Capítulo II – Revisão de Literatura
2.4 Atributos e dimensões do Glamping
2.4.5 Experiência
Depois de abandonada a era industrial, onde os benefícios e características eram os pilares dos consumidores, é necessária uma nova abordagem de forma a podermos capitalizar as novas oportunidades através do fator experiência (Schmitt, 1999). No conceito em estudo, esta nova forma de pensamento tem de ir ao encontro da procura, criando novas ofertas onde
a experiência seja considerada um fator preponderante durante a estadia do turista. A componente da experiência orientada para os campistas foi mencionada como elemento a ter em consideração no estudo sobre a qualidade destes serviços (O’Neill et al., 2010). As experiências são eventos memoráveis que envolvem o indivíduo de uma forma intrinsecamente pessoal (Pine & Gilmore, 2013). Turismo é conhecido por ser uma atividade impulsionada pela experiência (Hemmington, 2007). Neste mesmo ano, Oh, Fiore, & Jeoung (2007) registam a ideia de uma pré-experiência mental e emocional esperada, que os turistas elaboram, reforçando a importância da experiência conjugada com outras componentes de produtos e serviços esperados. Não especificamente para o glamping, mas para o turismo em geral, a experiência tem sido igualmente vital (Mehmetoglu & Engen, 2011). No estudo de Brochado & Brochado (2016), a análise do mapa concetual revelou que 100% dos turistas mencionou o atributo experiência no seu contacto com o conceito de glamping. Segundo o maior portal de glamping da Europa, “glamping é tudo sobre a experiência” 8. Este atributo é conjugado com o atributo natureza por forma a revestir a estadia numa experiência diferente e memorável (Pereira, 2013).
O modelo de Pine & Gilmore (1999) demonstra que as experiências são uma nova fonte de criação de valor e representam a última etapa de desenvolvimento do valor económico (Mehmetoglu & Engen, 2011). No que respeita ao turismo, a experiência, de acordo com os referidos autores, é influenciada por quatro dimensões: entretenimento, educativa, estética e evasão, tendo esta última particular interesse no campismo. Neste modelo, o nível de participação ativa é desejado numa experiência glamping, por oposição a uma participação passiva, com menor efeito na performance do consumidor. Defende o mesmo modelo, que uma posição de imersão, face à absorção, promove maior envolvimento do turista na própria experiência, não o considerando como um mero espetador, mais sim como interveniente na ação.
Outros autores como Gentile, Spiller, & Noci (2007), contabilizam na componente experiencial, as dimensões: sensorial, emocional, cognitiva, pragmática, modo de vida e relacional. As interações entre todas as dimensões induzem no turista uma avaliação da experiência. Os resultados já estudados mostram que diferentes dimensões influenciam a satisfação geral dos visitantes em diferentes contextos. As diversas dimensões apontam para a complexidade na criação de experiências (Salmela et al., 2017).
8 http://goglamping.net/info/what-is-glamping/, acedido a 15 de março de 2017.
No presente estudo a dimensão “evasão” apontado por Mehmetoglu & Engen (2011), tem um relevo significativo face às outras dimensões traduzida pela fuga do quotidiano. A experiência aparece como autentica quando permite a “escapadela” (Ahn & Lee, 2015). Este escapar reflete a possibilidade de sair da vida quotidiana para entrar numa experiência diferente. A experiência liminar permite oportunidades individuais de se reencontrar e restabelecer com práticas de vida mais simples, ambientes naturais, família, e/ou amigos (Brooker & Joppe, 2014). Nesta vertente social o sentido de igualdade é percetível na visão do campista como uma “aceitável” opção de férias, especialmente porque oferece qualidade, conforto, opções de alojamento e acesso a locais costeiros únicos. Segundo os mesmos autores, o status social não é um impedimento à prática de campismo. Em estudos anteriores efetuados por Garst et al. (2009), a própria interação social entre os campistas já tinha sido identificada como sendo o segundo aspeto mais positivo da experiência de acampar. O tema da “escapadela” está subjacente ao estudo do campismo, tendo em conta a generalidade da necessidade que os campistas relatam em querer escapar das rotinas e obrigações da vida urbana (Brooker & Joppe, 2014). A necessidade de escapar da pressão urbana e a procura espaços paradisíacos foi mencionada de forma clara com a palavra “fuga” em estudos que abordavam a procura de uma segunda habitação temporária em ambiente natural (Wildish et al., 2016). Foi recentemente aferido que a experiência inserida no contacto com a natureza no conceito de glamping é vista como essencial para escapar do contexto urbano e aproveitar a companhia de familiares e amigos ao ar livre acompanhados de atividades relaxantes (Brochado & Pereira, 2017).
