exteriores, o processo de compra governamental se tornará mais ético e positivo. Isso se deve, pois os Estados europeus poderão contestar sobre qualquer anormalidade percebida no período de disputa sobre o oferecimento de sua mão de obra no território do outro bloco (e também vice-versa).

Acrescenta-se que as disposições sobre as compras governamentais também foram consideradas positivas pelo Ministério das Relações Exteriores, já que a União Europeia movimenta em torno de 1,6 trilhões de dólares em licitações públicas. Dessa forma, o Brasil, bem como o Mercosul, poderá inserir-se nesse contexto comercializando a sua mão de obra, conhecimentos e produtos (BRASIL, 2019j).

Para concluir este subcapítulo, os últimos tópicos que serão abordados fazem menção às consequências das medidas de propriedade intelectual e das normas sanitárias e fitossanitárias nos blocos europeu e sul-americano.

Em primeiro posto, no que se refere à propriedade intelectual e consequentemente sobre as disposições das propriedades geográficas, tanto Mercosul quanto União Europeia poderão se beneficiar com o acordo. Sendo assim, segundo a Agência de Notícias do Paraná (2019), os produtos nacionais que forem inclusos na classificação de propriedade geográfica poderão receber mais atenção e prestígio internacional, impulsionando dessa forma as exportações.

Por fim, no que concerne as disposições sanitárias e fitossanitárias do acordo, para o Mercosul, segundo Palermo (2019), o bloco poderá ganhar em termos de qualidade dos seus produtos e estabelecimentos. Isso se deve, pois o nível de exigência e cuidado demandado pela União Europeia ao importar é alto.

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