Foi ainda considerado interessante poder realizar uma atividade extra, atestando assim a importância da presença de atividades adicionais na experiência glamping (Pereira, 2013).
A capacidade para ter uma experiência diferente e a natureza da própria experiência, também foram alvo de destaque (Brochado & Brochado, 2016). A avaliação da qualidade da experiência por meio de conteúdo gerado pelo utilizador, parece envolver atributos funcionais que são oferecidos pelos prestadores de serviços, bem como elementos emocionais dos consumidores. A possibilidade de ter uma aprendizagem através das atividades disponibilizadas no local foi referenciada no mesmo estudo, como outra dimensão permitida pelo conceito e pela experiência glamping. A questão da envolvência no ambiente local, através da visita ao património é considerada igualmente como uma atividade que compõe a experiência deste conceito. Em estudos assentes no turismo de património a qualidade da própria experiência é analisada e representa uma importância considerável na
análise global da experiência (C. Chen & Chen, 2010). Partindo deste facto, na construção das ofertas de experiência glamping, por parte dos responsáveis das unidades, o conhecimento, visita e envolvimento no ambiente local deverá ter em conta as expectativas destes turistas.
As atividades para crianças e a possibilidade de coabitar com os animais de estimação pelos próprios donos, foi registada positivamente na análise de conteúdo gerado pelos utilizadores.
A possibilidade de praticar algumas atividades, como surf e ioga foram mencionados pelos utilizadores que viajaram sozinhos. Esta dimensão das atividades foi identificada como fazendo parte da experiência glamping, concorrendo no mesmo sentido com estudos anteriores (Brochado & Pereira, 2017). As atividades desenvolvidas num contexto ecológico representam uma possibilidade de aprendizagem e sensibilização para a qualidade do serviço prestado neste atributo (Ban & Ramsaran, 2017).
Os desportos e atividades de entretenimento fornecidos pelos parques de campismo, embora não se revelem decisivos na escolha do parque, são bastante importantes na análise da experiência (Mikulik et al., 2017). Estes dois atributos, quando eficientemente articulados e adequados aos campistas, são uma mais-valia e um fator diferenciador face aos concorrentes.
As experiências dos campistas surgem como qualidades oriundas da participação no campismo propriamente dito. As mesmas podem ser dinâmicas ou emocionais, adicionando momentos importantes para a sua vida relacionando-se com o ambiente natural (Garst et al., 2009). A descrição das experiências vividas no campismo, apuradas no estudo efetuado por estes autores, demostrou uma prevalência transversal em todos os tipos de parques de campismo, desde os mais básicos até aos mais sofisticados, relativamente aos meios disponibilizados.
O conhecimento das preferências dos campistas auxilia os gestores dos parques a prepararem mudanças nos atributos antecipando assim a escolha do acampamento (C. O. Oh et al., 2007).
O conhecimento dos atributos estudados pode auxiliar na construção de ofertas inovadoras.
As inovações abrem caminho para novas experiências turísticas (Hjalager, 2013). Assim, se considerarmos o glamping como uma inovação, estaremos a impulsionar o crescimento de novas experiências ao dispor dos utilizadores.